Foram apenas 24 horas entre o momento em que recebeu o telefonema e a partida para uma das mais exigentes missões internacionais de proteção civil dos últimos anos. A 26 de junho, João Pitacas integrou a força portuguesa enviada para a Venezuela, depois de dois violentos sismos de magnitude 7.2 e 7.5 terem devastado a região costeira de La Guaira, provocando centenas de vítimas, milhares de desalojados e o colapso de dezenas de edifícios.
Durante duas semanas, integrou a missão portuguesa constituída por 62 operacionais da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), Força Especial de Proteção Civil, INEM, Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e Guarda Nacional Republicana, apoiados por seis cães de busca, numa operação integrada no Mecanismo Europeu de Proteção Civil.
Natural do Entroncamento, residente em Riachos e bombeiro desde os 14 anos, João Pitacas assumiu as funções de segundo comandante da força portuguesa. A sua missão era garantir que toda a operação decorria em segurança, coordenar a logística, apoiar a tomada de decisões e assegurar que as equipas tinham tudo o que necessitavam para cumprir as missões atribuídas.




Mas antes mesmo de aterrar na Venezuela, havia um pensamento que não lhe saía da cabeça. “Quando entrámos no avião, o sentimento foi imediato: eu vou levá-los e tenho de os trazer todos de volta. A partir do momento em que o avião descola já não há ponto de retorno, é começar a trabalhar e garantir que todos regressam a casa.”
Preparados para partir em pouco mais de 24 horas
A rapidez da mobilização impressiona. Entre a confirmação da missão e a descolagem decorreram pouco mais de 24 horas. Segundo João Pitacas, isso só foi possível porque a verdadeira preparação nunca começa quando surge uma emergência.
“A preparação está constantemente feita. O aprontamento é apenas confirmar equipamentos, documentação, vacinas e garantir que tudo está pronto para partir. Nenhum operacional consegue responder a uma missão desta dimensão apenas com conhecimento teórico.”
A operação envolveu dois aviões da Força Aérea Portuguesa, 23 toneladas de equipamento e uma complexa logística internacional. A decisão de dividir homens e material pelas duas aeronaves foi estratégica: caso apenas uma conseguisse aterrar, Portugal teria imediatamente capacidade para iniciar operações no terreno.

Após escalas em Cabo Verde e na Martinica, a força portuguesa chegou à Venezuela ao terceiro dia depois do sismo.
Um cenário impossível de compreender à distância
Apesar das imagens que correram mundo, João Pitacas garante que nenhuma reportagem consegue transmitir a verdadeira dimensão da tragédia.
Quando saíram do aeroporto começaram imediatamente a encontrar edifícios totalmente colapsados, estradas destruídas, infraestruturas críticas comprometidas e milhares de pessoas a viverem na rua, organizadas em pequenos campos improvisados. Mas o que mais o marcou foi aquilo que não aparece nas imagens.
“Há coisas que se veem dentro da operação que nunca aparecem na televisão. Não são apenas os edifícios destruídos. São pessoas sem água, sem eletricidade, sem hospitais, sem escolas, sem medicamentos, sem mercearias e sem qualquer rotina.”
Além do calor constante, próximo dos 34 graus, a humidade rondava os 90 por cento, tornando qualquer esforço físico particularmente exigente.
As equipas portuguesas trabalharam ininterruptamente, organizadas em turnos de oito horas, para garantir que o desgaste físico e emocional nunca colocava em risco a segurança dos operacionais.

A força contava ainda com um psicólogo integrado na missão, uma presença que João Pitacas considera hoje indispensável em operações desta dimensão.
O resgate que emocionou o mundo
O momento que acabou por simbolizar a missão portuguesa aconteceu quase por acaso. Durante a deslocação entre duas missões, moradores informaram uma das equipas de que ainda existia uma pessoa viva debaixo dos escombros de um parque de estacionamento.
Tratava-se de Hernán, vigilante do edifício, que permanecia preso no piso -2, sob oito pisos completamente colapsados.
Outras equipas internacionais já tinham estado naquele local e tinham considerado inviável um resgate com vida. Os portugueses decidiram insistir.
Primeiro confirmaram a presença da vítima através dos cães da GNR, treinados exclusivamente para localizar pessoas vivas, e dos equipamentos de deteção. Depois começou uma operação que se prolongaria durante 76 horas.

