A noite do último domingo trouxe-me à memória o meu antigo colega de escola, Asdrúbal. Para quem não o conheceu, o Asdrúbal era uma figura “sui generis”, superconfiante nas suas capacidades, que tratava com altivez e desdém os seus colegas e para melhor enquadrar o seu perfil, muito próximo do atual “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”.

Curioso era olhar para o seu desempenho escolar, pouco acima do sofrível, e ouvir as suas justificações para tal facto. A culpa era invariavelmente dos professores, porque nos testes quase nunca acertavam com o seu conhecimento.

Foi algo parecido com isto que fui ouvindo no último domingo. As razões do insucesso foram quase sempre dos outros e quase nunca dos próprios.

Ora, o que pude observar ao longo das últimas semanas é diametralmente oposto.

Quem detém o poder tem o poder e dificilmente o perde ou abdica dele porque o acesso privilegiado a determinados recursos permite montar uma máquina que projeta uma ilusão que o caminho continua a ser “por ali” e não faz sentido contrariar o que parece ser natural.

Desculpem-me as generalizações e as suas inevitáveis injustiças, mas também me parece óbvio que a falta de preparação e de conhecimento da grande maioria das oposições, acabou por facilitar o trabalho de quem se queria manter no poder.

As exceções mostram que o contrário também pode ser verdade e a preparação com base na honestidade, no conhecimento e na competência, apresentando-se como uma alternativa credível, acabou por ser premiada ou esteve muito perto de o ser.

Refiro-me à Câmara de Constância e à Junta de Freguesia do Tramagal.

Em Constância, 32 anos depois, a Câmara mudou de partido, provando que a inclinação sociológica e a tradição histórica podem ser contrariadas com base nas qualidades que referi anteriormente. Parece-me claro que também ouve falhas na liderança anterior, mas isso em nada retira o mérito a Sérgio Oliveira e à sua equipa que souberam fazer das fraquezas, forças, capitalizando todos os trunfos que lhes foram “oferecidos” ao longo dos últimos 4 anos. Se dúvidas ainda houvessem, os discursos de vitória e derrota ajudaram a esclarecer o que ainda podia estar menos claro.

Mais interessante é analisar o que se passou na eleição para a Junta de Freguesia do Tramagal. Qual David contra Golias, o Movimento Independente que se apresentou a sufrágio, fê-lo com base num programa com ideias claras para o futuro da freguesia e sem qualquer outro tipo de recursos. Perdeu por 61 votos para quem já lá estava e que utilizou como estratégia uma aposta forte no merchandising e a recusa ao debate de ideias… para garantir os votos necessários à sua reeleição.

Esta oportunidade perdida, pelo Movimento e pelo Tramagal, renovar-se-á dentro de 4 anos e as probabilidades de sucesso serão ainda maiores. É que o fator Crucifixo dificilmente voltará a ser decisivo… mesmo que algumas heranças teimem em querer passar de pais para “filhos”!

Vasco Damas

É gestor e trabalhar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e levá-las a ultrapassar os limites que pensavam que tinham é a sua maior satisfação profissional. Gosta do equilíbrio entre a família como porto de abrigo e das “tempestades” saudáveis provocadas pelos convívios entre amigos. Adora o mar, principalmente no Inverno, que utiliza, sempre que possível, como profilaxia natural. Nos tempos livres gosta de “viajar” à boleia de um bom livro ou de um bom filme. Em síntese, adora desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

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