O dia começou bem disposto, solarengo, em perfeitas condições para o estava programado. As comemorações do Dia da Floresta, em pleno arranque da primavera, recrutaram as crianças do concelho de Mação, das Escolas Básicas e Jardins-de-infância de Mação, Cardigos e Carvoeiro, para a nobre tarefa de cuidar da floresta. No Vale do Rato, a caminho de Envendos, hora de pôr as mãos na (sua) terra e fazer a sua parte pelo seu renascer.
Mais de 200 árvores esperavam os alunos no local, uma por cada aluno ali presente. A equipa do Gabinete Florestal, da Aflomação e sapadores florestais já aguardavam no local, tendo previamente preparado o terreno para a plantação de espécies autóctones.
Medronheiros, castanheiros, sobreiros, pinheiros, carvalhos,…, foram plantados nas encostas do Vale do Rato, onde outras crianças nomeadamente de Coruche, Entroncamento, Carcavelos, já haviam também colaborado em gesto de solidário para com o município de Mação, um dos concelhos que mais área florestal perdeu nos incêndios do verão de 2017.
Mação sem floresta, não é Mação. E as crianças não pareceram nada aborrecidas ou surpreendidas com o facto de deitarem mãos à terra. Algumas, provavelmente ainda sem ter consciência do quão importante e benévolo é esse gesto, lançaram-se à terra, com ajuda de pedras de lousa, escavando, alisando, acarinhando a planta a si destinada, e segurando-a com cuidado, seguindo as instruções dos técnicos da autarquia que acompanharam cada grupo de cada turma.

Ali, naquela encosta fora, assistia-se à perfeita simbiose entre o passado recente e obscuro e o futuro próximo revestido de esperança. Estavam reunidas as condições para os primeiros passos a caminho do recomeço, em prol da floresta. Em prol do “verde horizonte” perdido para as chamas do verão passado.
Mas nem só de pôr mãos a obra foi feita a manhã destas crianças, pois acompanhadas dos seus docentes e assistentes operacionais, puderam ainda usufruir de atividades preparadas pelos técnicos da autarquia especialmente para si. Jogos tradicionais, de estimulação à cooperação e à vivência em grupo, mas acima de tudo, jogos que ajudaram a tirar partido do lazer ao ar livre, percebendo as crianças a importância dos espaços no seu desenvolvimento.
Por outro lado, a formação também foi um dos momentos do programa. Elementos da Guarda Nacional Republicana puderam refletir com os alunos sobre os comportamentos a evitar e as precauções a tomar para ajudar a preservar e cuidar da floresta.

Também o Gabinete Técnico Florestal da CM Mação preparou um pólo onde as crianças puderam aprender mais sobre várias espécies autóctones do concelho, como a azinheira, o azereiro, o sobreiro, o pinheiro manso e o pinheiro bravo, o castanheiro e o medronheiro. Aprendendo sobre as suas mais-valias em termos de resistência, manutenção ou mesmo utilização para produção de produtos endógenos, as crianças responderam ainda a questões sobre o ciclo de vida da árvore e a importância de cuidar dela.
Antes do regresso à vila, que foi feito por uns de autocarro, e por outros, por iniciativa e felicidade próprias, a pé pelo acesso pedestre, ficara a promessa de, um dia mais tarde, voltar ao Vale do Rato para reconhecer a sua árvore junto com os familiares e, oxalá, se possam aproveitar as suas sombras em mais dias de contacto com a natureza, como este.
A chegada da Primavera: (bom) sinal de recomeço

Vasco Marques, vereador da CM Mação com o pelouro da Educação, esteve presente na iniciativa e foi o responsável pela programação. Em declarações ao mediotejo.net o vereador referiu que o dia representou “algum simbolismo”, marcando “o princípio da primeira primavera depois de um verão muito mau” no concelho. “Para a floresta, para as crianças, para as pessoas de Mação, significa o recomeçar”, notou, acrescentando que este dia marca o início de “um novo ciclo” de olhos postos no futuro que será sobretudo das crianças.
O vereador recordou, de semblante carregado, o drama vivido por muitas crianças das freguesias de Carvoeiro e Cardigos, tendo sido evacuadas devido ao avançar dos incêndios florestais que devastaram o concelho, reconhecendo que esta participação neste evento ajuda a criar nova esperança na recuperação das suas terras, da floresta, do tão querido verde horizonte maçaense.
“O homem que destrói também é o homem que constrói, e iremos certamente construir nova floresta, o futuro eles, é isso que temos de transmitir para que as crianças percebam que os adultos contam com elas, estão cá para as apoiar, e fazer de Mação, novamente, o Verde Horizonte”, afirmou.
Da parte da tarde as crianças assumiram uma tarefa de especial relevância: após o contacto com o território, no terreno, seguiram para uma campanha de sensibilização junto da população no centro da vila, distribuindo panfletos feitos por si no âmbito da disciplina de Filosofia para Crianças.
Vasco Marques referiu que a estratégia tanto do município, como do Agrupamento de Escolas, passa por privilegiar a passagem de mensagens sobre a importância da floresta e de todas as questões relacionadas com a temática. “Por vezes, eles são a melhor forma de chegar a casa e dar o recado aos seus pais. Nem sempre os pais estão atentos, às vezes estão muito ocupados com os afazeres profissionais e com outras atividades. Julgo que nós temos que começar com as crianças”, disse, fazendo notar que “se formos educados desde tenra idade para estas matérias, nunca mais as esqueceremos”.
No entender do vereador, esta é uma forma de tornar aptas as crianças para ajudar a passar a mensagem e despertar consciências ecológicas no âmbito da preservação da floresta, fornecendo também as ferramentas necessárias para que possam dar “a importância que merece sobretudo num concelho essencialmente florestal como Mação”.

Por seu turno, José António Almeida, diretor do Agrupamento de Escolas Verde Horizonte de Mação, referiu que “é muito importante que as nossas crianças sejam desde muito cedo integradas no território, e o conheçam, bem como as suas potencialidades e problemas. E eles têm a consciência que um dos problemas de Mação nos últimos tempos têm sido os incêndios”, indicando que, ainda assim, “os incêndios não os deixam em baixo e é importante que eles também contribuam, mesmo que seja de uma forma simbólica para o renascer de uma paisagem que queremos que venha mais organizada, mais ordenada. É um bocadinho essa formação que eles receberam em contexto real”, notou.
O docente referiu que o objetivo da programação é levar as crianças “a olharem para a floresta” e fazer com que percebam que “no território podemos fazer uma quantidade de coisas desde atividades de lazer, recreativas”, acrescentando ainda a sua iniciativa no âmbito da “formação cívica”, enquanto “portadores de uma informação em material panfletário para toda a comunidade”.
Para José António Almeida o Agrupamento de Escolas tem um papel essencial e a sua parceria neste momento de “renascer” é uma “obrigação”, não se devendo a instituição alhear do que a circunda, fazendo a sua parte sempre que solicitado ou tomando iniciativas próprias que acrescentem valor ao “território em que está integrado”, terminou.
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