Morreu o cavalo selvagem do Vale do Grou. Não tinha nome, não tinha dono, não dava mão a ninguém. No Mação profundo, o cavalo que as gentes do concelho aprenderam a ver como um dos seus, cavalgava aquele pedaço de terra há cerca de 20 anos, ora viva e verdejante, ora tingida de negro e de cinza. Era um sobrevivente. Morreu no domingo. Era um dos bravos de Mação.
A notícia foi confirmada ao mediotejo.net por Luís Esteves, técnico do Associação Florestal Aflomação, e que chegou a levar-lhe palha inúmeras vezes, depois dos incêndios de 2017 terem devastado todo o pasto daquela zona da freguesia de Envendos. E, apesar das chamas, o cavalo surgia sempre por entre as cinzas, a galope, como se emergisse de um outro tempo. Ao que se sabe, nunca lhe foi dado um nome, embora já tenha pertencido a alguém. Há cerca de 20 anos fugiu de uma propriedade em Fadagosa e, livre do cativeiro, conquistou a sua liberdade ao longo de todos estes anos.

“O cavalo foi encontrado por um senhor do Vale do Grou no domingo de manhã e, a pedido da GNR, foi lá uma máquina da autarquia remover o cadáver e depois foi enterrado. É triste, ainda o tinha visto na última semana…”, conta Luís Esteves, que sabia onde o encontrar e levou-lhe comida muitas vezes, numa zona entre Fadagosa e Vale do Grou, Mação, entregue a si próprio, percorrendo os montes e os vales.
“Ele vivia numa zona com muita água, ao pé de uma ribeira, e havia sempre muita comida. Com os incêndios do ano passado ainda pensei que ele não tivesse sobrevivido ou tivesse fugido para longe, mas lá apareceu, todo chamuscado e cheio de cinza. Levei-lhe palha muitas vezes”, recorda Esteves, que percorre o campo e as aldeias de Mação por força da sua condição profissional.
Apesar de lhe dar comer e de saber onde o animal dormia, o cavalo selvagem do Vale do Grou nunca deu mão a Luís Esteves. “Nem a mim nem a ninguém. Não se deixava tocar e o máximo que deixava aproximar era até uns cinco metros. Era muito independente, todos o respeitavam na sua liberdade, e tornou-se como uma lenda em Mação”, disse Esteves. “Toda a gente gostava do cavalo e ele já fazia parte da natureza de Mação”, vincou.
O cavalo, conta quem sabe, sempre resistiu aos desafios da Natureza, porque dela fazia parte.
*Com os apoios, entre outros, de Henrique Horta, video de Michel Henrotay (registo filmado do Cavalo Selvagem de Mação/ 2013), fotos de Maria Rita Branco, e Luís Esteves.
