José Gil alerta em Abrantes para o poder “hipnótico” da palavra e o risco para a democracia. Foto: mediotejo.net

Na sessão, José Gil sublinhou que não é a lógica nem o conteúdo racional dos discursos que mais influenciam o debate público, mas a “força irracional e contagiante” da própria enunciação, intensificada nos ambientes políticos e mediáticos atuais.

Considerado um dos mais influentes filósofos portugueses contemporâneos — ensaísta, professor jubilado e autor de obras como Portugal, Hoje ou Acentos — José Gil foi o orador principal e homenageado desta edição, que decorre até sábado em Abrantes, num programa que inclui conferências, debates, oficinas e atividades para escolas.

“A palavra age antes de significar. Atua no corpo, produz efeitos de adesão, de repulsa, de encantamento. No espaço público, vemos palavras que se tornam ações, que mobilizam e dividem, que criam mundos”, afirmou durante a intervenção, de cerca de 30 minutos, perante cerca de uma centena de pessoas.

“É esta capacidade hipnótica da palavra que pode destruir a democracia se não formos capazes de a pensar criticamente.” O filósofo alertou ainda para o papel das redes sociais como “máquinas de amplificação” que alteraram profundamente o poder da palavra no século XXI.

“O líder já não é apenas aquele que fala num púlpito. São milhões de utilizadores que, ao repetirem discursos de sedução, de ódio ou de medo, tornam a hipnose constante”, afirmou. Para José Gil, o ambiente digital “fragiliza a democracia” ao criar “bolhas de adesão instantânea” onde o contraditório desaparece.

À Lusa, o pensador reforçou a ideia de que a democracia só se sustenta “se a palavra recuperar o seu espaço de pensamento, debate e responsabilidade”. “O que está em causa não é apenas o conteúdo, mas a energia que circula nas palavras. Sem educação crítica, essa energia pode ser devastadora”, disse.

ÁUDIO | JOSÉ GIL, FILÓSOFO E PENSADOR:

Em declarações ao mediotejo.net, José Gil afirmou que o tema do festival “não poderia ser mais atual”, sublinhando que hoje a palavra é dominada pelo discurso político e mediático, muitas vezes com maior força do que “a palavra dos livros, da ciência, da literatura e da filosofia”.

Para o filósofo, compreender o poder da palavra implica “procurar a origem dessa força”, capaz de moldar consciências e capturar a atenção pública sem depender da lógica ou do conteúdo racional.

“Há uma força da palavra em rogar uma praga, como há no discurso político que capta e hipnotiza o auditor. Vou procurar uma origem na própria formação do sentido verbal desse poder”, explicou, realçando que esta questão está “na cabeça de milhares de pessoas que pensam: o que fazer da palavra?”.

Para José Gil, esta interrogação estende-se à literatura, à poesia, ao jornalismo e à própria responsabilidade de comunicar num tempo de precariedade simbólica e crescente fragilidade do discurso público.

José Gil alerta em Abrantes para o poder “hipnótico” da palavra e o risco para a democracia. Foto: mediotejo.net

ÁUDIO | JOSÉ GIL, PENSADOR E FILÓSOFO:

O presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, destacou na sessão inaugural a presença do professor José Gil, ensaísta, filósofo e um dos grandes pensadores da atualidade, que ao longo da vida tem insistido no desafio de pensar e de fazer pensar. O autarca deu as boas-vindas a todas as entidades e participantes do festival, sublinhando que, “ano após ano, Abrantes continua-nos a convocar para pensar, para agir e para transformar, neste nosso original Festival de Filosofia de Abrantes, já na sua 8ª edição”.

Valamatos agradeceu a todos os intervenientes, incluindo “filósofos, conferencistas, provocadores, jovens pensadores, aos seus professores, às famílias participantes e ao público aqui presente ou que nos acompanha online”, pela forma como ajudam a refletir sobre “como o Poder da Palavra influencia o pensamento, as emoções e a construção da nossa realidade coletiva, neste Dia Mundial da Filosofia”.

O autarca destacou a colaboração de Joana Rita Sousa, sublinhando que ela é “uma grande referência deste nosso Festival, que através do poder das suas palavras nos ajuda, há anos, com as famílias, crianças e jovens alunos abrantinos no exigente exercício do pensamento atento e cuidadoso”. Valamatos frisou ainda a diversidade do programa: “Este Festival volta a apresentar um programa eclético, onde todos serão intérpretes dos desafios que aqui serão apresentados ao longo dos próximos três dias”.

