Foto: DR

Na sua oficina, um velho sapateiro de longa barba, de mãos esguias e muito brancas batia sola. A robustez daquele homem com pulsos de ferro, torso hercúleo, barba avermelhada, olhos de um azul de abismo muito parecido com muitos outros que por ali se encontravam. Junto a ele apenas se destacava um mulato. Era bronzeado, com cara mascarada de bexigas, de cabelo curto e barba anelada, com os olhos rasgados de sangue e os dentes pontiagudos de serra. Tinha um ar espirituoso e vitorioso.

Lá longe, à beira do rio, passava um caçador com idade avançada, muito alto e magro, armado com uma espingarda e carregando um animal às costas, morto, a gotejar sangue pelas feridas. O caçador, homem maduro e experimentado por longos sofrimentos, caminhava em passo apressado mostrando uma calma indolente nos movimentos, nos olhos, uma longa matreirice. Sempre em silêncio, desdenhando qualquer conversa, o caçador ágil, enérgico, primitivo, seguia cercado da sua ardega matilha, cujos cães o festejavam aos saltos ou iam à sua frente, de orelhas caídas, farejando o chão.

Uns alfaiates passavam a ferro um pano grosso. Alguns estavam ali há muitos anos e a sua pele era amarelada, encolhida como pergaminho, outros eram louros e jovens. Trajavam as suas melhores roupas. Cada um tinha as vestes consoante o seu próprio gosto mas da moda da época. Era uma mistura inacabada que florescia nas nossas emoções imorredouras, do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor. Uma força salutar, divina! De entre eles destacava-se um mais velho, de cabeça grande, meio barrigudo de monóculo escuro. Um outro, muito jovem, moreno e imberbe. Destacava-se ainda, um terceiro de rosto claro, com uma moldura de barba castanha, um ar de fadiga e preguiça. De vez em quando, alguns tiravam o chapéu, limpavam o suor e cobriam a cabeça com um lenço.

Os padeiros amassavam o trigo e preparavam o pão, um trabalho humilde e doce. E com as suas mãos meigas festejam-lhes os grãos, como os últimos afagos dados às vítimas no momento do sacrifício. Ao lado, um barril de água em que mergulhavam as mãos, esfregando depois as caras com estrepito, bufando.

Os ferreiros malhavam no ferro junto a uma forja. O ruído era vivo e abençoado, sem violência. A energia sentia-se. Sem parar, o ferro não descansava nas mãos, sempre em movimento, num compasso vagaroso. Ouvia-se cair o martelo deslocando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores de ferro. Quando estes encontravam um ferro mais duro, redobravam de ardor, o suor escorria-lhes, o golpe era tirado bem do alto e, no impulso furibundo, o ferro era penetrado tanto que a bigorna, desesperada, ficava com um rosto apoplético e se espargia de alegria. O grupo de ferreiros arregalava os olhos para o seu material esculpido e murmurava com desdém a quem por ali passava. Um dos mais velhos não se cansava de gesticular, sacudindo a cabeça, tirando o lenço para limpar o suor enxugando a testa que se franzia em grandes rugas.

Homens de corpo e alma que sentem e ouvem o gemido do sofrimento do mar rasgado, a queixa da floresta ardente, o estremecimento do ar cortado, por toda a parte destruindo como um fatal portador da morte a integridade da forma. Estes pobres que trabalham mediocremente com as próprias mãos, estes homens que não se mancham nos fumos do carvão, que se não embrutecem no barulho das máquinas, que conservam toda a frescura da alma, que se bastam a si mesmos, que fazem cantando o pão, atando o sapato, fazendo as vestes… são os criadores simples e naturais. E a criação, é neles, uma feliz satisfação do inconsciente.

Carlos Alves

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.