História de uma cegonha e do homem que a ensinou a voar, por Vera Dias António

Há histórias de amor improváveis. Não impossíveis, mas improváveis no sentido em que não se vêem todos os dias. E talvez sejam essas as histórias mais bonitas.

Esta que vos quero contar, comparo-a a um amor de verão, daqueles dos filmes, que duram uma semana mas permanecem na pele e na memória pela singularidade e intensidade com que acontecem.

Todos devíamos viver um amor assim, que nos põe à prova, faz bater o coração e cria inesquecíveis borboletas no estômago.

Esta história passou-se por nos primeiros dias de agosto, há cerca de um mês, em Mação.

 Na verdade começou antes, há uns 3 ou 4 anos, quando um casal de cegonhas começou a fazer ninho no topo de uma velha palmeira que me lembro de existir sempre, muito alta, numa das hortas no centro da Vila de Mação. A praga do escaravelho-vermelho de 2008 levou-lhe as folhas mas aquele grande tronco ali permanece e passou a ser poiso para as ditas cegonhas.

Foto: Vera Dias António

E todos os anos o casal ali vem fazer criação gerando nesses meses a atenção de algumas pessoas que vão acompanhando o namoro, adivinha-se se já há ovos, depois parece que começam a ver-se as cabecinhas das crias lá no alto, no seu ninho.

As crias começam a dar o ar da sua graça, sempre duas novas cegonhas e, ali pelo São João começam a bater asas, a ensaiar voo, para partirem quando os dias ficam bem quentes.

E voltam, ano após ano, para viver estes meses em Mação, namoram, acasalam, têm filhotes e um dia damos com o ninho já vazio. Tem sido assim nos últimos anos.

Há pessoas que ficam, espreitam, registam, documentam, conversam, acompanham e adivinham voos, um quase passatempo de primavera-verão…

O meu amigo Carlos Gueifão é das pessoas que vejo a acompanhar as aventuras das cegonhas da Vila. Já por várias vezes, nestes anos, o fotografei a espreitar o dito ninho.

Este ano, no entanto, e aqui começa a história que vos quero contar, o início de agosto trouxe uma surpresa ao meu amigo Carlos Gueifão, na sua horta da Fonte da Mantela, junto ao dito tronco da palmeira, ali no centro da Vila de Mação.

Eis que um dia de manhã, ao visitar a sua horta, o seu paraíso, dá de caras com uma das crias de cegonha a passear na sua horta. E ali, naquela manhã fresca de verão, começou o namoro. Ele ali esteve e ela ali ficou.

História de uma cegonha e do homem que a ensinou a voar, por Vera Dias António

Ao fim do dia ela voltou. E ele, encantado e qual moço apaixonado a sentir o alvoroço de borboletas no estômago, ao mesmo tempo que nem acredita que é real o que está a acontecer, decide investir, na visita seguinte, com uns pedaços de peixe que tinha em casa e descongelou para lhe oferecer.

Primeiro ao longe, num degrau de acesso à horta, ainda que tímida e desconfiada, aceitou o presente.

Assim continuaram os dias seguintes até que a cegonha já lhe vinha comer à mão o peixe que entretanto passou a ir comprar só para a sua nova amiga, já sem espinhas, só belos lombos de peixe fresco. Tiveram visitas, vieram amigos e familiares ver ao vivo, testemunhar tal amizade impovável entre a cegonha e o homem que a alimentava à mão.

Dias, momentos incríveis e inesquecíveis. Daqueles que só acontecem a quem quer, crê e acredita com o coração.

Um dia aconteceu algo ainda mais inverosímil, que foi telefonarem ao meu amigo Carlos Gueifão, pois que, enquanto andava noutras voltas, ela lhe foi aparecer à sua porta, a uns cinco minutos da horta, na rua principal de Mação.

Ele entretanto já na horta em ânsias para a ver, que tardava, e ela, a danada, a bicar-lhe junto à porta de casa, anunciando a quem quisesse ver que havia ali caso, um caso sério, e a nós, espetadores com cara de espanto perante tal episódio. Foi um dia e tanto. Claro que ele foi no seu encalço e ela lá o seguiu até à horta.  Incrível, não é?!

Entretanto a família dela já tinha ido para outras paragens. Migrou. Entre os mais próximos acreditava-se que uma das asas da jovem ave teria algum problema que a tinha impossibilitado ou retardado o voo em família.

Mas foi o que aconteceu. Passada cerca de uma semana daquela bonita amizade, ela não apareceu. Ele lá ficou, esperou, teve esperança, desistiu. Voltou mais tarde e nada. Juro-vos que o encontrei verdadeiramente triste nos dias seguintes ao desaparecimento da “sua” cegonha. Faz por estes dias um mês.

Foto: Vera Dias António

O que mais quero acreditar? Que ele a curou e que no dia em que teve coragem, ela seguiu curso no encalço dos seus amigos e da sua família, cheia de força e de amor, seguiu o seu instinto, aquilo que a vida lhe tinha reservado, a sua natureza.

E ele? Ele teve a sorte de viver uma história como poucas, o tal amor rápido e intenso de verão. Um sortudo.

Nunca me vou esquecer desta história de amizade, em que uma cegonha acreditou e confiou num homem que lhe deu de comer à mão, no centro de Mação, em pleno verão de 2026. Que sorte!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação. Licenciada em Sociologia, trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é.

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