Foto: DR

Os tempos são estranhos e diferentes para todos, com todas as pessoas a serem bombardeadas com recomendações, restrições e onde, à primeira vista, tudo parece um contra-senso quando o imperativo é ficar em casa, mas o país não pode parar. Surgem dúvidas, questões, medos e receios, que podem ser resolvidos à distância de uma chamada telefónica ou de um clique. Foi também a pensar nisso, e com sentido de missão enquanto presidentes de Câmara – de Mação e Sardoal, respetivamente – que Vasco Estrela e Miguel Borges decidiram partilhar os seus contactos de telemóvel, nomeadamente os pessoais, para facilitar o contacto e proximidade com os seus munícipes. A verdade é que a vida continua, e apesar dos contactos serem agora mais virtuais que nunca, isso não pode ser razão para que o distanciamento social preventivo caia em situações de profundo isolamento, exclusão e algum desnorte, nomeadamente em territórios do Interior, onde o afastamento das sedes de concelho assume maior protagonismo e causa entraves a nível social, nomeadamente à população mais envelhecida.

Os novos meios de comunicação e nova tecnologias de informação, nomeadamente a Internet e o uso de redes sociais, são por estes dias métodos por excelência para encontrar o outro, em período de isolamento e quarentena. Mas a desigualdade digital ou a infoexclusão tratam uma realidade a ter em conta. Muito se deve aos constrangimentos do isolamento e da desertificação dos territórios, mas também a uma população envelhecida, que não tem os mesmos meios e aptidões na sua maioria para fazer face ao paradigma atual. É um grupo de risco quanto ao contágio pelo Covid-19, tem necessidades pelos cuidados de saúde que inspiram, e carece de acompanhamento regular e apoio para realizar algumas tarefas, até para se deslocar, mais que não seja para aceder aos serviços, comprar medicamentos, levantar a reforma ou ir a uma consulta médica. Nem todos terão familiares ou vizinhos para os incluir e apoiar, e daí ser necessário apelar à solidariedade e cidadania, demonstrada em tantos movimentos que surgem na região e no país.

Tudo isto foram preocupações que assaltaram o pensamento de Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, que após os dias intensos vividos devido ao novo coronavírus e com a declaração de uma pandemia, decidiu em conformidade com as ações do município, disponibilizar o seu contacto telefónico mais direto: o número de telemóvel pessoal.

Algo desde logo recebido com ovações aquando um comunicado dirigido à comunidade maçaense através do seu perfil no Facebook. As palavras de ordem foram de “Força, Coragem e Resiliência”, numa comunicação do dia 15, que visou transmitir “uma palavra de esperança e alguma tranquilidade, face aos sentimentos negativos que todos estamos a sentir”.

Foto: arquivo/mediotejo.net

“Temos vivido nos últimos anos tempos extraordinariamente difíceis! Este é mais um desses tempos! Tempos que nos conduzem ao egoísmo! Permitam-me apelar a que saibamos equilibrar esse, natural, egoísmo fruto da angústia que todos sentimos, com a vida em sociedade”, referiu, entendendo que “temos, todos, de acatar e seguir as recomendações das autoridades competentes e ponderarmos, de forma fria e adequada, as atitudes voluntaristas e bem intencionadas que possamos ter”.

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Em declarações ao mediotejo.net, Vasco Estrela falou sobre esta atitude, referindo crer que “sendo responsável máximo do concelho” deveria ser “o primeiro a tentar de alguma forma estar presente e não se esconder e dizer que para o que der e vier aqui estará”.

“Disponibilizei o meu número e depois outros [contactos institucionais], mas o meu em primeiro para que as pessoas pudessem falar, desabafar ou pedir algum esclarecimento”, disse, notando que “as coisas estão a correr com alguma normalidade dentro do que é possível”.

Vasco Estrela frisou que o serviço de Ação Social do município já começou “a entrar em contacto telefónico com todas as pessoas que faziam parte das atividades, nomeadamente da Universidade Sénior e Clube Sénior, e todas as outras que estão a viver sozinhas e que vivem de alguma forma isoladas. Isto para podermos transmitir uma mensagem de tranquilidade, de presença da autarquia, disponibilizando-nos para estar em contacto com eles diariamente, para os ajudar nalguma situação mais complicada que tenham”.