“Quando conseguimos falar pela primeira vez com o Hernán, dissemos que erramos portugueses e ele respondeu ‘Cristiano Ronaldo’, percebemos que a nossa decisão estava certa. Era a confirmação de que aquela vítima continuava viável e que valia a pena continuar a lutar por ela.”
O acesso até Hernán obrigou à remoção manual de toneladas de escombros, num espaço extremamente instável, e agora já com o apoio de outras equipas internacionais. A dada altura, por razões de segurança, foi necessário abandonar a estratégia seguida e recuar praticamente 24 horas de trabalho para abrir um novo acesso.
Foi um momento difícil para a equipa portuguesa, mas inevitável. Finalmente, ao oitavo dia após o sismo, Hernán foi retirado com vida.

“Ao fim de 76 horas conseguimos devolver o Hernán à família. Houve emoção, abraços e algum alívio, mas passado pouco tempo a equipa já estava novamente a cumprir outra missão, porque naquele cenário havia sempre mais alguém a precisar de ajuda.”
O resgate transformou-se rapidamente num símbolo internacional da missão portuguesa e reuniu no local equipas de vários países, comunicação social internacional e dezenas de operacionais.
Dias depois, Hernán receberia no hospital uma camisola autografada por Cristiano Ronaldo, entregue pelo embaixador de Portugal e pelo comandante da força portuguesa.
Uma missão que foi muito além do resgate de Hernán
O salvamento de Hernán tornou-se o símbolo da missão portuguesa, mas esteve longe de resumir o trabalho desenvolvido na Venezuela.

Durante 14 dias, a força nacional respondeu a mais de 30 ocorrências, entre operações de busca e salvamento, inspeções técnicas a edifícios, apoio humanitário e aconselhamento às autoridades locais na organização de áreas de acolhimento para desalojados e postos de assistência médica.
João Pitacas destaca ainda o papel dos engenheiros de estruturas, dos profissionais do INEM e das restantes equipas especializadas, lembrando que muitas das pessoas apoiadas não apresentavam ferimentos provocados diretamente pelo sismo, mas tinham deixado de conseguir aceder a tratamentos, medicamentos ou cuidados de saúde indispensáveis.

“Tentámos fazer a diferença para algumas pessoas. Não para todas, porque era impossível, mas para aquelas a quem conseguimos chegar.”
Liderar também é proteger quem protege
Enquanto as equipas ajudavam as pessoas e trabalhavam diretamente entre os escombros, João Pitacas tinha outra responsabilidade: garantir que cada decisão era tomada em segurança.
“O comandante assegurava sobretudo as ligações institucionais e eu ficava maioritariamente com a gestão interna da força. As equipas, os equipamentos, a logística, a receção das missões e garantir que todas as operações decorriam em segurança.”
Ao longo da missão, nunca pensou que o cenário fosse pior do que esperava. Pensou, isso sim, que seria necessário manter durante vários dias um enorme esforço físico, técnico e emocional.
“Nós íamos preparados para o pior. Nunca pensámos que fosse pior do que imaginávamos. Pensámos, isso sim, que tínhamos de garantir que a força conseguia manter aquele enorme esforço físico e emocional durante todo o tempo que fosse necessário.”
O regresso a Portugal trouxe um último momento marcante. Recebida pelo Presidente da República na Base Aérea de Beja, a missão portuguesa foi homenageada pelo trabalho desenvolvido. Mas João Pitacas guarda outra imagem.




“Foram recebidos pelo Presidente da República, mas o momento mais importante aconteceu quando aterramos em Portugal e percebemos que os 62 que partiram eram os mesmos 62 que regressavam. Esse era o nosso primeiro grande objetivo.”
“Hoje dou muito mais valor ao que realmente importa”
Quase três décadas depois de ter entrado para os Bombeiros Voluntários do Entroncamento pela mão do pai, João Pitacas diz que continua motivado pela mesma razão que o levou a vestir a farda pela primeira vez: servir o próximo.
No entanto, admite que esta missão lhe deixou algo mais. Mudou-lhe a perspetiva sobre o que realmente importa.
“Hoje relativizo muito mais os problemas do dia a dia. Às vezes basta faltar água ou comunicações durante algumas horas para acharmos que é uma tragédia. Depois de uma missão destas percebemos como somos privilegiados e damos muito mais valor ao que temos.”
É precisamente essa aprendizagem que traz consigo da Venezuela. Uma missão onde Portugal salvou uma vida, reforçou o prestígio internacional das suas equipas de proteção civil e onde João Pitacas e a sua equipa encontrou também uma nova forma de olhar para a própria vida.

Os sismos registados na Venezuela em 24 de junho causaram pelo menos 5.208 mortos e 16.740 feridos, segundo o mais recente balanço oficial.
Entre os mortos, há pelo menos 121 portugueses e lusodescendentes, e outros 49 estão desaparecidos.
Vários países, incluindo Portugal e outros Estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo, e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.
