Foto: Tagusvalley

A notícia foi avançada pelo Jornal de Notícias no sábado, 13 de junho, dando conta de que a Polícia Judiciária tinha desmantelado um laboratório de anfetaminas no Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia, em Abrantes.

A operação policial realizou-se em 2023 mas só agora foi tornada pública na sequência da acusação que o Ministério Público apresentou esta segunda-feira, 15 de junho, marcando o final da “operação Erva Daninha”, que mobilizou cerca de 300 inspetores da Polícia Judiciária, envolveu investigadores de vários países e levou à apreensão de 400 mil euros, sete toneladas de canábis e uma tonelada de anfetaminas – um recorde nacional.

Para o Ministério Público, as diligências confirmaram que esta rede criminosa, “dotada de um elevado poder logístico e financeiro”, estabelecida em Portugal desde 2021 e liderada por dinamarqueses e holandeses, “aproveitou a falta de meios e as fragilidades do sistema de controlo do Infarmed – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde”. Para países africanos, por exemplo, a acusação indica que era apenas realizada uma “verificação administrativa da documentação legal para a exportação” e que, “até 2024, havia só um técnico e um administrativo para fazer esse trabalho”.

Os líderes estrangeiros desta organização foram acusados de tráfico de droga, associação criminosa, branqueamento de capitais e falsificação de documentos, tal como um português muito influente no setor farmacêutico, uma sua advogada e vários empresários nacionais ligados à produção, importação e exportação de canábis medicinal.

Abrantes no mapa da rede internacional

Geert Caers, Reinier de Jong, Benny Falk e Michael Sorensen, considerados líderes desta rede de tráfico internacional, criaram a Polyfarchemi em 2022, apresentando um site cujo conteúdo foi “copiado integralmente” de uma empresa americana do setor da química, segundo a acusação do Ministério Público. Pretenderam assim dar “uma aparência de solidez e reputação” à empresa fictícia e afastar suspeitas.

A Polyfarchemi viria a fixar a sua sede no Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia dedicado ao Vale do Tejo, localizado em Abrantes. Menos de um ano depois foi alvo de buscas da Polícia Judiciária, que ali descobriu um laboratório industrial para a produção de anfetaminas e transformação de cocaína, drogas que eram depois exportadas para Espanha e para os Países Baixos.

A acusação do Ministério Público indica que, mesmo sem ter auto­ri­za­ção do Infar­med para a “impor­ta­ção, expor­ta­ção ou qual­quer forma de comer­ci­a­li­za­ção de subs­tân­cias” quí­mi­cas, a Poly­far­chemi impor­tou “cris­tais” ile­gais da Índia “sob a apa­rên­cia de mer­ca­do­ria lícita” des­ti­nada ao setor indus­trial. Mas estes pro­du­tos quí­mi­cos eram, afinal, “com­po­nen­tes neces­sá­rios à trans­for­ma­ção de anfe­ta­mi­nas em pro­duto final”.

O esquema per­mi­tiu que, em agosto de 2023, 50 bidões de um pro­duto proi­bido pela lei por­tu­guesa che­gas­sem ao aero­porto de Lis­boa acom­pa­nha­dos de um “cer­ti­fi­cado de aná­lise falso, ates­tando tra­tar-se da subs­tân­cia CLV03, cujo comér­cio e trans­porte não esta­riam sujei­tos a res­tri­ções legais”.

No entanto, a Auto­ri­dade Tri­bu­tá­ria des­con­fiou da carga e seguiu o seu rasto até às ins­ta­la­ções da Poly­far­chemi, em Abrantes. Ali encon­traram “um labo­ra­tó­rio equi­pado com rea­to­res, mis­tu­ra­do­res de escala indus­trial, balan­ças de pre­ci­são, bom­bas de vácuo e de refri­ge­ra­ção, subs­tân­cias medi­ca­men­to­sas para mis­tura (agen­tes de corte) e máqui­nas de sela­gem” que, diz o Minis­té­rio Público, “eram uti­li­za­dos para a pro­du­ção de anfe­ta­mi­nas e trans­for­ma­ção de coca­ína”.

“Fomos todos surpreendidos pela situação”, diz ao mediotejo.net o diretor executivo do Tagusvalley, Pedro Saraiva, explicando que o processo de instalação da empresa seguiu os trâmites normais, ou seja, “foi apresentado um projeto e tudo decorreu como normalmente acontece: vemos se tem enquadramento”. No caso, a Polyfarchemi expôs a sua “intenção de produzir polímeros para a indústria aeronáutica e aeroespacial, e essa era uma área de investigação que obviamente nos interessava.”

