Foto: mediotejo.net

O estudo foi apresentado numa sessão que decorreu no dia 4 de julho, no auditório do Centro Cultural Elvino Pereira, em Mação, contando com o presidente da ANACOM, João Cadete de Matos, e o autarca maçaense Vasco Estrela na mesa de oradores.

Ali, além da apresentação do estudo de qualidade de serviço das redes móveis pelo diretor Vítor Rabuge, que a ANACOM realizou no concelho, foi dado um ponto de situação das redes fixas de alta velocidade e as suas perspetivas de desenvolvimento no futuro pela diretora Patrícia Gonçalves.

Quanto ao estudo implementado no terreno pela ANACOM, foi dinamizado em vários circuitos por todo o concelho de Mação entre 30 de maio e 1 de junho de 2022, tendo sido testadas as 3 operadoras disponíveis: MEO, NOS e Vodafone.

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Os resultados advêm de uma amostra de 3082 chamadas de voz, 1174 testes de velocidade de ligação à internet (verificação de dados móveis), 123 372 registos de sinal rádio, mais de 550 km percorridos, entre os dias 30 de maio e 1 de junho, tendo os estudos ocorrido entre as 8h00 e as 20h00.

Foram verificados aspectos relativos à Cobertura (disponibilidade e nível de sinal das redes radioelétricas – 2G, 3G, 4G e 5G), Serviço de voz (estabelecimento e terminação de chamadas) e Serviços de dados (latência e velocidades de download e upload).

A ação pretendeu “averiguar a experiência do utilizador em termos de acessibilidade aos serviços, sendo, para o efeito, estabelecidas chamadas de voz e realizados testes NET.mede para avaliação da performance do serviço de dados móveis”, sendo que o objetivo passou por “avaliar o ‘comportamento’ das redes quando são estabelecidas ligações e solicitados serviços específicos, por dispositivos móveis (UE) através de cartão SIM, tentando assim simular a experiência dos clientes na sua utilização normal das redes móveis”.

Em termos de existência de sinal de rede, ao longo dos percursos e mediante os testes efetuados, a MEO apresenta 96,1%, a NOS 82,3% e a Vodafone 98,8%. Porém, a qualidade do sinal tem variações que implicam sobre a qualidade do sinal, sendo:

  • A MEO tem uma qualidade má, muito má ou inexistente em 39,2% da amostra;
  • A NOS tem uma qualidade má, muito má ou inexistente em 57,8% da amostra;
  • A Vodafone tem uma qualidade má, muito má ou inexistente em 36,5% da amostra.

Por outro lado, apenas dois dos operadores forneceram residualmente o serviço 5G no concelho de Mação. Neste âmbito, o presidente da ANACOM fez o comentário de que, atualmente, “falamos em 5G e em alguns lugares do país não há sequer 2G”.

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Em relação aos resultados de chamadas de voz, concluiu-se que 1 em cada 7 chamadas falha, ou seja, no território, 14% de chamadas são falhadas, não podendo ser estabelecidas ou concluídas com sucesso (8,4% de chamadas perdidas e 5,6% de chamadas abandonadas). Em cada rede especificamente, os valores são: MEO: 11,7%; NOS: 25,9% e Vodafone: 4,6% de chamadas falhadas.

Foram ainda feitos testes de velocidade de Internet através da aplicação NETmede. Em relação à MEO 24,4% dos testes tiveram anomalias; na NOS o valor de testes falhados ou com falhas parciais foi de 52,6% e na Vodafone o valor foi de 20,6%.

Quanto à prestação do serviço de dados, esta teve pior desempenho onde a qualidade de sinal das redes móveis dos três operadores era também menor.

Acontece que, em síntese, as conclusões dos testes não são surpreendentes e vão ao encontro das dificuldades sentidas no dia-a-dia pelas populações do concelho de Mação. Se dúvidas houvesse, este estudo recente revela que a média da qualidade de sinal é em 44,5% dos casos “inexistente, muito má ou má” .

A sessão decorreu a partir das 18h00 e estendeu-se por cerca de duas horas e foi aberta à comunidade. No auditório estiveram presentes presidentes de junta, alguns representantes de instituições, coletividades e outras entidades concelhias, mas dado o interesse da comunidade, esperava-se um auditório mais repleto, tendo sido questionado nas redes sociais a antecedência de divulgação da iniciativa pela ANACOM. Foto: mediotejo.net

Também os resultados do serviço de voz têm resultados “Pouco satisfatórios” e o serviço de dados tem resultados de qualidade baixa/muito baixa, com muitos testes não concluídos e baixas velocidades. Foi revelado que, das três operadoras, a NOS foi quem teve pior desempenho do serviço de acesso à internet (47,4% dos testes concluídos), seguindo-se a MEO (75,6%) e a Vodafone (79,4%).

Os piores desempenhos em termos de voz e dados, mediante o estudo, acontecem “genericamente, na zona centro do concelho, em diversas localidades da União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira, e nas freguesias de Carvoeiro e de Envendos”, onde “existem bastantes lacunas de cobertura e nos serviços de voz e de dados prestados”.

Já os melhores desempenhos de voz e dados foram alcançados nas zonas residenciais de Mação, Amêndoa, Penhascoso e Carvoeiro.

A ANACOM defende que, caso já existissem acordos de “Roaming Nacional” em Portugal – serviço que permite que os clientes de qualquer um dos operadores se possam conectar à rede de outro operador quando a qualidade de sinal do seu operador não é aceitável – o concelho de Mação beneficiaria de uma cobertura agregada de mais qualidade por todo o território (passaria a mais de 80%).

