Do mito da recruta aos blindados: um dia com os jovens em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

Há quem chegue aos 18 ou 19 anos a pensar que vai ter de correr ou rastejar como numa recruta. Outros já sabem, por amigos ou familiares que passaram pela mesma experiência, que não é nada disso. No Campo Militar de Santa Margarida, mais de uma centena de jovens de Mação, Sardoal e Alvaiázere cumpriram esta quinta-feira o Dia da Defesa Nacional, entre palestras, armamento e a oportunidade de entrar em algumas das principais viaturas militares.

O serviço militar deixou de ser obrigatório em Portugal e assenta atualmente num modelo de voluntariado, mas o Dia da Defesa Nacional (DDN) continua a constituir um dever militar. A comparência é obrigatória para os cidadãos portugueses convocados, rapazes e raparigas, e em 2026 estão abrangidos os nascidos em 2007, atualmente com 18 ou 19 anos.

Esta quinta-feira, 01 de outubro, estavam convocados para Santa Margarida cerca de 125 jovens dos concelhos de Mação, Sardoal e Alvaiázere, tendo comparecido 106. A jornada incluiu ainda uma componente institucional, com os presidentes das câmaras dos três concelhos a serem recebidos e acompanhados pelo comandante da Brigada Mecanizada, brigadeiro-general António Oliveira.

Foi uma das últimas sessões deste ano no Centro de Divulgação da Defesa Nacional instalado no Campo Militar, que iniciou a atividade em 02 de setembro e termina a 06 de outubro.

Uns chegam tranquilos. Outros trazem dúvidas, algum receio e ideias feitas sobre aquilo que os espera do outro lado das portas de uma unidade militar.

“Há jovens que nunca tiveram um contacto direto com a parte militar”, contou ao mediotejo.net o alferes João Janeiro, divulgador do Dia da Defesa Nacional e elemento da coordenação da equipa responsável pelas atividades.

Entre os mitos está precisamente a ideia de que vão encontrar uma espécie de recruta condensada num único dia.

Alguns perguntam se vão ter de “correr” ou “rastejar” e há até quem queira saber se poderá fazer tiro. Nada disso faz parte do programa. O objetivo, explicou o militar, é conhecer, observar e esclarecer, sem obrigar os participantes a realizar atividades de natureza militar.

Mesmo perante o armamento exposto, o contacto não é obrigatório. Os jovens podem manuseá-lo ou limitar-se a observar e, no caso dos objetores de consciência, João Janeiro faz questão de salientar que não existe qualquer obrigação de contacto direto.

Do mito da recruta aos blindados: um dia com os jovens em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

Primeiro as palestras, depois Leopard e Pandur

Antes das viaturas, há uma componente menos espetacular, mas central para os objetivos do dia.

Depois da chegada, por volta das 09:00, e do check-in, os jovens passam por um módulo geral sobre Defesa Nacional e por palestras específicas dedicadas aos três ramos das Forças Armadas – Marinha, Exército e Força Aérea -, ficando a conhecer as respetivas missões e particularidades, assim como as diferentes formas de prestação do serviço militar.

Só depois a teoria dá lugar ao contacto mais próximo com o quotidiano militar.

Em Santa Margarida, as atividades práticas variam em função das unidades e dos meios disponíveis e incluem viaturas, armamento e uma passagem pelo museu. Esta quinta-feira, alguns dos jovens puderam entrar nas viaturas expostas e conhecer por dentro meios que dificilmente encontrariam no seu quotidiano.

Entre elas estavam viaturas como a Vamtac, viatura ligeira blindada, a Pandur e o Leopard 2A6, carro de combate ao serviço do Exército português. João Janeiro explicou que é precisamente esse contacto direto uma das particularidades da passagem pelo Centro de Divulgação de Santa Margarida.

Mas ver armamento e entrar num carro de combate não transforma o DDN numa ação destinada a angariar novos militares.

“O objetivo principal é divulgar o papel das Forças Armadas e sensibilizar para a temática da defesa nacional”, afirmou o alferes.

“Nós aqui não fazemos qualquer tipo de recrutamento”, frisou, explicando que as possibilidades de ingresso e os regimes existentes são apresentados aos participantes numa perspetiva de informação e divulgação.

A curiosidade, contudo, existe. Alguns jovens acabam por procurar os militares para saber mais sobre as possibilidades de ingresso, nomeadamente através dos regimes de voluntariado e de contrato ou nos quadros permanentes da Marinha, do Exército e da Força Aérea, procurando depois aprofundar a informação recebida nas palestras.

Entre os participantes há quem esteja ainda a terminar o ensino secundário e quem já frequente o ensino superior. Para estes últimos, as Forças Armadas também apresentam possibilidades em áreas técnicas, científicas e de investigação, existindo formas de ingresso para quem concluiu uma licenciatura ou mestrado.

