Depois do AVC, um dia de cada vez GAM de Abrantes encontra nas vindimas uma forma de voltar à vida. Foto: mediotejo.net

Cerca de 15 sobreviventes de AVC e cuidadores trocaram a sala onde habitualmente se encontram por uma vinha em Tramagal, numa manhã de vindimas que serviu de convívio, participação e prova de que a vida continua depois de um AVC.

Concentrados às 08:30 junto à Junta de Freguesia de Tramagal, os elementos do Grupo de Ajuda Mútua (GAM) de Abrantes seguiram de carro para as vinhas do Casal da Coelheira, com o apoio da carrinha da autarquia local, juntando-se a cerca de 30 pessoas que já vindimavam desde as 06:15.

Vestidos com as tradicionais t-shirts roxas da Portugal AVC, pegaram nas tesouras e, orientados pelos responsáveis e pelos trabalhadores mais experientes, começaram a cortar cachos de uvas tintas, colocando-os cuidadosamente em baldes e alguidares.

Durante cerca de hora e meia, o grupo trabalhou lado a lado com os restantes vindimadores, acompanhado pelo enólogo e proprietário do Casal da Coelheira, Nuno Rodrigues, num ambiente marcado pela boa disposição e pelo convívio entre sobreviventes de AVC e cuidadores.

“É importante para nós ajudar esta comunidade a integrar e a mostrar que são pessoas válidas e capazes de desempenhar todas as funções”, afirmou Nuno Rodrigues, considerando que a iniciativa permite contribuir para o bem-estar físico e mental de pessoas que continuam em recuperação.

Nuno Rodrigues, enólogo e proprietário do Casal da Coelheira. Foto: mediotejo.net

A ideia nasceu de uma conversa informal nas Festas de Abrantes, em junho, entre Rodrigues e elementos do GAM, e acabou por passar da brincadeira à realidade.

“É uma forma de terapia”, resumiu Anabela Santos Paixão, coordenadora do GAM Abrantes, para quem estas atividades permitem “valorizar quem está incapacitado” e mostrar que, apesar das diferentes limitações, “somos todos iguais”.

GAM de Abrantes vindima a vida para mostrar que depois do AVC a vida continua. Na foto: Anabela Santos

O GAM nasceu em janeiro de 2025, depois de Anabela Santos ter sofrido um AVC cinco anos antes e ter encontrado na Portugal AVC e no grupo de Portalegre o apoio que procurava.

“Quando lá cheguei, senti-me em casa. Foi assim um renovar de energia”, recordou, explicando que essa experiência a levou a querer criar em Abrantes um espaço semelhante.

Desde então, cerca de 30 pessoas já passaram pelo grupo, embora a participação varie de encontro para encontro. Há sessões com 10 participantes e outras que chegam às duas dezenas ou ultrapassam esse número, com sobreviventes e cuidadores de Abrantes, Tramagal, Entroncamento, Foros do Arrão e outras localidades.

Os encontros realizam-se no segundo sábado de cada mês, nos Bombeiros Voluntários de Abrantes, mas a participação é voluntária e não obrigatória, permitindo que cada pessoa apareça quando se sente preparada ou disponível.

“Já falamos todos a mesma língua”, explicou Anabela, destacando a importância de uma partilha que permite compreender dificuldades que, muitas vezes, são difíceis de explicar a quem nunca passou por um AVC.

Entre essas dificuldades estão as chamadas sequelas invisíveis. A própria coordenadora conta que, por vezes, fica tão concentrada numa tarefa que não consegue dar atenção ao que acontece à sua volta, podendo ser interpretada como “mal-educada”, quando se trata de uma consequência do AVC.

“As sequelas invisíveis são as piores”, afirmou, lembrando que “cada AVC é um AVC” e que nem sempre aquilo que mudou na pessoa é evidente para quem a observa.

Para Manuel Fontinha, de 55 anos, que sofreu um AVC em 2021, a recuperação continua. Ficou com o lado esquerdo afetado e enfrenta dificuldades de equilíbrio e de mobilidade, necessitando ainda de ajuda para tarefas básicas como tomar banho ou vestir-se.

“Eu ainda não estou recuperado”, disse, mas garante: “Não posso desistir. Tenho que ter força e tentar melhorar cada dia.”

