Os Mários voltaram a reunir-se à mesa, no Tramagal, mantendo uma tradição de convívio com mais de três décadas. Foto: mediotejo.net

Foi no Café Restaurante Tik-Tak que, na noite de sexta-feira, 11 de setembro, se realizou mais um jantar-convívio de “Os Mários”, um dos vários grupos onomásticos que durante décadas fizeram do Tramagal um caso particular de sociabilização e ajudaram a popularizar a designação de “Vila Convívio”.

Desta vez foram nove. Número distante das cerca de quatro dezenas de participantes que estiveram no primeiro encontro dos Mários, realizado há mais de 30 anos, mas suficiente para cumprir aquilo que continua a ser o principal propósito destas reuniões: sentar à mesma mesa pessoas ligadas pelo nome, pela amizade e pela terra.

E os Mários estão longe de ser caso único. Marias, Joões, Manuéis, Josés, Joaquins, Antónios e muitos outros grupos juntaram durante décadas dezenas – e nalguns casos centenas – de pessoas em almoços e jantares no Tramagal. Para quem não cabia nos nomes mais numerosos foram mesmo criados os grupos dos “Diversos” e das “Diversas”.

Mas a “Vila Convívio” nunca se esgotou nos nomes. Ao longo das décadas, praticamente todos os motivos serviram de pretexto para voltar à terra e sentar pessoas à mesma mesa: os anos da inspeção militar, antigos colegas de escola ou de trabalho, equipas e amigos ligados ao Tramagal Sport União e encontros de gerações, como os nascidos em 1964, 1966 ou 1972, entre muitos outros.

Mais do que o motivo que lhes dá o nome, estes encontros têm em comum o reencontro. Juntam pessoas de diferentes percursos e condições sociais, algumas ainda residentes no Tramagal e outras que partiram há décadas, mantendo relações, amizades e uma ligação afetiva à terra onde nasceram ou cresceram.

Dos Mários às Marias, Tramagal mantém viva a tradição da “Vila Convívio”. Foto arquivo: mediotejo.net

É também à volta destas mesas que regressam histórias e episódios da vila, se recordam familiares e amigos que já partiram e se cruzam memórias de diferentes gerações. Uma tradição que perdeu participantes e o fulgor de outros tempos, mas continua a encontrar no convívio uma forma de preservar laços e memória coletiva, reforçando um sentimento de pertença e de identidade ligado ao Tramagal.

Uma vila batizada pelo convívio

Foi esta dinâmica que levou o jornalista Manuel Tomás a chamar ao Tramagal “Vila Convívio do Ribatejo”, designação que apareceu há cerca de 40 anos num artigo publicado no jornal Abarca e que acabaria por ficar associada à localidade.

Manuel Tomás ((1933-2021), que colaborava então com o Abarca e com as rádios Tágide e RAL, reparou na quantidade de notícias que escrevia sobre encontros e almoços realizados na terra. Se Abrantes era conhecida como “Cidade Florida” e Constância como “Vila Poema”, interrogou-se, porque não haveria o Tramagal de ser a “Vila Convívio”?

O mediotejo.net recuperou esta história em 2016, quando passaram 30 anos sobre a elevação do Tramagal a vila (ver AQUI). Nesse ano, cerca de 40 Marias participaram no 28.º encontro do grupo, enquanto os Joões, que chegaram noutros tempos a reunir mais de 200 participantes, juntaram pouco mais de duas dezenas no seu 46.º convívio consecutivo.

Já então os protagonistas reconheciam que a dinâmica não era a mesma de décadas anteriores. Dez anos depois, a realidade voltou a mudar, mas os encontros continuam a realizar-se.

Menos gente, menos restaurantes, o mesmo pretexto para conviver

A diminuição e o envelhecimento da população tiveram reflexos na dimensão dos grupos e também na restauração local, que durante muitos anos encontrou nestes encontros uma importante fonte de movimento.

A oferta de restauração é hoje bastante mais reduzida do que nos tempos de maior pujança da “Vila Convívio”, embora permaneçam casas como o Tik-Tak e O Grelhas.

Foi precisamente o histórico Tik-Tak que recebeu este ano “Os Mários”. O restaurante reabriu em abril sob nova gerência, assumida por Ana Rita Jacinto e Jorge Pedro, mantendo a aposta na gastronomia tradicional portuguesa. Na cozinha está Anabela Jacinto, mãe de Ana Rita, e entre as especialidades da casa mantém-se o bacalhau à Tik-Tak.

Mais do que a ementa, ficou também o acolhimento de uma nova geração à frente de um restaurante com longa ligação à vida social da vila, com Ana Rita e a sua equipa a receberem um dos grupos que continuam a preservar esta tradição tramagalense. E a intenção é continuar.

No final do jantar foi renovada a comissão responsável pelo próximo convívio, com Mário Moreira e Mário Silva a liderarem a organização do encontro de 2027. Entre os presentes ficou ainda uma sugestão: talvez não seja preciso esperar pelo próximo ano para os Mários voltarem à mesa.

Porque estes encontros são mais do que uma tradição com décadas. São momentos para conversar, reencontrar amigos e manter laços numa comunidade que mudou e perdeu população, mas onde permanece enraizado o gosto pelo convívio e por estar à mesa.

Os Mários voltaram a reunir-se à mesa, no Tramagal, mantendo uma tradição de convívio com mais de três décadas. Foto: mediotejo.net

É também nesses encontros que se recuperam histórias e episódios da terra, se recordam amigos que já partiram e familiares que marcaram gerações e se preserva uma memória coletiva que ajuda a explicar por que razão o Tramagal ficou conhecido como “Vila Convívio”.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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