Pedro Saraiva, diretor executivo do Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia do Vale do Tejo. Foto; mediotejo.net

Não existe a obrigação de um controlo permanente da atividade interna das empresas instaladas no Tagusvalley, explica o diretor, frisando, contudo, que também “não havia razão nenhuma para suspeitar que houvesse algum problema ou ilegalidade”, até porque o grupo de empresários internacionais usou as instalações durante pouco tempo.

Pedro Saraiva explica que, após firmarem contrato em 2022, passaram alguns meses em obras de adaptação, a criar divisórias e a instalar equipamentos específicos. Também não havia trabalhadores sempre em permanência no local, o que não levantava suspeitas por ser um projeto ainda em fase de desenvolvimento. Em agosto de 2023 realizou-se a rusga da Polícia Judiciária e nunca mais apareceu ninguém ligado à Poly­far­chemi nas instalações.

“A partir daí, a estrutura interna da empresa também sofreu alterações e os interlocutores deixaram de responder. A nossa pessoa de contacto, uma portuguesa, também desapareceu”, explica Pedro Saraiva.

Sem respostas, e com o incumprimento das rendas, o Tagusvalley acabou por retirar os poucos materiais e equipamentos que ainda permaneciam no espaço alugado (a maioria foi apreendida pelas autoridades policiais). “Fomos envolvidos apenas porque o espaço é nosso. A PJ falou na altura connosco para perceber como é que a empresa se instalou aqui”, confirma o diretor.

Depois dessa rusga, há três anos, os responsáveis do parque tecnológico nunca mais foram contactados pelas autoridades nem tiveram conhecimento sobre o andamento do processo judicial contra a enigmática Polyfarchemi – que, como agora revelou o Ministério Público, era apenas uma peça de um gigantesco quebra-cabeças que 300 inspetores da Judiciária levaram mais de três anos a solucionar.

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Créditos: Pexels

O negócio-sombra da canábis medicinal

O Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) revelou esta segunda-feira que acusou 13 pessoas e 11 empresas de “associação criminosa para o tráfico, tráfico de estupefaciente agravado, branqueamento de capitais e falsificação de documentos”, através de uma rede internacional de tráfico de droga que “utilizava o setor farmacêutico e da canábis medicinal como fachada para encobrir as suas atividades ilícitas e garantir uma aparência de legitimidade institucional perante as autoridades nacionais”.

Dois arguidos estão em prisão preventiva, tendo um deles sido detido no ano passado nos Países Baixos e depois extraditado para Portugal, e outros dois estão ainda “em parte incerta”, tendo sido emitidos mandados de detenção internacionais.

Segundo o MP, esta rede comprou e constituiu diversas empresas com licenças para cultivo, importação e exportação de canábis medicinal, alterando várias vezes os órgãos sociais das sociedades, ocultando os verdadeiros líderes da organização, os quais “ostentavam um elevado padrão de vida”, com imóveis de luxo e carros topo de gama.

“A componente operacional do grupo assentava no desvio de produtos estupefacientes para o mercado negro europeu e na realização de exportações fraudulentas com destino a países africanos, nomeadamente para a República Democrática do Congo, Quénia e Guiné-Bissau.”

Cultura de canábis medicinal. Foto: Unsplash

A rede beneficiou das “fragilidades nos mecanismos de supervisão e fiscalização do setor da canábis medicinal, aproveitando limitações na capacidade de controlo das entidades competentes para consolidar a sua atividade e manter uma aparência de legalidade”. Isso terá dificultado “a deteção atempada dos alegados desvios de produto e das operações fraudulentas, permitindo ao grupo expandir a sua atividade sob a cobertura de empresas devidamente licenciadas”.

A rede criminosa dedicava-se também à importação de anfetaminas, posteriormente processadas em laboratórios na Europa, e o DCIAP recorda que no decurso das investigações ocorreu em Portugal uma apreensão de uma tonelada de anfetaminas, a maior registada no país.

“Para viabilizar a circulação destas cargas sob uma capa de legalidade, a rede dispunha de ramificações internacionais especializadas na obtenção e na falsificação integral de documentos, incluindo licenças, declarações aduaneiras e certificados de importação emitidos em nome das entidades recetoras nos países de destino”.

Os lucros gerados por estas operações “eram depois distribuídos de forma concertada entre as várias empresas controladas pelo grupo, com recurso a contratos de comissões simulados”, acrescenta o MP. A rede desenvolveu “um esquema complexo de branqueamento de capitais”, através do qual os lucros do tráfico de droga “circulavam de forma dissimulada por uma vasta rede de sociedades ligadas ao setor imobiliário, turístico e comercial”, tendo ainda apoio de financiadores na Malásia e assessoria jurídica estrangeira.

O branqueamento de capitais passava ainda pela conversão de moeda em criptoativos, fazendo regressar os valores ao sistema bancário convencional depois de diversas transferências internacionais, para apagar o rasto do dinheiro.

c/Lusa

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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