Há pessoas com mais de 90 anos e crianças de oito e 14. Há quem tenha ido para a escola descalço, quem tenha aprendido num espaço onde se juntavam dezenas de alunos, quem tenha abandonado os estudos demasiado cedo e quem tenha encontrado depois do 25 de Abril oportunidades que até então pareciam reservadas a poucos.
São algumas das vidas reunidas em “Guarda-Rios – Memórias de Guardiões de Margens”, de José Martinho Gaspar, livro apresentado este sábado no Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, em Abrantes, integrado na MOSTRA – Encontro de Artes em Espaço Rural.
O livro nasce de um trabalho iniciado em Água das Casas, aldeia à qual José Martinho Gaspar mantém uma forte ligação e onde a Mundo em Reboliço, dirigida pela coreógrafa e performer Filipa Francisco, tem vindo a desenvolver um projeto artístico e comunitário que entretanto se estendeu à Matagosa, Fontes e à cidade de Abrantes.
Desta vez, as histórias atravessaram também as fronteiras da aldeia. José Martinho Gaspar entrevistou mais de duas dezenas de pessoas de diferentes gerações, de Água das Casas e de localidades vizinhas, procurando perceber como fizeram o seu percurso escolar, que oportunidades encontraram e de que forma a escola acompanhou as transformações destas comunidades.
“Eu acho que é sobretudo a questão das oportunidades”, sintetizou o autor ao mediotejo.net, quando questionado sobre a principal diferença encontrada entre a escola rural antes e depois do 25 de Abril.

Até à Revolução, explicou, prosseguir os estudos dependia muitas vezes das condições económicas das famílias ou da determinação de pais que, mesmo sem terem tido essa possibilidade, queriam proporcionar aos filhos um percurso diferente.
Há histórias distintas. Alguns entrevistados guardam boas memórias dos professores e da escola, enquanto outros recordam a palmatória, castigos e episódios de violência que deixaram marcas profundas. Mas existe um elemento comum em muitos testemunhos anteriores ao 25 de Abril: a dificuldade em continuar a estudar, mesmo quando existia vontade para o fazer.
Salas com 70 alunos e aprender para ensinar os mais velhos
Algumas memórias transportam o leitor para salas onde podiam estar “50, 60, 70 alunos”, de diferentes níveis de escolaridade.
Os mais velhos ajudavam os mais novos e, quando regressavam à aldeia, levavam consigo aquilo que tinham aprendido. José Martinho Gaspar encontrou relatos de crianças que ensinavam adultos, que nunca tinham frequentado a escola, a escrever pelo menos o próprio nome.
Saber assinar um documento quando se ia a uma repartição pública já representava, naquele contexto, “uma conquista”. Mas “Guarda-Rios” não romantiza esse passado.
Há relatos de crianças que iam descalças para a escola, de alunos que regressavam a casa à hora de almoço sem terem praticamente o que comer e de experiências escolares marcadas por violência e humilhação.
No extremo oposto estão histórias de persistência, de pessoas que estudaram à noite ou encontraram outras formas de continuar a formação contra as circunstâncias da época.
O próprio índice do livro antecipa alguns desses mundos: “Ninguém podia continuar a estudar, o meu pai tinha cinco filhos”, “Éramos perto de 70, todos na mesma sala”, “Ela batia-me com a régua”, “O meu pai pediu dinheiro para eu estudar” ou “Tinha a certeza que os estudos me levariam a algo melhor” são alguns dos títulos construídos a partir das vozes dos entrevistados.
Quando fecha a escola, muda também a aldeia
A narrativa chega depois às gerações que assistiram ao encerramento das pequenas escolas rurais. Entre os entrevistados estão alguns dos últimos alunos de estabelecimentos da região, num processo que José Martinho considera inseparável do despovoamento.
“Por um lado as escolas fecharam, por outro lado as pessoas vieram-se embora, e depois as duas coisas acabam por andar cruzadas”, afirmou.

