Com o debate do Programa do Governo PS, apoiado por uma nova maioria no Parlamento e o seu início de funções, esperemos que termine o período de desvario em que tudo foi dito para impedir que a democracia funcionasse em pleno.

Dos partidos da direita ao Presidente da República ouvimos quase tudo. Abre-se agora a janela da esperança para novas políticas que levem à recuperação de rendimentos, de direitos e conduzam o país para a redução das desigualdades. Sem resolver o problema central das desigualdades, que as políticas de direita agravaram, não há desenvolvimento para o país.

É uma utopia dirão alguns, impossível dirão outros. Uma catástrofe: será interrompido o período em que foi maior a transferência de rendimentos do trabalho para o capital, mesmo quando nos diziam que os “sacrifícios eram para todos”. Quem tudo fez para justificar a sua tese de que quem ganha eleições deve governar, mesmo sem maioria no Parlamento, queria que tudo ficasse na mesma, mesmo que para isso fizesse uso da ilusão de mudar alguma coisa…Chamam-lhe tradição, mas eu prefiro chamar-lhe mistificação – dizia-se que nas eleições se elege o primeiro-ministro, mas provou-se, agora, que se elege deputados e deputadas e que só quem tem a maioria dos seus votos pode governar.

São os mesmos que diziam que “vivíamos acima das possibilidades” e que “a austeridade era inevitável e o único caminho”.

A direita, PSD e CDS quiseram marcar a sua posição e apresentaram uma Moção de rejeição ao Governo, mesmo com a confirmação do seu anunciado chumbo. Convém relembrar que foi coisa que sempre ridicularizaram quando estavam no governo e era a esquerda que assim marcava a sua posição sobre as políticas anunciadas num Programa de Governo. Mudam-se os tempos…

Mas o que mais importa é que o debate sobre o programa do Governo veio demonstrar que existe um compromisso para levar a sério, um compromisso que é exigente, ao contrário daquilo que a direita ainda quer fazer passar para a generalidade da opinião pública. E esse compromisso traduz-se em políticas concretas.

Os argumentos da direita estão esgotados e as suas alternativas são muito parcas, a julgar pelas intervenções no debate. Apenas saíram do discurso de vítimas, usando os “sound-bites” já estafados tipo “senhor primeiro-ministro que perdeu as eleições” ou a “gerigonça”.

O caminho é fácil? Não é. Tudo será resolvido? Não. Existem divergências entre o Governo e a maioria que o apoia? Existem. Que maior garantia podem os portugueses e as portuguesas ter que a clareza e transparência com que tudo isto é assumido?

Uma coisa é certa, existe uma alternativa, existe um caminho de mudança e é preciso coragem para seguir em frente.

A política não está reservada aos/às eleitos/as. A política é do povo e a sua soberania não se esgota no dia em que vai votar. Mobilizem-se as vontades, assumam-se as controvérsias, organizem-se os cidadãos/ãs e as alternativas surgirão e as maiorias sociais contribuirão para decidir o rumo do país. Nunca como agora a participação é tão importante.

Quem se refugia numa tradição, que não tem abrigo na Constituição, tem medo e sabe que perdeu.

Mas este desafio que hoje vivemos, da política e da participação, relembra a “inquietação” de que fala o poeta.

https://www.youtube.com/watch?v=olAOazHmn7I

 

 

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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