O Museu Nacional Ferroviário foi palco, literalmente, de um homicídio na noite de 18 de maio, data em que se assinalou o Dia Internacional dos Museus e o terceiro aniversário do espaço que junta passado e presente da ferrovia. Fernanda Neves Monteiro, ex-jornalista, foi assassinada pouco depois do marido ter anunciado a sua candidatura às eleições legislativas. Os suspeitos são cinco e no cluedo teatral “Destino Incerto” criado pela Don’Adelaide Produções é o público quem desvenda o mistério. Fomos ao local investigar o crime e o espetáculo que fica em cena até final de junho.

Nuno Maria Monteiro escolheu o Museu Nacional Ferroviário para anunciar que será candidato pelo PNP às legislativas. Pouco depois, sabe-se que a sua mulher morreu. Não foi morte natural, foi homicídio e ele passa a integrar a lista dos cinco suspeitos entregue aos investigadores que chegam de seguida. Terá sido o marido, o número dois do partido, o assessor político, a enteada ou o empresário local que patrocina a campanha?

Fomos alertados da ocorrência e integrámos uma das equipas de investigação que passaram o local a pente fino. À chegada recebemos a documentação com os pormenores, entregue por Paula Carvalho, e percorremos a nave central, interrogando Nuno Maria Monteiro (Rui Sanos), Rui Morgado (Eduardo Ribeiro), Gonçalo Pires (João Cruz), Sofia Vidal Monteiro (Daniela Casimiro) e Faustino Costa Vieira (Carlos Paiva).

Momentos do ensaio geral e do espetáculo. Fotos: mediotejo.net

Pista após pista, seguimos caminho até ao culpado, mas as outras equipas não sabiam que já conhecíamos parte da história desde aquela manhã, quando nos encontrámos com a Don’Adelaide Produções durante o ensaio geral. Este é o grupo de teatro responsável pelo “Destino Incerto” que calhou a Nuno Maria Monteiro depois do homicídio da mulher, transformando-o no cluedo teatral, o décimo do portefólio, que levou a equipa a sair da zona da Grande Lisboa e a rumar ao Entroncamento.

O espetáculo é interativo e, à semelhança dos apresentados no Teatro da Comuna ou na Quinta Nova da Assunção, o público não se limita a aplaudir no final pois compete-lhe resolver o mistério. Se no início estar “em palco” parece gerar desconforto, a verdade é que a ideia do anonimato na plateia vai desaparecendo à medida em que nos embrenhamos no enredo. Nós tínhamos estado lá de manhã, mas saímos do Museu Nacional Ferroviário sem algumas respostas que pretendíamos.

Momentos do ensaio geral e do espetáculo. Fotos: mediotejo.net

Quem matou Fernanda Neves Monteiro e porquê? Que segredos esconde cada suspeito? Que ligações têm entre si? A identificação policial da noite conferiu-nos autoridade para interrogar um a um nos corredores ou dentro de carruagens, algumas delas apenas visitáveis nesta altura. E, claro, queríamos ser uma das equipas que descobre o final do texto escrito por João Cruz, para quem o cenário é o sexto personagem.

Cada cluedo teatral é criado para um local específico e este não é o único desafio com que a equipa da Don’Adelaide Produções se depara. Na “antevisão” do crime também falámos com Carlos Paiva sobre a sua personagem e a forma como cada espetáculo é uma novidade para o próprio elenco. As perguntas vão surpreendendo e alguns investigadores “entraram no papel” do polícia mau, querendo utilizar técnicas de interrogatório menos pacíficas.

Momentos do ensaio geral e do espetáculo. Fotos: mediotejo.net

Não chegámos a esse ponto nos interrogatórios, nem na entrevista em que também tentámos descobrir o cérebro desta organização teatral criminosa que o grupo chega a apresentar na página do facebook como “velhota viajada e mata gente nos quatro cantos do mundo”. Ficámos a saber quem matou a Fernanda, mas continuamos sem saber quem é a Don’Adelaide. Ou será que sabemos?

Melhor é não revelar nomes em qualquer um dos casos por segurança. Se quiser descobrir, faça a sua reserva (obrigatória) e vá até ao Museu Nacional Ferroviário pois o crime repete-se nos próximos domingos, sempre às 18h00. O espetáculo “Destino Incerto” fica em cena até final de junho (20 e 27 de maio e 3, 10, 17 e 24 de junho) e a lotação é limitada a 40 pessoas, cujos bilhetes permitem visitar o museu e têm desconto se o grupo tiver seis ou mais elementos. Boa investigação!

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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