Para Manuel Fontinha, de 55 anos, que sofreu um AVC em 2021, a recuperação continua e encontra apoio e forças na família e no GAM. Foto: mediotejo.net

Foi no GAM que encontrou pessoas capazes de compreender melhor aquilo que está a viver. “Gostei muito do convívio. Porque são pessoas que também já passaram o mesmo que eu estou a passar. E a gente compreende-se melhor uns aos outros”, afirmou.

A vindima permitiu-lhe também recuperar memórias de outros tempos. Aos 16 ou 17 anos, Manuel já tinha trabalhado na Gouxaria, à entrada de Almeirim, e diz ter recordado com saudade esses tempos enquanto cortava novamente cachos de uva.

“É uma coisa diferente. É para passarmos um bocadinho de tempo diferente, para não estarmos sempre em casa”, explicou.

A mulher, Marinelma (Mary) Almeida, 56 anos, acompanha-o como cuidadora e garante que o GAM é importante não apenas para Manuel, mas para toda a família.

Mary Almeida acompanha o marido como cuidadora e garante que o GAM é importante não apenas para Manuel, mas para toda a família. Foto: mediotejo.net

“Como cuidadora, às vezes ele está meio para baixo, eu agarro, meto no carro e vamos embora”, contou, defendendo que quem sofreu um AVC não pode ficar fechado em casa.

Mas também os cuidadores precisam de apoio, sublinhou. “Nós também cuidadores precisamos estar bem para cuidar, porque se eu não estiver bem, como é que eu vou cuidar?”, questionou.

António Rego, 62 anos, natural de Mouriscas e residente no Tramagal, sofreu um AVC em 25 de agosto de 2024 e ficou com o lado esquerdo afetado, incluindo limitações no membro superior.

Depois da recuperação possível, diz que a vida mudou “muito”, não apenas fisicamente, mas também psicologicamente e a nível sensorial. No GAM encontrou sobretudo “união, recuperação e gratidão”, descrevendo o grupo como “uma escapatória” que ajuda particularmente na dimensão emocional.

Sobre a experiência nas vinhas, considera que serviu para reforçar a união entre os participantes, mesmo reconhecendo que não conseguiram trabalhar ao mesmo ritmo dos restantes vindimadores.

“Não nos podemos esconder atrás de um AVC”, defendeu, apelando a quem está a começar a viver com as sequelas da doença a avançar “um dia de cada vez”.

“Não fingirmos que não aconteceu nada, nem nos escondermos atrás de uma parede ou dentro de um armário. É partir para a frente. É um dia de cada vez e respirar”, afirmou.

“Não nos podemos esconder atrás de um AVC”, defende António Rego. Foto: mediotejo.net

E, perante a brincadeira de que também estavam ali a “vindimar a vida”, António concordou: “É mesmo assim, é vindimar a vida.”

A manhã terminou cerca das 10:30, depois de 90 minutos de vindima, com satisfação entre os participantes e uma lembrança oferecida pelo Casal da Coelheira a cada elemento do grupo.

A iniciativa acontece poucas semanas antes de Abrantes receber, em 26 de setembro, o encontro nacional “10 anos juntos – Sobreviventes e Portugal AVC”, que deverá reunir cerca de 500 pessoas de várias regiões do país e das ilhas.

Para Anabela Santos, que procurou que o encontro se realizasse em Abrantes, será sobretudo uma oportunidade de convívio entre pessoas que muitas vezes apenas se conhecem através das redes sociais ou do telefone.

“É bom trazê-los à cidade”, afirmou, numa altura em que o GAM local já trabalha no acolhimento dos participantes.

Para quem vive depois de um AVC, a mensagem que a coordenadora deixa é simples: primeiro, aceitar o que aconteceu, valorizar o facto de estar vivo e perceber que “a vida não para”.

“Não podemos ir a direito. Vamos às curvas, mas estamos cá”, afirmou Anabela Santos.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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1 Comment

  1. Muito obrigada.
    Foi um dia inesquecível o Manuel adorou.
    Em nome de todo grupo do GAM De Abrantes, agradeço essa oportunidade ao Casal da Coelheira do Tramagal, que fizeram esse dia ficar registrado nas nossas vidas.
    E ao
    Jornalista Mário Rui Fonseca.
    E a junta de freguesia do Tramagal com todo apoio ao transporte, obrigada Senhor Presidente.
    Atenciosamente: Grupo do GAM De Abrantes.

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