Foto arquivo: Paulo Cunha/Lusa

A empresa espanhola Endesa assegurou que mantém o compromisso de reconverter profissionalmente e integrar os trabalhadores da central de produção elétrica do Pego (Abrantes) e que continuará a investir em Portugal. “Estamos a investir e investiremos em Portugal”, afirmou o presidente executivo da Endesa, José Bogas, numa conferência de imprensa em Madrid para apresentar os resultados da empresa energética em 2022.

Bogas considerou que Portugal criou e tem condições competitivas para o investimento nas energias renováveis e a concretização da transição energética. “Se me perguntassem onde quero fazer as novas renováveis, diria que em Portugal”, afirmou.

A Endesa ganhou no ano passado o concurso para a reconversão da central do Pego, que produziu energia a carvão até novembro de 2021. A empresa espanhola ganhou o concurso com um projeto que prevê um investimento de 600 milhões de euros, a reconversão profissional de 2.000 pessoas e a criação de 75 postos de trabalho diretos, sendo que o compromisso é dar preferência e integrar os trabalhadores da antiga central a carvão.

“Obviamente, um dos elementos [do projeto] eram os trabalhadores e manter o emprego. Comprometemo-nos e continuamos comprometidos com nisso”, afirmou José Bogas, sem dar mais detalhes sobre a concretização desse objetivo.

O presidente executivo da Endesa defendeu que a solução que a empresa apresentou para a reconversão da central do Pego, “com hibridação de baterias”, é “muito inovadora”, sendo a primeira ou uma das primeiras na Europa com estas características.

ÁUDIO | JOSÉ BOGAS, PRESIDENTE EXECUTIVO ENDESA:

Depois de ganhar o concurso para a reconversão da central do Pego em março do ano passado, a Endesa anunciou em novembro a abertura de um novo escritório em Abrantes que, nesta “fase de arranque”, incorporou os primeiros ex-funcionários da central a carvão.

Num comunicado divulgado em novembro, a Endesa referiu que “será precisamente a partir deste novo escritório em Abrantes” que “irá desenvolver o Projeto Renovável do Pego, com um investimento de cerca de 600 milhões de euros para a instalação de nova capacidade solar (365 MWp) e eólica (264 MW) num esquema de hibridação suportado por uma bateria de armazenamento com capacidade total de 168,6 MW”.

Segundo a empresa, “todos os trabalhadores diretos da central a carvão afetados pelo encerramento em 2021 serão considerados prioritários para a Endesa na cobertura destes novos postos de trabalho em Abrantes, incluindo os que continuam a trabalhar na central em trabalhos de pré-desmantelamento e que podem perder o emprego nos próximos meses”.

O arranque do projeto do Pego está previsto para 2025, segundo a Endesa, a maior elétrica espanhola e a segunda na distribuição de gás em Espanha. Em Portugal, além da central do Pego, tem ainda projetos para geração de energia solar no Algarve e na barragem do Alto Rabagão (Montalegre).

A Endesa teve lucros de 2.541 milhões de euros no ano passado, um aumento de 77% em relação a 2021. A empresa atribui o resultado de 2022, essencialmente, “ao bom comportamento do negócio do gás” num ano marcado pela maior produção de eletricidade com recurso ao gás, em centrais de ciclo combinado.

Este aumento da produção de eletricidade com recurso ao gás deveu-se à necessidade de compensar os efeitos da seca na Península Ibérica (que afetou a geração hidroelétrica, que depende da água armazenada nas barragens) e da paragem das centrais nucleares francesas (o que aumentou a exportação de energia para França, a partir de Espanha).

Num comunicado sobre os resultados de 2022 agora divulgado, a empresa destaca que no ano passado fez investimentos de 2.343 milhões de euros, mais 8% do que em 2021 e o valor mais alto de sempre na história da Endesa. Em 2023, a empresa espera aumentar o valor dos investimentos em 20%.

Endesa substituiu Nuno Ribeiro da Silva pela idade, não por declarações “mal interpretadas”

A Endesa disse que substituiu Nuno Ribeiro da Silva à frente da empresa em Portugal devido à idade e não a declarações “mal interpretadas” que tiveram “um bocadinho” de impacto no número de clientes da elétrica no país.

