“Queremos manter sempre esta essência da aldeia. Se a aldeia se perder, se deixarmos de ter as casas, os quintais, as esquinas e as pessoas, isso já não é o Bons Sons”, afirma Filipe Cartaxo, presidente da direção do Sport Clube Operário de Cem Soldos (SCOCS), associação que organiza o festival e que, aos 30 anos, representa uma nova geração de dirigentes nascidos e criados na aldeia.
Filipe Cartaxo tinha apenas dez anos quando o Bons Sons nasceu, em 2006. Cresceu a acompanhar os mais velhos na montagem das primeiras estruturas, ajudando a abrir buracos para colocar postes, a estender cabos e a montar luzes.
Hoje lidera a associação responsável por um dos mais reconhecidos festivais de música portuguesa do país, mas continua a definir-se, antes de tudo, como mais um voluntário.
“Foi ficando o bichinho. Comecei por ajudar nas pequenas coisas, depois fui monitor da Academia Bons Sons, mais tarde dirigente da associação e, naturalmente, acabei por assumir a presidência. Aqui somos todos voluntários. Tenho o meu trabalho no Município de Tomar e dedico as horas livres à associação”, conta.
A história de Filipe confunde-se com a de muitos dos dirigentes atuais. Quase todos cresceram com o festival “dentro de casa”, acompanhando a sua evolução desde crianças até assumirem hoje responsabilidades na organização de um evento que mobiliza praticamente toda a aldeia.







Mais do que um festival de música, o Bons Sons tornou-se, ao longo de duas décadas, um projeto de desenvolvimento comunitário que procura demonstrar que a cultura também pode ser uma ferramenta de coesão social, valorização do mundo rural e fixação de população no interior do país.
“Falamos muito dos próximos 20 anos. O desafio é que a aldeia se mantenha viva. O Bons Sons tem de continuar a ser uma ferramenta importante para o desenvolvimento, para a modernização da aldeia, para fixar jovens e atrair novas famílias, mas sem perder aquilo que somos”, afirma.

Ao contrário da maioria dos festivais, em Cem Soldos o recinto coincide com a própria aldeia. Ruas, largos, garagens, quintais, eiras e hortas transformam-se em palcos, bares, espaços de convívio e locais de programação artística, numa lógica em que praticamente tudo nasce da colaboração dos habitantes.
“Os espaços do dia a dia são adaptados para receber um concerto, um bar ou uma atividade. É a aldeia que se transforma no festival”, resume.
A poucos dias da abertura da edição comemorativa dos 20 anos, a azáfama já domina Cem Soldos. Equipas trabalham diariamente na montagem das estruturas, pintura de edifícios, preparação de espaços e organização logística.
“Neste momento temos cerca de 55 pessoas em permanência nas montagens, mas durante o festival serão entre 600 e 700 voluntários envolvidos em todas as áreas, desde os bares ao campismo, aos transportes, às cozinhas, ao posto de informação ou às equipas técnicas”, explica.




Esse movimento junta habitantes da aldeia, familiares, amigos, antigos residentes e voluntários vindos de vários pontos do país.
“Há pessoas que já não conseguem ajudar porque a idade não permite, mas deram durante muitos anos o seu contributo. Depois chegam os filhos, os netos, os amigos. Há sempre alguém que pega no testemunho.”
Segundo Filipe Cartaxo, o Bons Sons acabou também por produzir efeitos muito para além dos quatro dias de festival.
“O que sentimos é um enorme sentimento de pertença. As pessoas querem ter a aldeia bonita para receber quem nos visita.”

Nos últimos dias, várias habitações foram pintadas pelos proprietários, a associação renovou fachadas de edifícios e concluiu um mural alusivo aos 20 anos do festival, enquanto a Junta de Freguesia procedeu à limpeza e beneficiação dos espaços públicos.
“São pequenos sinais, mas fazem diferença. A aldeia prepara-se para receber as pessoas.”

O impacto também se faz sentir ao longo do ano. O SCOCS conta atualmente com cerca de mil associados – mais do que os cerca de 800 habitantes de Cem Soldos – e organiza entre 30 e 35 iniciativas anuais, entre teatro, dança, cinema, concertos, oficinas, humor, debates e atividades culturais.
“A associação não vive apenas do Bons Sons. Temos atividade durante todo o ano e isso também explica porque tantas pessoas querem fazer parte deste projeto.”
Na perspetiva do dirigente, o festival contribuiu igualmente para contrariar tendências demográficas que afetam muitas aldeias do interior.







“Temos visto casas a serem recuperadas, famílias jovens a instalar-se, mais crianças na escola e no jardim de infância. Há escolas que fecham e nós conseguimos manter as nossas vivas. Talvez quem venha de fora não perceba isso, mas quem vive aqui sente bem esse impacto.”
Entre 6 e 9 de agosto, a aldeia voltará a transformar-se num recinto cultural ao ar livre, com dez palcos dedicados exclusivamente à música portuguesa, programação de cinema, conversas, oficinas, exposições, percursos, atividades para famílias e um novo palco instalado entre hortas e eiras.
São esperados cerca de 32 a 35 mil visitantes ao longo dos quatro dias, num festival que mantém o lema lançado em 2006 – “Vem viver a aldeia” – e que, duas décadas depois, continua a fazer da comunidade o seu principal palco.
O programa completo pode ser consultado no ‘site’ do festival (www.bonssons.pt).