A escola era mais do que um local de aprendizagem. Tinha um “papel fundamental” na vida das comunidades e a sua perda coincidiu com a diminuição do número de famílias jovens e de crianças a viver permanentemente nas aldeias.
O problema prolonga-se hoje na mobilidade. Com cada vez menos alunos, até soluções de transporte escolar se tornam mais difíceis, obrigando algumas famílias a assegurar diariamente as deslocações dos filhos para estabelecimentos de outras localidades.
É por isso que o livro rapidamente deixa de ser apenas sobre educação. As entrevistas conduzem às migrações para Lisboa, à vida profissional, ao trabalho agrícola, às mudanças familiares e aos regressos de quem partiu mas continuou ligado às terras onde nasceu.
Porque são “Guarda-Rios”
O título nasceu também dessa relação com o território. Os pássaros já estavam presentes no trabalho desenvolvido em Água das Casas e nos murais de Anacleto Guia. Entre eles estava o guarda-rios, ave associada às linhas de água. A partir daí surgiu a analogia.
Estas pessoas são, segundo José Martinho Gaspar, “guarda-rios na medida em que são os guardiões destes territórios”.
Cada entrevistado foi associado a uma ave existente na região, tendo o livro um desenho de Anacleto Guia para cada uma das histórias, além de uma fotografia atual da pessoa e de outra imagem relacionada com algum episódio da sua vida.
Para o autor, a recolha pode continuar, mas faz sentido que ultrapasse cada vez mais Água das Casas e permita comparar experiências de diferentes locais do concelho.
“É um projeto mais abrangente e territorial”, afirmou, defendendo que importa compreender porque determinados lugares desenvolveram dinâmicas sociais e associativas diferentes e, simultaneamente, perceber até que ponto as comunidades estão ligadas umas às outras.
A aldeia que ficou mesmo a milhares de quilómetros
A relação entre arte, território e memória está igualmente presente no texto que Filipa Francisco escreveu para abrir o livro.
A coreógrafa recorda que, quando estudava em Nova Iorque, nos anos 90, rodeada pela dimensão dos edifícios da cidade, continuava a imaginar a pequena aldeia de Água das Casas e o avô barqueiro, atravessando pessoas e animais de uma margem para a outra.

Anos mais tarde, escreveu, percebeu que “a grandeza existe em cada pequena coisa”.
É nesse “pequeno grande mundo” que a Mundo em Reboliço viria a desenvolver parte do seu trabalho, colaborando com artistas e habitantes de várias idades e transformando progressivamente a memória local em espetáculos, livros, murais e outros projetos.
A própria Filipa Francisco explicou ao mediotejo.net que “Guarda-Rios” deve ser entendido sobretudo como um trabalho sobre transformação.
“Para mim é sobre transformação”, afirmou, ligando os livros às restantes atividades realizadas no território e a uma ideia de criação que não chega de fora para se sobrepor ao que existe.
“Os lugares são imensamente ricos. Não vamos levar, se calhar, nada tão rico como já lá existe”, observou.
O trabalho passa antes por colocar diferentes visões em contacto e criar a partir dessa relação. Os livros, os murais de pássaros nas paredes da aldeia, as performances e os restantes projetos integram, explicou, uma mesma “linha de curadoria para a transformação”.
A ideia está também condensada numa frase que Filipa deixou no texto de abertura de “Guarda-Rios”: criar é construir um “nós”, reunindo pessoas em torno de um objetivo comum através da escuta, da colaboração e da criação.
Da memória de Água das Casas para outras aldeias
A MOSTRA nasceu desta relação prolongada com Água das Casas, mas tem vindo a alargar a geografia das atividades.
Este ano, o projeto estende-se à Matagosa, Fontes e Abrantes, procurando, segundo Filipa Francisco, “estar nos sítios e fazer com os sítios”.
O alargamento surgiu naturalmente à medida que apareceram outras histórias e outras comunidades interessadas em receber e participar nas propostas artísticas.
“Há estas pessoas que também têm muitas histórias e os outros locais que também querem receber”, explicou.
José Martinho Gaspar conhece bem esse movimento entre a história de uma pequena comunidade e a memória mais ampla do território.
Nascido em Água das Casas, em 1967, é professor, escritor e diretor da revista Zahara desde a sua fundação, em 2003. Entre vários trabalhos publicados encontram-se Água das Casas: Memórias de uma comunidade, de 2015, e Água das Casas: Uma amostra, editado pela Mundo em Reboliço em 2025.
“Guarda-Rios” acrescenta agora novas margens a essa recolha.

Depois da apresentação realizada este sábado em Abrantes, “Guarda-Rios” volta a integrar a programação da MOSTRA este domingo, 4 de outubro, às 15h00, no Miradouro das Fontes, dando continuidade a um projeto que começou por olhar para uma aldeia e que, progressivamente, passou a perguntar o que têm em comum – e o que distingue – as histórias de todas as outras.