O presidente salientou a presença do filósofo José Gil, afirmando que ele “ao longo da sua vida, tanto tem insistido no desafio de pensar e de fazer pensar os outros”. Valamatos alertou para os riscos atuais: “Que neste tempo em que o populismo se apresenta como o defensor da razão, que explora os medos, os ressentimentos e os ódios, o poder das palavras torna-se cada vez mais importante”. Agradeceu ainda “a todos os trabalhadores do Município, pela dedicação a estes projetos culturais diferenciadores, pelos desafios constantes e pelo extraordinário empenho nesta nossa causa pública”.

Festival de Filosofia de Abrantes é dedicado ao tema “O poder da palavra: pensar, agir, transformar”. Foto: mediotejo.net

Por fim, Valamatos recordou os impulsionadores do festival e a dimensão simbólica da palavra: “Quero ainda, como sempre fizemos, recordar os impulsionadores deste Festival: José Alves Jana, Nélson Carvalho e Mário Pissarra […] mesmo com as normais ‘dores de crescimento’, pela inteligência colaborativa e pelo estímulo contínuo, não esqueceremos a sua importância”.

O autarca sublinhou também o valor da palavra na comunidade: “Ontem, hoje e amanhã, em Abrantes, a expressão ‘Palavra dada, palavra honrada’ continua a ter o poder de unir e ser a base do nosso compromisso diário, com rigor e coerência. Dias Felizes para a Filosofia e para o Pensamento Livre, desejando um ótimo Festival para todos e que o ‘poder da Palavra’ seja o argumento essencial para muitas conversas”.

Presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos. Foto: mediotejo.net

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:

O vereador da Cultura de Abrantes saudou a presença de José Gil no festival, afirmando que “é um natural privilégio ter o professor José Gil connosco, até por tudo aquilo que representa aqui no pensamento universal e por tudo aquilo que também já era um objetivo de há muito tempo da organização de ter o professor José Gil connosco”.

Em declarações ao mediotejo.net, destacou que o filósofo está “bem, está aqui com este seu pensamento crítico, ativo e sempre activo, atento à realidade que nos rodeia” e sublinhou a regularidade e singularidade da 8ª edição do festival, que apresenta sinais de crescimento apesar das dificuldades, incluindo a pandemia.

Sobre a celebração do Dia Mundial da Filosofia, o vereador referiu que o evento pretende promover “a ideia de pensar, de tentar pensar numa praça aberta para agir e transformar”, tendo como bandeira “o poder da palavra e a importância da palavra nos dias de fragmentação de princípios e de valores que vivemos hoje”.

Luís Dias salientou que os princípios do festival se mantêm desde a primeira edição, sendo “uma praça aberta a todos os domínios do saber” e valorizando o trabalho desenvolvido nas escolas.

O vereador destacou a relevância das Assembleias da Palavra, nas quais “pela primeira vez, metemos em confronto direto, na arte de palavrar, alunos do primeiro ciclo com alunos do secundário, devidamente provocados pelos mediadores que foram contratados para o efeito”.

Festival de Filosofia de Abrantes é dedicado ao tema “O poder da palavra: pensar, agir, transformar”. Foto: mediotejo.net

Sublinhou ainda a importância do acompanhamento de Joana Rita Sousa, que “já trabalha connosco há alguns anos, e que tem feito as filosofias para e com crianças, e de alguma forma vai também alargando aqui o leque de oportunidades”.

Por fim, Luís Dias sublinhou o caráter agregador e transformador do festival, explicando que “as questões da comunicação, a arte de comunicar e divulgar, permite-nos captar todas as conferências disponibilizá-las depois em repositório, e portanto, tudo aquilo que hoje vai aqui ser dito poderá ser consumido, portanto, pode ser aqui um produto cultural consumido por muitos ao longo das próximas décadas”.

Acrescentou que o festival procura “o poder transformador da cultura, o poder transformador do pensamento, mas, sobretudo, o poder agregador das comunidades à volta da palavra”.

Luís Dias, vereador da Cultura, com o pensador José Gil. Foto, mediotejo.net

ÁUDIO | LUÍS CORREIA DIAS, VEREADOR CULTURA CM ABRANTES:

Organizado pela Câmara Municipal de Abrantes, o evento pretende promover uma reflexão aberta sobre a forma “como a palavra influencia o pensamento, as emoções e a construção da realidade”, assinalando o Dia Mundial da Filosofia, a 20 de novembro.

Durante três dias, escritores, académicos, sociólogos, jornalistas, publicitários e investigadores vão participar em painéis e debates sobre temas como o papel da palavra na transformação social, o seu poder ético e político, a comunicação na era digital e o silêncio como ausência de palavra.

As conferências e debates têm entrada livre e decorrem na Biblioteca Municipal António Botto.

O festival encerra a 22 de novembro, às 21:30, com o espetáculo “Mulheres Poema”, interpretado por Maria Caetano Villalobos e acompanhada por Rute Rocha Ferreira.

A programação completa pode ser consultada em bmab.cm-abrantes.pt

c/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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