A menos de um mês do início da fase Charlie do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) é tempo para refletirmos sobre alguns aspetos relacionados com os fogos florestais.

As cinco fases do DECIF correspondem a diferentes níveis de empenhamento dos vários recursos operacionais, humanos e materiais, de combate a incêndios, em função dos diferentes graus de gravidade e probabilidade de incêndios florestais.

A fase Charlie que decorre e 1 de julho a 30 de setembro é, assim, aquela considerada mais crítica e a que envolve maior número de meios operacionais, incluindo equipas de bombeiros, meios aéreos e terrestres, equipas especializadas da Guarda Nacional Republicana, equipas de sapadores florestais, força especial de bombeiros (FEB) e equipas da Afocelca (Agrupamento de empresas do sector papeleiro).

O DEFIC contempla as vertentes de prevenção e vigilância e combate, contudo o esforço financeiro alocado a uma e a outra tem sido ao longo dos anos díspar.

Em 2015, os custos relativos a vigilância e combate cifraram-se em 70.5 milhões de euros contra os 25 milhões de euros gastos em prevenção estrutural. Esta relação de valores tem sido sensivelmente constante nos últimos anos, correspondendo os gastos com prevenção a cerca de ¼ dos custos totais do dispositivo.

Porém, esta tónica no maior investimento em combate não se reflecte em menores áreas ardidas. De facto, O maior ênfase colocado no combate aos incêndios em detrimento da prevenção tem efeitos negativos a médio e longo prazo. Isto porque se a curto prazo se dá resposta à resolução do problema, a médio e longo prazo verificar-se-á a acumulação de vegetação nas áreas de matos e florestas que depois constituirá o combustível que alimenta fogos de maior intensidade e com maiores taxas de propagação, o que, consequentemente, resultará em maiores áreas ardidas.

Existem várias razões para esta reiterada opção por investir mais em combate: os trabalhos de prevenção não têm visibilidade pública, não é costume vermos aberturas de noticiários com equipas de sapadores florestais a executar serviços de limpeza florestal. Além disso não é um trabalho que seja valorizado socialmente. Por outro lado é um trabalho que deve ser feito ao longo de todo o ano, não se concentrando só na época mais crítica para os fogos, e deve ser executado de forma contínua.

Mas, perante as pressões sobre os decisores políticos, especialmente em anos difíceis, com grandes áreas ardidas, a opção acaba por recair sobre as medidas mais mediáticas e com resultados a curto prazo, reforçando-se assim o investimento na vertente do combate e desvalorizando-se a prevenção.

Um estudo científico* publicado no Journal of Environmental Management, sobre este tema veio exactamente comprovar que a concentração de gastos no combate aos fogos com prejuízo do investimento em prevenção tem efeitos nefastos a longo prazo, tornando-se mais comuns anos com maior área ardida.

Por outro lado, com o aumento das áreas ardidas e a consequente pressão social, a resposta é, como vimos, investir ainda mais em combate. Tal situação cria um ciclo vicioso do qual a saída é difícil.

Claro que isto não significa que não se invista em combate, mas sim que o nível de investimento no combate e na prevenção deverá ser mais equilibrado. Uma política de execução de acções de prevenção realizadas durante todo o ano e concertadas entre todos os agentes envolvidos na luta contra o fogo, contribuiria para a diminuição da carga de combustível nas áreas florestais, o que, consequentemente, resultaria em fogos menos intensos e com menores taxas de propagação e naturalmente em menores custos das acções de combate.

Ou seja, equilibrar a resposta de longo prazo e a resposta rápida, investindo mais em prevenção (silvicultura preventiva) permitiria uma diminuição global dos custos financeiros associados aos fogos florestais e, mais importante, uma redução das perdas materiais e humanas.

Licenciada em Engenharia Florestal pelo Instituto Superior de Agronomia. Desde 2006 exerce funções de Técnica Florestal na Associação de Desenvolvimento Florestal do Concelho de Ferreira do Zêzere.

Deixe um comentário

Leave a Reply