Defesa europeia prepara guerras do futuro com novas tecnologias testadas em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

A necessidade de preparar a Europa para os conflitos do futuro, acelerar a inovação militar e reforçar a indústria de defesa esteve esta quinta-feira, 8 de outubro, no centro da visita do diretor executivo da Agência Europeia de Defesa (EDA), André Denk, ao Campo Militar de Santa Margarida, em Constância. Acompanhado pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, o responsável europeu conheceu tecnologias militares em experimentação e destacou a importância de transformar investimento e inovação em capacidades operacionais até 2030.

“Precisamos de reforçar a indústria europeia de defesa”, que necessita “não apenas de sinais de procura, mas de encomendas firmes a longo prazo” para aumentar a capacidade de produção, afirmou André Denk aos jornalistas, defendendo a simplificação das regras de aquisição de equipamentos militares e uma maior cooperação entre os países europeus.

O responsável visitou o ARTEX 26 / HEDI OPEX 26, exercício que reúne militares, empresas, universidades e entidades de investigação na experimentação de tecnologias de defesa em condições próximas das operações reais.

Ao longo da manhã, percorreu diferentes áreas de experimentação, observou demonstrações de drones, sistemas não tripulados, comunicações e outras soluções tecnológicas, conversando com militares, técnicos e representantes das empresas envolvidas.

Preparar a Europa para os conflitos do futuro

Para André Denk, os países europeus precisam de investir mais na defesa, mas também de melhorar a forma como cooperam, desenvolvem e adquirem equipamentos militares. O responsável defendeu a harmonização das necessidades operacionais, a agregação da procura e a realização de compras conjuntas, permitindo ganhos de escala e maior interoperabilidade entre as forças armadas.

Entre as capacidades que considera prioritárias estão os drones, os sistemas de ataque de precisão em profundidade, a defesa aérea e antimíssil e a guerra eletrónica, áreas que adquiriram particular importância com a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Segundo Denk, o conflito demonstrou a necessidade de uma capacidade de dissuasão credível, sustentada em forças bem treinadas e equipadas e numa indústria europeia capaz de responder com a rapidez e a dimensão exigidas pelas necessidades militares.

“Temos de antecipar a guerra do futuro e estar preparados para a guerra do futuro”, afirmou, reconhecendo que a Europa não fez o suficiente pela sua defesa nas últimas décadas.

Apesar desse atraso, considerou que a Europa atravessa atualmente um período de investimento e cooperação militar “sem precedentes”, embora tenha alertado para o trabalho ainda necessário até alcançar o objetivo de prontidão militar estabelecido pela União Europeia para 2030.

O responsável destacou igualmente os ensinamentos retirados da experiência ucraniana, salientando que algumas das tecnologias experimentadas em Santa Margarida já foram utilizadas e comprovadas em combate naquele país.

Defesa europeia prepara guerras do futuro com novas tecnologias testadas em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

A evolução dos sistemas militares, nomeadamente dos drones e outras soluções autónomas, exige adaptações constantes, chegando a ser necessárias melhorias praticamente todas as semanas para acompanhar a transformação das ameaças.

Denk defendeu, por isso, que a inovação militar não deve limitar-se às necessidades imediatas do campo de batalha, sendo igualmente necessário desenvolver tecnologias mais avançadas que permitam manter uma vantagem sobre potenciais adversários.

Santa Margarida como plataforma de experimentação europeia

O diretor executivo da EDA mostrou-se impressionado com o realismo das atividades desenvolvidas no Campo Militar de Santa Margarida, que considerou alinhadas com necessidades operacionais observadas também na Ucrânia.

Questionado sobre a possibilidade de Portugal voltar a receber campanhas europeias desta natureza, afirmou que o país está “perfeitamente posicionado” para acolher futuras iniciativas, elogiando a organização, o profissionalismo e a ligação dos testes a desafios reais do campo de batalha.

A campanha reúne mais de 200 especialistas e participantes de mais de 40 empresas, ‘startups’ e organizações de inovação, que trabalham em soluções relacionadas com sistemas aéreos e terrestres não tripulados, logística, vigilância, comunicações e munições de ataque de precisão.