ÁUDIO | Cadete de Matos, presidente da ANACOM

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A realização destes estudos permite a atuação para a implementação de medidas como “forma de pressão para obrigar as operadoras a melhorarem o seu serviço”, disse Cadete de Matos, acrescentando que a oferta de serviços/pacotes devem ser ajustados à realidade dos portugueses, isto é, não obrigando à contratação de serviços dispensáveis pelo cliente.

Entre as ações que se apresentam a curto/médio prazo, Cadete de Matos frisou que se prevê a entrada de 2 novas operadoras no país, o que gerará mais concorrência e, por consequência, influenciará a prática de melhores preços, mais convidativos ao cliente.

Outro tema em foco prendeu-se com o desajuste das fidelizações, que o responsável pela ANACOM apresentou perante perante a Assembleia da República, no sentido de se abolir este sistema que implica que o usuário tenha de pagar centenas de euros para cessar contrato com determinada operadora antes do fim do prazo de fidelização enquanto cliente.

Portugal está na penúltima posição dos preços mais elevados da Europa em termos de serviços de comunicações, pelo que a ANACOM defende a alteração do regime de fidelizações, bem como o estímulo à concorrência neste setor no país.

ÁUDIO | Cadete de Matos, presidente da ANACOM

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Na sessão Cadete de Matos deu a indicação de que foi dado um limite de que até ao final de 2023 cada freguesia terá que ter 75% da sua população coberta com 100 megabits por segundo. Num horizonte de mais três anos, até final de 2025, este valor tem que atingir os 90%.

Quanto à fibra ótica, o presidente da ANACOM referiu que todas as casas deverão ter ligação por fibra no final do concurso que se irá realizar, porém não se comprometendo com prazos de implementação.

Cadete de Matos referiu-se a problemas no anterior concurso para financiamento da instalação de fibra ótica, uma vez que veio impedir a utilização por todas as operadoras, como estava previsto no caderno de encargos, e com isso não permite a livre concorrência, como se verifica aliás no concelho de Mação.

O responsável deixou indicação de que, o novo concurso para financiamento será adaptado à cobertura por freguesias e não conforme cobertura por população, estando certo que isso mudará o panorama vivido até então.

Sobre as redes fixas de alta velocidade e as suas perspetivas de desenvolvimento no futuro, a ANACOM refere que se pretende garantir o acesso de toda a população a redes de capacidade muito elevada, garantindo maior coesão económica e social no território, bem como facilitando a transição digital. Mas para tal, “é preciso implementar uma cobertura de rede fixa a 100% nas designadas “Áreas Brancas”, com recurso a financiamento público, através da União Europeia”.

No caso de Mação, existem 1251 alojamentos familiares inseridos em áreas brancas e cinzentas, isto é, zonas do território onde não existe rede fixa de capacidade muito elevada (branco) e zonas onde apenas estão cobertos até 10% do número de alojamentos (cinzento).

Mediante o levantamento apresentado, no concelho distribuem-se pelas freguesias os seguintes dados: na Amêndoa existem 177 alojamentos familiares em Áreas brancas/cinzentas; em Cardigos são 277; em Carvoeiro são 175; em Envendos são 189; na Ortiga são 13; na União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira são 420.

“Em tudo o que foi transmitido não podemos, infelizmente, esperar grandes melhorias face ao atual cenário, especialmente no que diz respeito à fibra ótica. No que concerne à rede móvel existirão, a curto/médio prazo, melhorias na cobertura uma vez que estão em processo de licenciamento de estações de rádio comunicações em Aldeia de Eiras, Pereiro, bem como em concelhos limítrofes, nomeadamente Sardoal, o que ajudará a melhorar a cobertura no nosso concelho em particular nas zonas de Queixoperra e Serra”, refere a autarquia em comunicado.

“Da nossa parte continuaremos a envidar todos os esforços para alterar este panorama porque, como referiu o presidente da Câmara, «ter hoje em dia acesso a boa rede de comunicação é tão ou mais importante do que ter acesso a boas vias de comunicação»”, termina.

Foto: mediotejo.net

Em declarações à comunicação social, Vasco Estrela foi mais longe, e afirmou que o Governo deverá olhar para a necessidade de investimento na resolução destes problemas de comunicações, uma vez que são importantes para a almejada coesão territorial no país. Para o autarca “as perspetivas não são as melhores”.

ÁUDIO | Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação

“Estamos nas mãos das operadoras”, lamentou, referindo que “infelizmente para a população do concelho os resultados não são os mais animadores, já sabíamos isso. E não ficamos com uma expetativa de, a curto prazo, este estado de coisas ser resolvido”, conclui, prestando agradecimentos à ANACOM pelo trabalho que tem feito na denúncia do que está mal e na tentativa de fazer com que haja maior coesão nacional em termos de comunicações.

“Hoje discutirmos estes assuntos é a mesma coisa que, há uns anos, estarmos a discutir o traçado da A23 ou as autoestradas para o Interior. Por esta questão das comunicações se fará ou não muita da coesão que o país precisa, e o Governo nesta área, provavelmente, terá de ser mais interventivo. Mais assertivo e obrigar mais as operadoras a fazerem aquilo que devem fazer. Uma vez que em termos económicos as coisas podem não ser muito viáveis, tem de haver compensações deste ponto de vista. Todos temos que ter uma certeza: a coesão territorial no nosso país custa dinheiro. E o país ou assume que quer gastar dinheiro para termos coesão territorial, ou não assume”, apontou Vasco Estrela.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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