Os dois centros de dados projetados para Abrantes já têm autorização para ligação à rede elétrica, mas os promotores pediram um aumento da capacidade inicialmente atribuída, estando a decisão prevista “para breve” e podendo ainda ocorrer este ano, revelou a ministra do Ambiente e Energia.
Maria da Graça Carvalho falou sobre os dois investimentos na segunda-feira, 14 de setembro, no Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia, no final de uma visita a Abrantes a convite da Câmara Municipal.
“Os dois que estão aqui previstos já têm uma autorização para ligação à rede”, afirmou a ministra, explicando que os promotores apresentaram posteriormente pedidos para aumentar essa capacidade.
Os pedidos estão agora em análise, num contexto de elevada procura por nova capacidade de ligação à rede elétrica.
Questionada sobre quando poderá existir uma decisão, Maria da Graça Carvalho respondeu que será “para breve”. À pergunta sobre se poderá acontecer ainda este ano, acrescentou: “Penso que sim.”

A governante explicou que a análise terá em conta critérios relacionados com energia, água e impacto ambiental e salientou que será considerada a “situação especial de Abrantes”, concelho diretamente afetado pelo encerramento da central termoelétrica a carvão do Pego e pelo processo de transição energética.
Dois grandes investimentos na zona do Pego
Abrantes tem atualmente dois grandes projetos de centros de dados anunciados, ambos na zona do Pego e atraídos, entre outros fatores, pelas infraestruturas energéticas existentes no território.
Um dos projetos é promovido pela EDC Port 1 e está previsto para os antigos terrenos da RPP Solar, nas proximidades da antiga central termoelétrica.
O investimento anunciado ascende a sete mil milhões de euros e deverá ser desenvolvido em três fases, estando a entrada em funcionamento da primeira apontada para 2028.
Em setembro de 2025, a Câmara de Abrantes reconheceu o empreendimento como Projeto Empresarial de Importância Municipal e aprovou benefícios fiscais e isenções de taxas municipais estimados em 16,2 milhões de euros. O projeto foi então apresentado com uma primeira fase de 300 MW.
Mais recentemente, o município indicou que os promotores tinham assegurado junto da REN a reserva de 300 MW e mantinham a previsão de entrada em funcionamento da primeira fase em 2028.
O segundo projeto é promovido pela Hyperion II Renewables Services e está previsto para uma área próxima da rotunda de Alvega e do Pego.
Em maio deste ano, a Câmara de Abrantes deu parecer favorável, por unanimidade, ao Pedido de Informação Prévia (PIP), reconhecendo a viabilidade urbanística da instalação.
O projeto foi apresentado com 200 MVA de potência de ligação ao futuro Posto de Corte de Abrantes, no Pego, numa área de implantação de cerca de 151 mil metros quadrados e com entrada em operação apontada para 2029.

Os valores anteriormente anunciados para cada projeto não correspondem necessariamente, contudo, à capacidade agora solicitada pelos promotores, não tendo a ministra quantificado os pedidos de aumento que estão em análise.
Valamatos vê oportunidade para captar grandes consumidores
Para o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, os centros de dados integram uma estratégia mais ampla para aproveitar as condições energéticas existentes no concelho após o encerramento da central a carvão.
O autarca defendeu que Abrantes tem condições não apenas para acolher novos projetos de produção de energia, mas também grandes consumidores, aproveitando a capacidade e as infraestruturas existentes para captar investimento.
“Temos um potencial incrível de atração”, afirmou Valamatos sobre a capacidade disponível no ponto de injeção do Pego, apontando a possibilidade de captar “produtores e consumidores” de energia.
Na estratégia municipal entram, assim, projetos de produção renovável e armazenamento, mas também atividades industriais e tecnológicas com elevado consumo energético, como os centros de dados.

Valamatos considera que Abrantes parte com vantagens relacionadas com a rede elétrica, a disponibilidade de água e território industrial e o conhecimento técnico acumulado durante décadas de produção energética no Pego.
Também Maria da Graça Carvalho destacou durante a visita que acesso à rede elétrica, água, território industrial e conhecimento técnico e de engenharia constituem quatro recursos “escassos a nível mundial” que coexistem em Abrantes.
Para a ministra, esta conjugação permite ao território ser “criterioso” na seleção dos investimentos e privilegiar aqueles que possam gerar riqueza e emprego.

Consumos de energia e água têm levantado questões
A dimensão dos dois projetos tem também suscitado dúvidas sobre os impactos do elevado consumo de energia e água e sobre o retorno económico e laboral para o território.
O tema chegou recentemente à reunião do executivo municipal, com o vereador do PSD João Morgado a questionar os impactos dos centros de dados, nomeadamente quanto ao consumo de recursos, emprego criado, participação das empresas locais e retorno fiscal.
Valamatos reconheceu que este tipo de infraestrutura é grande consumidor de energia, mas tem defendido que Abrantes não deve abdicar da oportunidade de captar investimentos desta dimensão, desde que sejam cumpridas as exigências ambientais e exista equilíbrio na sua concretização.
Também a Quercus alertou para os potenciais efeitos cumulativos dos dois projetos ao nível do consumo de energia e água, ocupação do solo e ambiente, defendendo a avaliação dos respetivos impactos antes da concretização dos investimentos.
É neste contexto que o Governo terá agora de decidir sobre os pedidos de reforço da capacidade elétrica.
Maria da Graça Carvalho garantiu que serão avaliados os requisitos energéticos, a água e o impacto ambiental dos projetos, mas deixou também a indicação de que a condição particular de Abrantes no processo de transição energética será ponderada na decisão.
O concelho procura captar novos investimentos depois do encerramento, em 2021, da central termoelétrica a carvão do Pego, processo que provocou perda de atividade económica e emprego e levou à criação de medidas de transição justa.
Na mesma visita, a ministra reconheceu que Abrantes sofreu “um golpe grande” com o encerramento da central e defendeu que o território seja compensado pelo impacto da descarbonização, aproveitando os recursos e infraestruturas existentes para criar uma nova base económica.

Para os dois centros de dados, o próximo passo passa agora pela decisão sobre a capacidade elétrica adicional solicitada pelos promotores, que Maria da Graça Carvalho admite poder ser conhecida ainda em 2026.
Além da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e do secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Barroca, a visita contou com ainda com as presenças do diretor executivo do Tagusvalley, Pedro Saraiva, do vogal executivo da Comissão Diretiva do Centro 2030 da CCDR Centro, Jorge Brandão, do secretário executivo da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Médio Tejo, Miguel Pombeiro, e de Paulo Partidário, da Direção-Geral de Energia e Geologia, entre outras entidades parceiras.
c/Lusa