Os testes decorrem em cenários operacionais progressivamente mais complexos, procurando avaliar não apenas o funcionamento individual das tecnologias, mas também a sua integração com militares e outros sistemas.

Entre os desafios previstos estão missões de reconhecimento e vigilância em ambiente hostil, transporte de abastecimentos para forças no terreno e identificação e ataque de alvos por sistemas não tripulados. A avaliação operacional pretende contribuir para decisões futuras sobre o desenvolvimento e eventual utilização destas capacidades.

Exército passou de mentalidade de paz para preparação de guerra

Para o Chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, a guerra na Ucrânia obrigou as forças militares a repensarem profundamente a forma como se preparam para os conflitos.

“Mudámos a nossa mentalidade de tempo de paz para tempo de guerra”, afirmou o general, sublinhando que esta transformação envolve não apenas equipamentos, mas também formação, treino, planeamento e procedimentos operacionais.

Mendes Ferrão explicou que as operações militares realizadas nas últimas décadas eram diferentes daquelas que as forças poderão ter de enfrentar atualmente e no futuro, exigindo uma revisão dos métodos de preparação e uma maior capacidade de adaptação.

O general destacou que a evolução das ameaças obriga os militares a considerar novas formas de vigilância, identificação e ataque, num ambiente em que podem ser observados e localizados por sistemas tecnológicos cada vez mais sofisticados.

Defesa europeia prepara guerras do futuro com novas tecnologias testadas em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

Neste contexto, considerou fundamentais exercícios como o ARTEX, que permitem colocar novas soluções tecnológicas diretamente nas mãos dos militares e avaliar de que forma podem ser integradas em planos e procedimentos táticos.

De exercício nacional a projeto europeu

Mendes Ferrão recordou que o ARTEX começou por ser um exercício de dimensão nacional, mas que a sua evolução para uma iniciativa internacional fazia parte dos objetivos definidos pelo Exército.

A integração com a campanha de experimentação operacional da EDA representa, segundo o general, um passo importante nesse percurso, permitindo beneficiar do conhecimento, da experiência e da rede de empresas e projetos associados à agência europeia.

O responsável salientou que Portugal pretende contribuir para o reforço do pilar europeu da NATO, não apenas através da disponibilização de forças e capacidades militares, mas também envolvendo a indústria, a engenharia e as instituições de ensino e investigação nacionais.

Para o general, esta colaboração permite demonstrar que Portugal pode desempenhar um papel ativo na inovação militar europeia, contribuindo para o desenvolvimento de novas capacidades e não apenas para a sua utilização.

Civis e militares a desenvolver soluções em conjunto

Uma das dimensões mais valorizadas por Eduardo Mendes Ferrão é a aproximação entre os militares, as empresas e a academia, permitindo que os desafios operacionais sejam confrontados com soluções desenvolvidas fora das estruturas tradicionais das Forças Armadas.

O general defendeu a importância de ouvir investigadores, técnicos e jovens inovadores, reconhecendo que os civis podem apresentar ideias e soluções que os militares não tinham considerado.

Na sua perspetiva, é fundamental criar um ambiente em que seja possível experimentar, testar e aprender com os erros, sem desvalorizar propostas apenas por serem diferentes das soluções existentes.

Defesa europeia prepara guerras do futuro com novas tecnologias testadas em Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

O exercício permite, assim, não apenas avaliar equipamentos, mas também estimular novas formas de pensar e trabalhar, aproximando a inovação tecnológica das necessidades concretas das forças no terreno.

Ao juntar militares, indústria e investigação, o ARTEX 26 / HEDI OPEX 26 procura reduzir a distância entre a criação de uma tecnologia e a sua eventual utilização operacional, num contexto em que a rapidez de adaptação se tornou um dos principais desafios da defesa europeia.

O ARTEX 26 / HEDI OPEX 26 decorre desde 28 de setembro e prolonga-se até 14 de outubro, data em que está previsto um Open Day, com a presença de altas entidades nacionais e estrangeiras, incluindo responsáveis políticos e militares, e demonstrações das tecnologias experimentadas ao longo da campanha.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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