Os locais da cerimónia e do copo-de-água foram escolhidos, entregaram-se os convites, contratou-se o fotógrafo e eis que o grande dia chegou. Na tradicional espera pela noiva todos querem saber a mesma coisa “como é o vestido?”. Maria da Conceição Prata soube a resposta muito antes centenas de vezes porque começou a criá-lo desde a primeira linha. A modista do Entroncamento recebe clientes na sala de provas há mais de quatro décadas, chegou a ter coleção própria e aos vestidos de noiva das mães já juntou os do baile de finalistas das filhas.
Maria da Conceição Prata é conhecida há mais de quatro décadas no Entroncamento e desde então esteve presente em centenas de casamentos. Não presencialmente, mas no elemento que gera maior curiosidade entre os convidados antes da chegada da noiva, o vestido. Mudam-se os tempos e as vontades afinal mantêm-se quando se trata de querer um dia principesco com guarda-roupa à altura, de preferência único no mundo.
Unicidade essa que se perde quando se escolhe numa montra e que é assegurada quando o vestido de princesa passa pelas mãos da “dona São” entre o dia em que a noiva o idealiza e o momento em que o veste para casar.

A modista que adaptou a tradição de fazer vestidos de noiva à moda antiga para as modas atuais chegou ao concelho em meados nos anos 70 depois da infância passada entre as tradições da Beira Baixa, em Alpedrinha (Fundão), e o início da adolescência perto das novidades da capital, em Sacavém.
Conhece a parte de trás do balcão desde os 14 anos de idade e o gosto pela costura para uso pessoal depressa se transformou em negócio com os pedidos sucessivos que foram surgindo.
A saúde da mãe ditou-lhe o destino com a opção do pai em vir para o Médio Tejo. Chegou num dia e começou a trabalhar no outro devido às “recomendações” do patrão antigo. Ao “currículo” trazido dos lados de Lisboa acrescentou a Minipreço, uma empresa de confeção com estabelecimentos comerciais em Abrantes, Entroncamento e Torres Novas, cujo nome remete agora para um setor de mercado completamente diferente.

Aos 25 anos abriu a primeira loja no primeiro centro comercial “ali junto à praça”, nas Galerias Alfa, e as peças do pronto-a-vestir voltaram a ser relegadas para segundo plano. Os clientes queriam as suas criações e 35 anos depois continuam a confiar nas mãos da modista sempre que precisam dela. Apenas mudou o trajeto com a passagem da “casa das noivas” para perto do Centro Comercial Avenida na década de 90, onde a “alta costura” que lhe continua a estimular a criatividade com os vestidos de noiva e de cerimónia.
Aos 63 anos continua a falar dos vestidos “complicados” com o brilho do desafio nos olhos e décadas volvidas após o primeiro ponto de costura continua a considerá-los as suas “obras de arte”.
Nem as peças expostas na loja saem sem o cunho pessoal da dona São, depois dos arranjos e adaptações resultantes do gosto das clientes e das sugestões da modista, trocadas via skype quando as encomendas chegam do estrangeiro. O resto dos pedidos vêm “de todo o país” que vai tomando conhecimento das “obras de arte” sobretudo através do “passa palavra”.

A fama adensou-se com o passar dos anos e o número de casamentos, por sua vez, dissolveu-se sem que a sala de provas da Martimoda deixasse de receber mães e filhas. As primeiras saíram com o vestido de casamento e as segundas com o do batizado, da primeira comunhão e do baile de finalistas. Nalguns casos com a promessa de que serão a agulha, os tecidos e as linhas da dona São a transformá-las em “princesas por um dia” quando derem o nó.
Há quem prefira os artigos expostos nos cabides, mas nem a diminuição da procura ou a saída das sete funcionárias que trabalhavam ao mesmo tempo na loja há 15 anos lhe mudaram a opinião de que a maioria “quer peças que mais ninguém tem”. Longe vão os tempos da coleção própria, que chegou a apresentar na primeira edição da “Exponoivos” realizada na FIL – Feira Internacional de Negócios (Oriente), do “cuidado” em assegurar que não existiam vestidos semelhantes na mesma zona e do dia de trabalho que começava às cinco da manhã e terminava à meia-noite.

Hoje continua a costurar “noite e dia” para assegurar sozinha o atendimento ao público e as criações repartidas entre as máquinas de costura de casa e do atelier na parte de trás da loja. Sempre para ir ao encontro das expetativas e dos prazos das diversas noivas que acompanha em simultâneo.
O processo de confeção pode variar entre os três e os nove meses, apesar de já ter respondido a “urgências” de um, e as provas surgem quando “a pessoa veste e já tem noção do que vai usar”. A exigência e as necessidades, diz, aumentaram e lembra a colocação de bolsos num vestido para a noiva conseguir andar todo o dia “com o telemóvel e o maço de tabaco”.
Viver o dia do casamento como uma princesa continua em voga, independentemente de se tratar do segundo ou da noiva não ser jovem. O véu ainda tem algumas adeptas e depende do resto das peças. Ultrapassadas estão as luvas, assim como o branco e o pérola mais escuro, que deram lugar ao tom “gelo” por vezes conjugado com bordeaux, vermelho, rosa ou verde.
Os “pormenores finais” são a etapa mais exigente e a preferida da modista por tornarem cada peça “única”, ainda que nem sempre a originalidade surja com os acessórios. O vestido mais “sui generis” que criou destacou-se no desfile de moda numa escola do concelho pelo material utilizado, o papel.

Quarenta anos depois, a dona São continua sem acreditar na superstição “coisa nova, coisa velha, coisa emprestada e coisa azul”. Mesmo assim, assegura a “nova” com a oferta das meias e a “emprestada” com o saiote.
Acredita, sim, que o sucesso do casamento depende dos noivos e o sucesso do vestido só surge quando este “tem a ver com a pessoa”.
Para isso é fundamental que o processo de criação de cada “obra de arte” tenha a cumplicidade de quem a faz e de quem a usa para garantir que a noiva “vá ao seu gosto” e esteja confortável para “passar o dia a pular, a saltar e, acima de tudo, a sentir-se muito bem”.
