“A resistência é principalmente das pessoas que continuam a fazer o Bons Sons acontecer. Da população de Cem Soldos e dos amigos que cedem as férias, as casas, os terrenos e as mãos por uma causa maior”, afirma Sérgio Alves, para quem o festival “é uma resistência à desistência, ao facilitismo e à perda dos valores comunitários”.
Vinte anos depois da primeira edição, os dois naturais de Cem Soldos assumem, pela primeira vez, a direção artística do Bons Sons, embora prefiram uma designação mais coletiva.
“Não existe uma ou duas figuras na direção artística. A direção é constituída por nós, pelo José Gonçalves, por elementos da direção do SCOCS e por outras pessoas da equipa. Gostamos mais de falar em direção do que em diretor”, explica João Rufino.
A opção não é apenas semântica. Traduz a forma como ambos encaram um festival construído coletivamente e onde cresceram desde cedo.

Integrados na organização desde 2010 e responsáveis pela programação musical desde 2022, recusam a ideia de uma liderança individual, preferindo falar de um pensamento partilhado que cruza gerações, experiências e diferentes áreas artísticas.
“Fazemos parte da continuidade de um projeto coletivo. Já estivemos na produção, na equipa técnica e, sendo um festival comunitário e voluntário, fazemos de tudo um pouco”, resume João Rufino, assumindo a responsabilidade de suceder a Luís Ferreira e Miguel Atalaia sem romper com o legado construído ao longo de duas décadas.

Mais do que celebrar os 20 anos do Bons Sons, João e Sérgio pretendem reforçar a identidade de um festival que continua a afirmar a música portuguesa a partir de uma pequena aldeia do concelho de Tomar. Para ambos, a descentralização cultural continua a fazer sentido, mas exige persistência.
“É possível fazer cultura fora dos grandes centros, mas requer um grande esforço dos promotores culturais, apoio das estruturas públicas e também alguma dose de loucura”, diz João Rufino, entre sorrisos.
Essa visão reflete-se no cartaz da edição de 2026, que volta a reunir artistas consagrados e projetos emergentes, diferentes gerações, regiões e linguagens musicais, sempre exclusivamente portuguesas.
“O maior elogio que podemos receber é alguém dizer que já tem bilhete mas praticamente não conhece nenhum nome do cartaz”, afirma João Rufino, explicando que o objetivo é desafiar o público a descobrir novos projetos e a cruzar tradições com propostas contemporâneas.
Entre os momentos especiais destacam a estreia da banda tomarense Quinta do Bill no festival, o projeto Seara, que junta Amélia Muge, Júlio Pereira e Rão Kyao, um concerto preparado por Jorge Cruz especialmente para o Bons Sons, o regresso dos Lavoisier acompanhados pelo Coro Polifónico da Pedreira e um espetáculo de Rita Redshoes que envolverá elementos da comunidade local.

Uma das principais novidades desta edição é o Palco Rosa Ramalho, um dos vários instalados entre hortas e eiras da aldeia.
“Cem Soldos não são apenas ruas e praças. Também são as áreas agrícolas e de natureza onde crescemos e que fazem parte das nossas memórias de infância. Queremos mostrá-las a quem nos visita”, explica João Rufino.
Mas o Bons Sons continua também a querer ser muito mais do que um festival de música. Ao longo dos quatro dias haverá cinema, dança contemporânea, conversas, percursos sonoros e interpretativos, oficinas, exposições, atividades para famílias e crianças, caminhadas, espetáculos e momentos de reflexão sobre cultura, património, sustentabilidade e território.
“Cada vez mais as conversas, as histórias, os passeios e os ‘workshops’ fazem parte do que é o festival. Queremos que alguém venha ver uma banda de que gosta, mas acabe também por ouvir uma conversa sobre o desenvolvimento do território, descobrir espécies da nossa região ou conhecer uma tradição que nunca viu”, afirma.

Também a experiência do público foi reforçada nesta edição, com novas zonas de sombra, melhorias nas acessibilidades e uma aposta crescente na sustentabilidade, reduzindo o recurso a materiais físicos através de soluções digitais.
Apesar das novidades, João e Sérgio defendem que o maior desafio continua a ser manter o equilíbrio entre inovação e identidade.
“Todos os anos é preciso mudar um pouco para que o festival continue vivo, mas sem perder aquilo que faz dele um projeto único”, resume João Rufino.
Quando as luzes se apagarem na noite de 9 de agosto, o desejo dos dois programadores será simples.
“Gostávamos que as pessoas levassem memórias felizes, amizades e uma nova banda favorita. E, se possível, saudades suficientes para quererem regressar a Cem Soldos.”

O programa completo pode ser consultado no ‘site’ do festival (www.bonssons.pt).