Apesar de tudo, o autarca nota que no concelho que gere se “sente alguma tensão no ar”, bem como na própria autarquia onde se nota preocupação que considera “transversal a toda a sociedade portuguesa e a nível mundial”.

“Dentro do que é possível, vamos tentando manter alguma normalidade. Não sabendo quando tudo isto vai terminar, estamos a fazer para que termine da melhor maneira possível”, adiantou.

O presidente de Câmara considera que é necessário que todos percebam que se vive “um período conturbado e temos de ser um pouco condescendentes uns com os outros” e ter a noção que se trata “de uma situação que nunca ninguém viveu”.

“Temos que nos adaptar e dar o nosso melhor (…) o que é importante agora é tentar ajudar as pessoas e é nesse sentido que todos estamos a tentar trabalhar”, concluiu.

 

O mesmo aconteceu em Sardoal, onde o presidente de Câmara Miguel Borges disponibilizou, além do seu contacto pessoal, um outro que servirá para ” situações de emergência social”, considerando que “apesar da necessária distância social, existem formas de continuarmos próximos”.

O contacto disponibilizado pelo autarca pretende atender “casos pessoais preocupantes, constrangimentos que encontrem ou situações que conheçam a necessitar de intervenção social”, além dos restantes contactos institucionais disponíveis.

Miguel Borges confirmou ao nosso jornal que esta ação pretende dar continuidade “às políticas de proximidade” e “para estar perto das pessoas e para que possam sentir-se perto de nós”.

“Em qualquer momento, além dos contactos normais e familiares, possam ter o contacto do presidente de Câmara que possa eventualmente desbloquear alguma situação (…) tudo aqui cabe. É importante que as pessoas, se assim entenderem, me possa contactar, mesmo se acharem que é uma situação que pode até não haver necessidade”, contextualizou.

O contacto disponibilizado, não só pelo Facebook, mas também a título pessoal, pretende atender, por exemplo, “pessoas idosas em situação de isolamento”.

O objetivo, segundo Miguel Borges, é que as pessoas “não se sintam tão desprotegidas, como na verdade estamos perante esta situação, ou na eventualidade de se poder dar mais alguma ajuda, é pôr todos os meios possíveis para continuarmos próximos dos nossos cidadãos”.

Presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges. Créditos: mediotejo.net

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Abordando a realidade que se vive em Sardoal, o autarca revela que “as pessoas estão a ter um bom comportamento, na sua esmagadora maioria, e estão a ter alguma calma”.

Ainda assim, o edil sublinha que “todos têm de ter cuidados, porque nós não sabemos o que vem aí, não sabemos o impacto e dimensão do prejuízo que esta situação pode vir a ter para todos nós”.

“Por isso, é muito importante que as pessoas sigam as recomendações das autoridades locais de saúde, sigam as indicações da Proteção Civil e que o façam e que levem isto a sério, porque é um caso muito sério”, afirmou, demonstrando visível preocupação pelo atual paradigma vivido.

“Estou preocupado com todos nós, comigo, com a minha família, com os munícipes, os sardoalenses, toda a população, todo o país, e todo o planeta! É muito importante que todos tenhamos esta preocupação, não vale a pena aligeirar. Calma é importante, mas não chega. Temos de ter calma e boas práticas”, aludiu, lembrando as medidas de segurança, de higienização e distanciamento social.

 

Estes são exemplos de alguns gestos que estão a proliferar-se no seio da sociedade e nas instituições locais, com intuito de trazer maior conforto e serenidade a um tempo tomado de assalto por uma pandemia, que veio alterar por completo a rotina dos portugueses, introduzindo novas formas de ser, estar e trabalhar.

Por agora, resta a cada um seguir as recomendações das entidades oficiais e autoridades de saúde, cumprindo com o dever cívico, protegendo-se a si e aos outros e colaborando para travar o contágio por Covid-19 evitando contactos pessoais, optando por recolhimento e cumprindo as normas de higiene, na certeza que tudo vai ficar bem. Demore o tempo que demorar.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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