O Posto de Turismo de Dornes, em Ferreira do Zêzere, recebeu na terça-feira, 13 de março, uma reunião do Comité de Peritos do Desenvolvimento Rural do Ribatejo Norte, que refletiram sobre o tema do Castelo de Bode enquanto vetor desenvolvimento do turismo em equilíbrio com proteção do recurso hídrico. A iniciativa partiu da ADIRN – Associação do Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte.
Jorge Rodrigues, coordenador da ADIRN, salientou que este painel de peritos reúne condições para emitir um conjunto de pareceres no sentido de se redirecionar o plano estratégico para a região, sendo que nesta sessão foi debatida a possibilidade de se avançar com um Plano Especial de Reflorestação Florestal para o Castelo de Bode (na sequência dos incêndios do último verão) e de candidatar o Castelo de Bode a Estação Náutica.
A reunião pretendeu recolher contributos com vista à elaboração de um Memorando com recomendações para enviar as autoridades competentes (APA) integrarem na revisão do Plano de Ordenamento da Albufeira do Castelo de Bode (POACB) que vai ser feito a partir deste ano.
O documento também será remetido ao Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, Miguel Freitas, cuja presença chegou a estar anunciada – mas viria a ser cancelada devido a alterações de agenda – para esta que foi a segunda reunião do Comité de Peritos da ADIRN.

Para além dos peritos, a iniciativa contou com a presença do vice-presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, Paulo Neves, do vereador da autarquia Hélio Antunes e ainda do Secretário Executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, Miguel Pombeiro.
Os peritos defendem ainda a necessidade de se apostar no Turismo de Experiências, sendo que é fundamental acautelar as questões de segurança, um assunto sempre em pauta.
Abordaram, por exemplo, a possibilidade do Turismo Subaquático, dando a possibilidade ao turista de vivenciar a albufeira de outro modo. Destacaram ainda a necessidade de se apostar na produção de produtos biológicos turísticos como, por exemplo, a cereja ou a maçã.

Paulo Neves, vice-presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, deu as boas vindas aos peritos, comunicando que “vai ser feito um investimento de fundo” em Dornes (eleita como uma das Sete Maravilhas – categoria Aldeias Ribeirinhas) como, por exemplo,
passar os cabos elétricos a cabos subterrâneos.
Hélio Antunes, vereador, referiu que é sempre bom receber este tipo de iniciativas em Ferreira do Zêzere para se perceber
como é que são as coisas no terreno. Recordou que a zona de Dornes foi muito afetada pelos incêndios do último verão e que, para além de se melhorar o aspeto visual de Dornes pretende-se tornar a Torre Pentagonal visitável, sendo ainda criado um Museu na Sacristia da Igreja que vai mostrar o espólio dos círios, numa lógica de fomentar o turismo religioso.
Alfredo Keil, Ivone Silva e António Baião são ainda figuras podem vir a incrementar o fluxo turístico no concelho, para além de se pretender valorizar o barco das três tábuas, enquanto arte e ofício tradicional.

Plano de Ordenamento da Albufeira Castelo do Bode “é restritivo e desajustado”
Jorge Rodrigues referiu o enorme potencial turístico fantástico do Castelo de Bode que, na opinião de alguns agentes turísticos com quem contacta está apenas explorado a 10% e disse que, apesar de ter existido uma grande pulverização de turismo rural, muitas já se encontram fechadas, sendo que a taxa de ocupação é muito reduzida na região.
“Por exemplo, em Tomar a taxa de ocupação média é de 11,46%, o que é muito pouco”, disse. Frisou a existência de estâncias de Wakeboard mas que só funcionam no verão. “Temos muito que fazer. O Castelo de Bode, que abastece mais de 3 milhões de pessoas, tem um grande potencial, mas algumas limitações sendo que uma delas se chama Plano de Ordenamento da Albufeira do Castelo do Bode”, considera.
“Este plano está fora da realidade, é restritivo e complicado”, disse Jorge Rodrigues, dando o exemplo das jangadas dos operadores turísticos que, ao colocarem porões de estabilidade para acesso às embarcações, lembrando que os mesmos colidem com os pareceres da APA.
“Tem que haver o mínimo de condições para as pessoas operarem sendo que, quando há projetos de interesse nacional, tudo é fácil, mas há limitações para os pequenos operadores turísticos”, referiu, considerando que, por tudo isto, é importante dar contributos e sugestões para a melhoria do Plano de Ordenamento, articulando o recurso qualidade da água com o desenvolvimento turístico. Disse ainda que as atividades náuticas têm que ser uma âncora do território.
Durante três horas, os peritos das várias áreas de saber deram os seus contributos, sendo que será redigido um documento final. Por exemplo, Alexandra Dias Sousa, Guia Intérprete turística, considera que a liberalização da profissão veio prejudicar a
qualidade do serviço prestado ao turista sendo que uma das dificuldades que o guia encontra muitas vezes no território é ao nível logístico não conseguindo resposta para
oferecer refeições a grupos numerosos que, por exemplo, visitam Tomar.
Fernando Pereira, da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e do Centro Nacional de Desporto e Segurança, Natureza, Aventura e Turismo disse que este tipo de reuniões são um “aspeto crucial” de qualquer projeto de desenvolvimento.
“Muitas vezes as pessoas têm a ideia que os projetos saem de uma entidade superior, central que vai escolher o que é melhor para os territórios, mas os bons projetos têm sempre
origem local porque as necessidades e as oportunidades surgem localmente pelo que o conhecimento das regiões tem que ser feito de baixo para cima”, considera, sendo que muitas vezes as linhas de financiamento não se coadunam com os projetos.
“Sem estas reuniões, as coisas não acontecem porque estão desintegradas dos lugares”, atesta.

Miguel Pombeiro, Secretário Executivo da CIMT, salientou que “mais do que sentar peritos é importante sentar pessoas de várias áreas de atividade, stakeholders que estão no território, porque o turismo não se faz apenas de uma proposta”.
O secretário executivo da CIMT considera que é importante apostar no Turismo de Experiências, com vista a estimular a estadia média de dormidas. “Se não existir este cruzamento entre o alojamento e as experiências não existe uma oferta turística
integrada. Este tipo de fóruns é importante para percebermos as dificuldades de todos os que atuam nesta área. É dessa articulação que, com certeza, sairá uma oferta turística mais valorizada”, considera.
Luís Mota Figueira, do Instituto Politécnico de Tomar, disse que hoje em dia só faz sentido trabalhar em rede, mas as redes têm que ser fortificadas com conhecimento. “Só com conhecimento sólido, profissional e de alta qualidade é que se conseguem
criar serviços turísticos resilientes. Temos turistas, mas não sabemos se os vamos manter. A ADIRN está de parabéns por organizar este tipo de iniciativas. Precisamos de
nos sentar à mesa a conversar para criar mais cultura turística nos territórios”, defendeu.
