Manuel João Vieira regressa ao Tramagal com Irmãos Catita e anuncia novo disco. Foto: mediotejo.net

Cerca de 500 pessoas passaram na noite de sábado pela Sociedade Artística Tramagalense (SAT) para um reencontro com Manuel João Vieira, desta vez com os Irmãos Catita, num concerto de duas horas marcado pelos clássicos, sátira e irreverência, e com um novo disco no horizonte.

O concerto começou pouco depois da meia-noite e prolongou-se até cerca das 02:30, com um público conhecedor a acompanhar a plenos pulmões temas como “Cagalhon”, “Conan, o Homem-Rã”, “Lourenço Marques” e outras canções de um repertório construído ao longo de mais de três décadas.

Em palco, Manuel João Vieira liderou uma banda onde voltou a estar acompanhado por músicos e personagens de um universo que cruza música, cabaré e humor, com espaço também para Miss Suzie, presença histórica nos espetáculos dos Irmãos Catita.

Manuel João Vieira regressa ao Tramagal com Irmãos Catita e anuncia novo disco. Foto: mediotejo.net

Criados no início da década de 1990, os Irmãos Catita fazem, segundo a própria apresentação oficial do projeto, a ponte entre o “cançonetismo revivalista” e o espetáculo de cabaré ‘underground’. O primeiro álbum, “Very Sentimental”, inclui temas como “Cagalhon”, “Conan, O Homem Rã”, “Lourenço Marques” e “Campo de Ourique”.

No final do concerto, já nos camarins, Manuel João Vieira disse ao mediotejo.net que o projeto está novamente a ganhar atividade e revelou que há material para um novo disco.

“Estamos a voltar a reunir-nos e a ensaiar com os Irmãos Catita, o que já não fazíamos há algum tempo”, afirmou o músico, adiantando que existem “pelo menos 10 músicas já prontas para sair”.

Os novos temas não foram apresentados no Tramagal porque, explicou, ainda não estavam suficientemente ensaiados. Antes desse trabalho, Manuel João Vieira está a terminar um novo disco dos Ena Pá 2000, seguindo-se depois a preparação das novas músicas dos Irmãos Catita.

“Há uma qualidade de proximidade nos Irmãos Catita”

Para Manuel João Vieira, apesar de partilharem o mesmo universo de humor, provocação e personagens, os Irmãos Catita e os Ena Pá 2000 são projetos musicalmente distintos.

“Os Ena Pá 2000 são indubitavelmente mais rock”, enquanto os Irmãos Catita fizeram uma pesquisa ligada ao cançonetismo das décadas de 1950 e 1960, explicou, definindo estes últimos como uma proposta de “pop mais retro”.

Uma distinção que o músico já fazia no passado, situando os Catita mais próximos dos ritmos latinos e da música dos anos 60.

Manuel João Vieira regressa ao Tramagal com Irmãos Catita e anuncia novo disco. Foto: mediotejo.net

Vieira considera ainda os Ena Pá 2000 mais vocacionados para grandes espaços, ao passo que os Catita encontram uma das suas forças em salas onde a relação com o público é mais direta.

“Há uma qualidade de proximidade nos Irmãos Catita que é muito importante”, afirmou.

E havia uma surpresa preparada para o Tramagal, embora não tenha corrido como Vieira pretendia. O músico tentou interpretar “Ele e Ela”, tema celebrizado por Madalena Iglésias, mas brincou que não foi “seguido em termos harmónicos” pela banda.

O concerto teve também uma componente de reencontro entre Vieira e um público que conhece há vários anos os seus diferentes projetos. Entre os presentes estavam pessoas do Tramagal e muitas das redondezas, mas também tramagalenses residentes noutras zonas do país e público vindo de Lisboa, Rio Maior, Faro e outros pontos.

“Gostei, senti-me bem no palco. Até estava para tocar mais um bocado, mas os músicos estão cansados”, disse no final.

Manuel João Vieira regressa ao Tramagal com Irmãos Catita e anuncia novo disco. Foto: mediotejo.net

“Nunca houve tanta estupidez natural”

Mais de três décadas depois da criação dos Irmãos Catita, matéria-prima para a sátira parece ser coisa que não falta.

Questionado pelo mediotejo.net sobre se Portugal e o mundo atuais continuam a alimentar o absurdo e a provocação presentes nas suas músicas, Manuel João Vieira respondeu que a própria realidade não deixa de o surpreender.

“Numa altura em que está a prosperar a inteligência artificial, nunca houve tanta estupidez natural”, afirmou, acrescentando: “É essa estupidez natural que nós procuramos cultivar”.

Para o músico, puxar a realidade para o absurdo é também uma forma de intervenção. “No maravilhoso mundo da política séria, há todo o tipo de situações absurdas que são caricaturizadas nestas músicas, mas que são caricaturizadas porque existem”, afirmou.

Músico, artista plástico, professor e criador de personagens, Vieira continua a dividir-se entre a criação individual e o palco. “Eu não deixo de me surpreender a mim próprio quando estou a pintar”, disse, contrapondo o lado “solitário da pintura” à dimensão “mais social da música”.

Tramagal como “microcosmo de Portugal”

A passagem pela SAT representou também mais um episódio de uma relação que Manuel João Vieira foi construindo com o Tramagal.

Em 2022, apresentou-se no mesmo espaço com os Ena Pá 2000 e, em dezembro de 2025, escolheu a vila do concelho de Abrantes para lançar mais uma das suas incursões presidenciais, numa pré-campanha assente no habitual cruzamento entre sátira, política e performance.

Manuel João Vieira regressa ao Tramagal com Irmãos Catita e anuncia novo disco. Foto: mediotejo.net

Desta vez, quando questionado sobre o que encontra de particular na vila, Vieira definiu-a como um “microcosmo de Portugal”.

“Há qualquer coisa aqui diferente”, afirmou, dizendo ter “bastantes amigos” no Tramagal e referindo inclusivamente pessoas que, perante o aumento do custo da habitação em Lisboa, estão a comprar casa na vila.

SAT quer diversificar públicos e prepara nova Noite de Metal

Para a direção da Sociedade Artística Tramagalense, o regresso de Manuel João Vieira teve também significado pela relação que o artista mantém com a terra.

Liliana Pessoa, diretora da SAT, disse ao mediotejo.net que a coletividade tinha a expectativa de conseguir uma casa cheia, objetivo que não foi alcançado, mas fez um balanço positivo da noite e estimou em cerca de 500 o número de pessoas que passaram pelo espetáculo que juntou Crianças ao Poder e Irmãos Catita em palco.

“Acho que teve um ambiente bastante positivo. Sinto que toda a gente se divertiu”, afirmou, destacando a presença de público de fora do Tramagal e de tramagalenses que regressaram à terra para assistir ao concerto.

A responsável explicou que a estratégia da coletividade passa por diversificar a programação e chegar a diferentes gerações. Na noite anterior, uma proposta com DJ atraiu sobretudo público jovem, enquanto os Irmãos Catita trouxeram à SAT uma faixa etária diferente.

“Não queremos só chegar a uma faixa etária, queremos chegar a todas as faixas etárias. A todos os estilos”, afirmou.

SAT quer diversificar públicos e prepara nova Noite de Metal. Foto: mediotejo.net

E há já uma próxima aposta em preparação. A SAT pretende voltar a realizar uma Noite de Metal, provavelmente ainda este ano, depois da adesão registada em iniciativas anteriores dedicadas ao género.

“Agora temos de fazer o balanço […] para depois podermos planificar um pouco mais o que queremos fazer para o próximo ano e para o resto deste ano”, afirmou Liliana Pessoa.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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