Mais de três mil convocados de três distritos e 22 concelhos

Os 106 jovens presentes esta quinta-feira representam apenas uma pequena parte dos que passam este ano por Santa Margarida.

O Centro de Divulgação tem 3.109 jovens convocados, provenientes de 22 concelhos dos distritos de Santarém, Leiria e Portalegre para sessões a decorrer em 24 dias úteis. O número efetivo será inferior devido às faltas registadas diariamente, embora João Janeiro tenha destacado que a grande maioria comparece a cumprir o seu dever.

As jornadas decorrem em Santa Margarida desde 02 de setembro e terminam a 06 de outubro.

O Dia da Defesa Nacional pretende sensibilizar os cidadãos para a Defesa Nacional e divulgar o papel das Forças Armadas. A informação transmitida inclui as missões essenciais, a organização e os recursos das Forças Armadas e as formas existentes para quem, voluntariamente, queira prestar serviço militar.

É, assim, uma das formas de assegurar que uma geração que já não passa obrigatoriamente pelo serviço militar mantém pelo menos um contacto direto com a instituição.

Dos jovens aos autarcas, todos dentro da Pandur

A jornada desta quinta-feira teve ainda uma componente institucional, com a presença dos presidentes das câmaras de Mação, Sardoal e de Alvaiázere, numa visita acompanhada pelo comandante da Brigada Mecanizada. E não foram apenas os jovens que conheceram as viaturas por dentro.

Do mito da recruta aos blindados: um dia com os jovens em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

Depois de acompanharem parte das atividades, os autarcas colocaram capacetes e subiram a uma Pandur, seguindo para uma volta no interior do Campo Militar. José Fernando Martins, presidente da Câmara de Mação, ocupou o cockpit, junto à metralhadora da viatura.

Pouco antes, o autarca tinha recordado ao mediotejo.net uma realidade bastante diferente daquela que encontram os jovens convocados atualmente.

No seu tempo existia o antigo “dia de inspeção” e o serviço militar era obrigatório. Com o fim dessa obrigatoriedade, considera José Fernando Martins, os jovens perderam grande parte do contacto que anteriormente existia com a instituição militar.

Daí considerar “extremamente importante” a possibilidade de conhecerem as Forças Armadas por dentro.

“Quem sabe” se alguns não descobrem neste primeiro contacto aptidões ou uma vocação para uma carreira militar, observou. Mesmo que isso não aconteça, defendeu, a experiência permite conhecer uma realidade que muitas vezes é vista apenas do exterior, precisamente numa fase em que os jovens começam a tomar decisões sobre o seu futuro.

“Uma oportunidade de futuro”

O presidente da Câmara de Sardoal, Pedro Rosa, colocou a importância do Dia da Defesa Nacional também no plano da cidadania e num contexto internacional em que as questões da segurança e defesa voltaram a ocupar espaço no debate público.

“Ser português implica também termos a noção daquilo que é a organização do nosso país” e dos seus sistemas de defesa, afirmou o autarca, lembrando que existe atualmente “uma guerra na Europa” e defendendo a sensibilização dos jovens para estas matérias.

Pedro Rosa destacou ainda a possibilidade de os participantes perceberem o “espírito” e os valores associados às Forças Armadas, considerando que a instituição pode também representar “uma oportunidade de futuro” para alguns deles.

Entram com dúvidas, saem a conhecer melhor as Forças Armadas

Ao longo das várias semanas de jornadas em Santa Margarida, João Janeiro tem encontrado reações muito diferentes.

Há jovens que chegam conhecendo praticamente todo o programa porque falaram previamente com amigos, primos ou familiares que já cumpriram o DDN. Outros entram sem qualquer referência e mostram-se mais ansiosos.

À medida que percebem que não estão perante uma recruta e conhecem o funcionamento do dia, essa ansiedade tende a desaparecer.

Também o interesse não é igual para todos. Uns mostram particular curiosidade pelas viaturas, pelo armamento ou pelas missões das Forças Armadas. Outros cumprem o dia sem o mesmo entusiasmo.

“Há jovens que gostam, há jovens que não gostam. É como em tudo na vida”, resumiu João Janeiro.

Do mito da recruta aos blindados: um dia com os jovens em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

E talvez seja precisamente aí que se encontre a diferença entre o antigo serviço militar obrigatório e o Dia da Defesa Nacional que estes jovens cidadãos cumprem hoje: ninguém sai de Santa Margarida obrigado a regressar para vestir uma farda.

Mas rapazes e raparigas são obrigados a passar, pelo menos uma vez, um dia a conhecer por dentro as Forças Armadas.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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