“É de facto uma experiência sensorial completamente diferente, capaz de alterar temperatura, vento e comportamento dos animais”, disse Lina Canas, astrónoma e diretora do Centro Ciência Viva (CCV) de Constância – Parque de Astronomia, recordando o eclipse total a que assistiu em 2016, nas ilhas Molucas, na Indonésia, e os efeitos que testemunhou na natureza.
“Não é só visual, nós sentimos a temperatura baixar, sentimos um vento a levantar”, contou, referindo o chamado “vento eclipse”, associado à diferença térmica, enquanto os animais alteraram o comportamento, como as aves, que regressaram aos ninhos perante a aproximação da escuridão.
Para a responsável, são alterações que fazem com que o fenómeno ultrapasse a simples observação astronómica e explique também a capacidade que um eclipse tem para surpreender quem o presencia.
“É uma experiência que mexe com qualquer um, não deixa ninguém indiferente”, afirmou.


É essa experiência que cerca de 500 pessoas vão procurar viver no Centro Ciência Viva de Constância na quarta-feira, 12 de agosto, num programa que está esgotado há várias semanas e inclui observação do Sol através de telescópios, sessões de planetário, distribuição gratuita de óculos de eclipse e transmissão em direto da fase de totalidade no anfiteatro Rómulo de Carvalho.
“Vai ser um dia em cheio”, antecipou Lina Canas à Lusa, explicando que o programa começa às 15:00 com sessões de planetário e que, a partir das 17:00, três telescópios devidamente equipados estarão apontados para o Sol e acompanhados pela equipa do Centro.
O eclipse começa às 18:37 e termina às 20:29, sendo a ocultação do disco solar de 96% em Constância.

O fenómeno será observável em todo o território português, mas apenas numa pequena zona do Parque Natural de Montesinho, no distrito de Bragança, será possível assistir à totalidade, durante cerca de 26 segundos.
O último eclipse total do Sol observado em Portugal ocorreu em 1912 e o próximo só está previsto para 2144. Para Lina Canas, é precisamente a possibilidade de uma pessoa assistir a um fenómeno desta natureza durante o seu tempo de vida que torna esta ocasião particularmente especial.
“Não é raro por si, o que é raro é esta ocorrência no mesmo sítio, num tempo de vida de uma pessoa. Portanto, é mesmo de aproveitar”, afirmou.

Depois do eclipse, o programa de Constância prolonga-se pela noite com a observação das Perseidas, entre as 22:00 e as 23:30. A chuva de meteoros deverá atingir o pico na noite de 12 para 13 de agosto e a Lua Nova, que ocorre no próprio dia 12, deverá favorecer a observação num céu sem interferência da luz lunar.

“Convidamos todos estes participantes para ficarem para depois do eclipse, para ficarem para a noite para observar a chuva de meteoros connosco também”, explicou a diretora, acrescentando que os participantes poderão ainda pernoitar no parque de apoio do Centro.
A iniciativa contempla também uma dimensão de acessibilidade, com uma abordagem tátil ao eclipse destinada a pessoas cegas ou com baixa visão, através de modelos do Sol, da Lua e da relação entre os três astros, permitindo explicar de forma não visual o fenómeno.
“Temos que pensar em todos os nossos participantes e nas suas necessidades específicas”, afirmou Lina Canas, defendendo que a comunicação de ciência deve encontrar diferentes formas de transmitir conhecimento e chegar a públicos distintos.




A segurança será igualmente uma preocupação. A observação direta do Sol sem proteção adequada pode provocar lesões oculares, pelo que os participantes inscritos em Constância receberão gratuitamente óculos de eclipse, sendo distribuído um par por grupos até quatro pessoas e dois pares nos grupos maiores.
De telescópios robotizados a aviões a jato: O Laboratório do Céu em Constância
Inaugurado formalmente a 19 de março de 2004 – na sequência do Observatório Astronómico fundado no ano de 2000 -, o Centro Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia assume como principal missão a divulgação da cultura científica e tecnológica, com um foco especializado na Astronomia.
Localizado no Alto de Santa Bárbara, o complexo beneficia de uma localização privilegiada e livre de poluição luminosa, operando como um museu de ciência e parque temático ao ar livre que se estende por uma área de 10 mil metros quadrados.

O grande destaque do centro reside no seu moderno complexo de observação astronómica, composto por várias cúpulas móveis equipadas com telescópios avançados: um Schmidt-Cassegrain de 10 polegadas, um Newton (Dobsoniano) de 16 polegadas e um modelo robotizado de 20 polegadas.
O parque tecnológico dispõe ainda de um Planetário Digital com capacidade para 40 pessoas, capaz de simular o firmamento de qualquer época ou latitude, e de um Laboratório de Heliofísica totalmente equipado para a observação segura do Sol em tempo real.
Na vasta área exterior, os visitantes encontram oito módulos interativos em tamanho gigante, como o Carrossel de Saturno, a Esfera Armilar e um Relógio de Sol Analemático, que utiliza a própria sombra humana para indicar as horas.










A oferta pedagógica do espaço fica completa com um Laboratório de Holografia para a criação de imagens tridimensionais a laser e um hangar que acolhe um avião a jato militar real, utilizado para o ensino prático da física e da história do voo.
c/Lusa
