"Napoleão I no trono imperial", óleo sobre tela - Jean-Auguste Dominique Ingres, 1806 Foto: DR

Jean-Auguste Dominique Ingres, foi um dos maiores pintores do período Napoleónico e talvez o exemplo máximo da academia francesa. Foi com ele (e com o seu mestre Jacques-Luis David) que se codificou: como, em que maneira e o que pintar até chegar Corot e os impressionistas. Desenhador perfeito, incansável artista que pintou quadros imensos, realizou modificações na composição dos temas mais complexos e ao mesmo tempo conseguia pintar pequenos quadros só para aperfeiçoar a pincelada.

Dono de um atelier composto de aprendizes, colaboradores e alunos, aceitava encomendas das mais altas patentes do império e da igreja, sempre respeitando os prazos e as inclinações dos clientes. Era também amigo de muitos artistas contemporâneos… talvez amigos amigos não, mas com quem trocava ideias e às vezes ofensas.

Ninguém pode tirar a sua importância na arte seja nas telas ou nas palavras escritas, visto que ele transmitia as suas ideias em publicações especializadas e muito lidas na altura.

E aqui calha bem porque faz tempo que eu gostava de falar, a nível artístico naturalmente, da diferença entre o toque e o gesto. Por acaso, há dias atrás, estava na biblioteca de Constância e encontrei um livro em francês de Jacques Seghers que falava mesmo disto em relação ao grande Ingres. Dizia ele que “O que é chamado de “toque” é um mau uso do desempenho. É apenas a qualidade do falso talentoso, o “tolo” do artista, que está longe da imitação da natureza para simplesmente mostrar sua habilidade. O toque, por mais detestável que seja, não deve ser aparente: de outra forma, impede a ilusão e imobiliza tudo. Em vez do objecto representado, mostra o processo: em vez do pensamento, ele denuncia a mão.”

Para explicar, há muitos bons pintores mas que se concentram no toque, e lhe chamam de “toque artístico”, mas que nada mais é que uma declaração de auto-estima, um exercício de perfeição narcisista que nada tem a ver com a representação da natureza. O pintor DEVE saber desenhar o mais perfeitamente possível o que representa mas não deve ser a sua meta. O artista pinta ou desenha reinterpretando e personalizando e assim, sim, já a pode chamar de obra de arte, e chega ao seu objectivo. O gesto, isto sim, a gestualidade pessoal e única de cada artista, deixa correr a mão, vê a SUA pincelada e vai ser reconhecido pelo seu sinal único e unívoco. A pincelada de Van Gogh, de Renoir ou de Picasso são propriedades únicas e indiscutíveis. Todos nós do ramo, deveríamos actuar nesta direção, procurar o nosso gesto, a nossa pincelada. Só assim podemos ser reconhecidos e ter a felicidade de trabalhar no mais criativo dos empenhos humanos.

Pintor Italiano, licenciado em Arte e com bacharelato em Artes Gráficas em Urbino (Itália), vive em Portugal desde 1986. Em 1996 iniciou um protejo de ensino alternativo de desenho e pintura nas autarquias do Médio Tejo que, após 20 anos, ainda continua ativo. Neste projeto estão incluídas exposições coletivas e pessoais, eventos culturais, dias de pintura ao ar livre, body painting, pintura com vinho ou azeite, e outras colaborações com autarquias e instituições. Neste momento dirige quatro laboratórios: Abrantes, Entroncamento, Santarém e Torres Novas.

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