Foto: Ricardo Escada

Uma acinzentada neblina se estende sobre o Zêzere. Sozinho, em silêncio, largo as amarras do pequeno barco que começa a deslizar rio abaixo. As margens cheias de verde mimoso aparecem entre o denso nevoeiro. Os sons vindos do nada, entremeados com as cores dos arbustos, parecem harmoniosos acordes da orquestra de bordo.

À medida que vou atravessando o rio, o meu espírito e o meu encanto ficam enfeitiçados com os peixes voadores que saltam fora da água cristalina, como que a saudar-nos com a graça que lhes é peculiar. Apesar de estar nevoeiro, o sol parece querer juntar-se a nós com os seus raios dourados vindos do céu.

Continuo sulcando vagarosamente as águas calmas do rio Zêzere, gozando o silêncio e a paz maravilhosa do dia. Observo o sol a descer vagarosamente no céu, até tocar a superfície das águas. Ao redor do rio sobre os ramos das árvores abatidas pousam dezenas de pássaros que de vez em quando mergulham rente à água, deixando transparecer no rosto toda a emoção da sua alma de artista. Que liberdade!

À primeira vista, quando observo minuciosamente o rio, sinto um silêncio e um deserto que nos dá a ideia de uma vivência longínqua, cheia de frescura e de verde vegetação, imóvel a tudo o que o rodeia. A magnificência do seu verde com manchas de sol dourado é um encanto para os olhos que a todos afaga com o seu sorriso límpido e brilhante que nos embala até adormecer.

De repente uma curva mais sinuosa, inesperada, prende-nos a atenção para os perigos do rio, que solta uma risada surda, abafada e trocista, revelando toda a sua grandiosidade. O rio parece vivo…

Enquanto observo os remoinhos provocados pela excessiva velocidade da água e o seu poderoso ruído, refresco-me com a água fria olhando para os arbustos verdes que vão aparecendo ocasionalmente, aqui e ali. O ar é húmido e quente. Nuvens de mosquitos pairam no ar. As margens do rio parecem agora mais estreitas, os peixes assustados com o ribombar dos trovões dos aviões caminham para outro destino.

Depois de algum tempo, cheguei a uma clareira onde se podiam avistar pequenos restos de uma estrutura de cimento anichada na sombra de árvores toda pintada com cores vivas. Parece coisa de artista!

Dentro em pouco, a noite escura estende o seu manto de veludo sobre toda a paisagem. O ar é calmo e fresco. As margens parecem estéreis e adormecidas. Os pirilampos dormem. Nem um peixe se vislumbra e as rãs ainda não começaram a entoar o seu coro noturno. A luz branca da lua com leves tons de malva banha, a água do rio dando lugar a uma extensa lâmina de metal que fulgia com estranhos reflexos.

Pouco a pouco, cansado porque a viagem já tinha algumas horas, adormeço superficialmente. Estou quase a chegar ao meu destino.

De repente, os sinos começaram a tocar, despertando os ecos adormecidos e expulsando das árvores os pequenos passarinhos que voaram ruidosamente para as suas ocupações.

Já meio adormecido junto a uma escadaria. Senti um silêncio atroz que pesava agora sobre o poético jardim mesmo à minha frente. Não aquele silêncio que senti algumas vezes quando observava o rio, mas aquele silêncio que se nota quando uma casa está há muito desabitada.

É aqui que vou passar a noite, acampado, junto a Camões.

Carlos Alves

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.