“É verdade que teve uma manifestação que eu diria que foi mal interpretada”, mas “estava já planeada a sua substituição pela idade antes” dessas declarações, afirmou o presidente executivo da Endesa, José Bogas, em resposta a questões da agência Lusa numa conferência de imprensa em Madrid para apresentar os resultados da empresa energética espanhola em 2022.

Nuno Ribeiro da Silva, ex-presidente da Endesa. Fotografia. mediotejo.net

José Bogas admitiu que “talvez tenha havido um bocadinho” de impacto no número de clientes da Endesa em Portugal “no primeiro mês” após as declarações de Nuno Ribeiro da Silva sobre o efeito nas faturas de alguns consumidores portugueses do designado mecanismo ibérico para controlar os preços da luz.

O presidente executivo da Endesa assegurou que, no entanto, a polémica destas declarações, “que não foram felizes”, acabaram por ter mais impacto em Espanha do que em Portugal, sem dar mais detalhes.

A Endesa substituiu Nuno Ribeiro da Silva, de 68 anos, como diretor-geral da empresa em Portugal por Guillermo Soler Calero, em janeiro passado.

Em agosto do ano passado, numa entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena 1, Nuno Ribeiro da Silva estimou que consumidores portugueses teriam aumentos de 40% nas faturas da luz nos meses seguintes, “uma desagradável surpresa”, por causa da aplicação do “mecanismo ibérico” acordado por Portugal e Espanha com a Comissão Europeia, que colocou um máximo ao preço do gás comprado pelas empresas para produzir eletricidade.

Estas declarações levaram a intervenções públicas do Governo, incluindo do primeiro-ministro, que as rejeitaram e consideraram “alarmistas”.

O primeiro-ministro determinou mesmo que os serviços do Estado não poderiam pagar faturas da Endesa sem validação prévia pelo secretário de Estado do Ambiente e da Energia.

A Endesa acabou por garantir, numa comunicação escrita aos clientes em Portugal, que não iria aumentar os preços no mercado residencial em 2022.

O presidente executivo da Endesa sublinhou hoje que Nuno Ribeiro da Silva “fez um trabalho extraordinário em Portugal”.

“Estamos-lhe muito agradecidos. Mas a todos chega o momento de dar lugar a outras pessoas, não há mais nada por trás disso”, afirmou José Bogas, embora admitindo que as declarações de Nuno Ribeiro da Silva “não foram felizes”.

José Bogas defendeu que Nuno Ribeiro da Silva “tentou expressar as diferenças” sobre a aplicação do mecanismo ibérico em Portugal e Espanha, que prevê que as empresas sejam compensadas pela diferença entre o preço assim definido para comprarem gás para produzir eletricidade e o valor real no mercado grossista.

O valor dessa compensação é dividido por consumidores finais que tenham determinadas tarifas, sendo que aplicação do mecanismo não foi similar em Portugal e Espanha, com universos de afetados muito diferentes.

“Penso que não foram felizes as suas declarações, mas penso que mais do que uma crítica a alguma coisa, procuravam mostrar este tipo de coisas que é preciso harmonizar e talvez não o tenha feito no momento correto”, afirmou hoje José Bogas, referindo-se a Nuno Ribeiro da Silva.

José Bogas sublinhou por diversas vezes, na conferência de imprensa de hoje, que considera positivo o mecanismo ibérico, com vantagens provadas de poupança para os consumidores e no controlo de preços da eletricidade desde que foi adotado, em meados de junho do ano passado, num contexto de instabilidade e volatibilidade dos preços da energia.

O presidente executivo da Endesa defendeu que o mecanismo deve ser prolongado para além de maio de 2023, como pedem os governos de Portugal e Espanha, se e enquanto se mantiver o cenário de instabilidade e volatibilidade dos preços.

José Bogas defendeu que, porém, o mecanismo deveria ser harmonizado e estendido a toda a Europa, para evitar que, por exemplo, consumidores espanhóis estejam a suportar produção de energia a preços mais vantajosos que está a ser exportada para França, para benefício dos consumidores franceses, que não têm este encargo.

Agência de Notícias de Portugal

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