Manuel Serrano soprou ontem, 8 de julho, as velas do seu 105º aniversário. Foto: mediotejo.net

Há aniversários que assinalam apenas a passagem do tempo. Outros tornam-se uma celebração da memória de uma terra. Foi isso que aconteceu na tarde de 8 de julho, na sede da Associação Cultural e de Apoio à Terceira Idade de Mouriscas (ACATIM), concelho de Abrantes, onde familiares, amigos, utentes e representantes da comunidade se reuniram para homenagear Manuel Serrano, que completou 105 anos de vida.

A cerimónia teve um significado especial. Ao lado do aniversariante estiveram a neta, sobrinhos e um dos seus cinco irmãos, num encontro de gerações que espelhou o percurso de uma vida iniciada ainda na primeira metade da década de 1920. No mesmo dia foi também celebrado o 87.º aniversário de Brígida Esteves, numa iniciativa que procurou valorizar duas histórias de vida ligadas à freguesia.

Na cerimónia esteve também presente a vereadora Raquel Olhicas, em representação da Câmara Municipal. Um dos momentos mais emotivos da sessão foi a leitura de textos biográficos dedicados aos dois homenageados.

No caso de Manuel Serrano, o texto resultou de uma adaptação de um trabalho publicado por João Maia Alves no blogue Mouriscas – Terras e Gentes, recuperando episódios de uma existência que se confunde com a própria história da aldeia.

Manuel Serrano nasceu a 8 de julho de 1921, no lugar de Outeiro dos Penedos, próximo do Surdo, na freguesia de Mouriscas. Era o mais velho de seis irmãos e cresceu numa família humilde, numa época em que o trabalho fazia parte da infância e a escola era um privilégio ao alcance de poucos.

Como tantas crianças da época, Manuel cedo começou a ajudar a família. Sonhava, porém, seguir outro caminho. Gostaria de ter sido pedreiro, mas o destino acabaria por levá-lo para um ofício que marcaria grande parte da sua vida.

O pai, Aurélio Serrano, conhecido na terra por “Aurélio Palhinhas”, encaminhou-o para a sapataria, profissão que também tinha raízes na família através do avô materno. Foi aí que aprendeu a trabalhar o couro, a cortar, coser e fabricar calçado à mão, numa altura em que cada sapato era produzido artesanalmente e em que o sapateiro ocupava um lugar indispensável em qualquer comunidade.

Durante décadas foi conhecido simplesmente como “Manuel do Aurélio”, nome pelo qual muitos habitantes de Mouriscas ainda hoje o identificam.

A vida de um homem que atravessou um século de mudanças

Poucas pessoas podem dizer que viveram tantas transformações como Manuel Serrano. Quando nasceu, não existiam televisões, computadores, telemóveis ou internet. As estradas eram escassas, os automóveis uma raridade e a agricultura fazia-se quase exclusivamente com recurso à força humana e animal.

Ao longo dos seus 105 anos assistiu à chegada da eletricidade às aldeias, da água canalizada, da mecanização agrícola, do telefone, da televisão e, mais tarde, das novas tecnologias que alteraram profundamente a forma de comunicar e de viver.

Manuela Alves, irmã do autor do blogue Mouriscas – Terras e Gentes. Foto: mediotejo.net

Viu Portugal atravessar diferentes regimes políticos, conheceu as dificuldades dos anos de guerra, acompanhou a emigração de muitos conterrâneos e assistiu ao crescimento e modernização de Mouriscas, vendo desaparecer profissões e costumes que durante séculos pareceram fazer parte da paisagem.

Também o seu percurso profissional acompanhou essa evolução.

ÁUDIO | Manuela Alves, irmã do autor do blogue Mouriscas – Terras e Gentes

Depois de exercer durante vários anos a profissão de sapateiro, acabou por trabalhar na antiga fábrica de seiras e capachos existente em Mouriscas, acompanhando a transformação económica de uma freguesia onde os ofícios tradicionais foram, pouco a pouco, dando lugar a novas atividades.

Quem conhece Manuel Serrano recorda-o como um homem trabalhador, discreto e profundamente ligado à sua terra.

A simplicidade sempre marcou o seu modo de estar. Habituado ao esforço diário desde muito novo, pertence a uma geração para quem o trabalho era encarado como parte natural da vida e onde valores como a entreajuda, o respeito pela palavra dada e a proximidade entre vizinhos constituíam pilares da comunidade.

Foi precisamente essa dimensão humana que a homenagem procurou destacar. Mais do que enumerar datas ou acontecimentos, o texto lido durante a cerimónia recordou episódios da sua vida, os desafios enfrentados e a capacidade de adaptação às profundas mudanças que o mundo conheceu ao longo de mais de um século.

A celebração organizada pela ACATIM foi muito mais do que uma festa de aniversário. Entre aplausos, palavras de reconhecimento e momentos de convívio, o encontro transformou-se numa homenagem à memória coletiva de Mouriscas, lembrando que as histórias individuais ajudam a construir a identidade de uma comunidade.

Aos 105 anos, Manuel Serrano é uma das últimas testemunhas de um tempo que desapareceu, mas que continua vivo através das suas memórias. E, por algumas horas, na sede da ACATIM, essas memórias voltaram a ser património de todos.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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