Há doces que se comem e há doces que nos devolvem a um lugar, a uma época ou a uma memória de família. Na Confeitaria Palha de Abrantes, em pleno centro histórico de Abrantes, há quem comece a provar as especialidades ainda em criança e continue a procurá-las pela vida fora. Anos mais tarde, regressa com os filhos ou até com os bisnetos, perpetuando uma relação que vai muito além da compra de um bolo. É também esta ligação entre gerações que Pedro António procura preservar à frente de uma das casas mais antigas da cidade.
Fundada em 1964 pelo seu pai, Daniel António, inicialmente com o nome de Pastelaria Carmi, a confeitaria situada na Praça Barão da Batalha assinala este ano 62 anos de atividade. Ao longo de mais de seis décadas, consolidou uma identidade ligada à doçaria tradicional abrantina, com a Palha de Abrantes como imagem de marca, mas também com as tigeladas, as broas fervidas e os pequenos bolos secos que conquistaram um lugar próprio na memória dos clientes.
O mediotejo.net acompanhou uma das visitas à fábrica da Confeitaria Palha de Abrantes, onde, entre tachos ao lume, aromas a açúcar e receitas que atravessam gerações, Pedro António dá a conhecer os bastidores da confeção dos doces que fazem parte da identidade gastronómica da cidade. Mais do que mostrar como nascem estas especialidades, a iniciativa permite descobrir os saberes e os pequenos segredos que ajudam a manter viva uma tradição com décadas de história.
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Pedro António cresceu neste universo e assumiu a liderança do negócio há vários anos. Hoje, reconhece que a continuidade desta história representa tanto um motivo de orgulho como uma responsabilidade.
“Acima de tudo, sinto a responsabilidade e também sinto um orgulho de representar a cidade e de vender aquilo que também é a identidade de Abrantes”, afirma.
É uma identidade que se constrói diariamente, na confeção dos produtos, na relação com os clientes e na insistência em preservar métodos que, noutras casas, foram sendo substituídos por processos mais industrializados. A confeitaria procura manter-se fiel àquilo que sempre a distinguiu, embora acompanhe as mudanças nos hábitos de consumo e procure melhorar outras áreas da pastelaria.

A Confeitaria Palha de Abrantes não vive apenas do doce que lhe dá nome. A oferta inclui várias especialidades tradicionais da região, entre as quais as broas de azeite, mel e noz, conhecidas como broas fervidas ou broas dos Santos, e as tigeladas de Abrantes. A estas juntam-se as versões de broa com batata-doce e abóbora, os almendrados e os húngaros em formas de bolota e ferradura.
“É o nosso ex-líbris”, diz Pedro António sobre a Palha de Abrantes, explicando que o nome da casa não é um acaso: o doce continua a ser o produto mais emblemático da confeitaria, a par da restante doçaria tradicional.
A ligação à cidade manifesta-se também na forma como os produtos acompanham o calendário e as rotinas das famílias. Há doces que ganham especial destaque em determinadas épocas do ano, como as broas na altura dos Santos e do Natal, embora sejam comercializados ao longo de todo o ano. A Páscoa, o regresso dos emigrantes e as visitas de quem vive longe são também momentos em que a confeitaria reencontra clientes que associam os seus produtos a recordações antigas.

“Somos um bocadinho aquele parar no tempo, no que diz respeito a memórias e tradições, mas também não esquecendo os dias de hoje”, resume.
A Feira Nacional de Doçaria Tradicional, que decorre em Abrantes, é um dos momentos em que esta identidade ganha maior visibilidade. A confeitaria participa no certame há mais de 14 anos e é ali que encontra uma oportunidade para dar a conhecer as especialidades da casa a visitantes de diferentes pontos do país.
O evento é, nas suas palavras, um dos momentos mais importantes para a doçaria na cidade, tanto pela venda como pelo contacto direto com o público. Ainda assim, considera que Abrantes tem capacidade para atrair mais visitantes e divulgar melhor aquilo que oferece.

“Gostaríamos de ter mais, temos capacidade para termos mais, temos muito, mas mesmo muito mais a dar”, defende.
A feira permite também mostrar que a doçaria tradicional não se resume à Palha de Abrantes. As broas e as tigeladas são igualmente parte de um património gastronómico que a confeitaria procura manter vivo, sem perder de vista a evolução dos gostos e as possibilidades de criar novas versões.
Palha de Abrantes: um doce com história ligada ao Tejo
Pequena, delicada e com uma cobertura de fios de ovos que lembra os espinhos de um ouriço, a Palha de Abrantes é o doce mais emblemático da cidade florida. A sua história estará ligada à doçaria conventual, com uma origem que remonta aos conventos do século XV.
Segundo a tradição, padres e freiras utilizavam as claras de ovo para engomar as vestes, aproveitando as gemas que sobravam para confecionar doces. Entre eles estariam preparações que deram origem a algumas das especialidades da doçaria conventual portuguesa.

Mas a história da Palha de Abrantes não se conta apenas à mesa. A sua designação é também associada à importância que a cidade teve nas antigas rotas comerciais do Tejo. Durante séculos, o transporte fluvial permitiu fazer chegar a Lisboa produtos provenientes do interior, incluindo cereais e palha destinada aos animais de tração que circulavam na capital. As embarcações que percorriam o rio transportavam também outros produtos da região, como azeite e cortiça, contribuindo para a ligação entre Abrantes e os principais centros comerciais.

Esta atividade terá ajudado a consolidar a expressão “se queres palha, vai a Abrantes” e a associação entre a cidade e a palha que acabaria por dar nome ao doce. A designação poderá igualmente evocar a aparência dos fios de ovos que cobrem a especialidade, semelhantes a pequenos filamentos de palha. A origem exata da receita permanece envolta em diferentes versões, cruzando a tradição conventual com a história económica e fluvial da região.
A Palha de Abrantes é hoje reconhecida como uma das principais referências da doçaria tradicional portuguesa. A sua confeção assenta em ingredientes simples – ovos e açúcar -, mas exige cuidado e trabalho manual para alcançar o aspeto e a textura que a caracterizam. A receita está documentada pela Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural.
O historiador José Martinho Gaspar, num artigo publicado no mediotejo.net, recorda a importância dos antigos portos de Abrantes e a ligação da cidade ao transporte de palha, azeite e cortiça. O mesmo texto refere que a venda da Palha de Abrantes em estabelecimento comercial começou em 1906, na Casa Vigia, décadas antes da fundação da confeitaria de Daniel António.

Na casa de Pedro António, a receita continua a ser tratada como uma das principais marcas de identidade. O processo começa na preparação do doce de ovos, feito com água, açúcar e gemas, e passa pela produção dos fios de ovos, que exigem prática e atenção.
“Na nossa casa fazemos tudo um bocadinho à antiga”, explica. A confeitaria separa os ovos e prepara os componentes do doce, em vez de recorrer simplesmente a produtos já comprados e prontos a utilizar. No caso dos fios de ovos, o trabalho é particularmente exigente: as gemas são passadas e colocadas num “regador” próprio, permitindo que caiam em fios sobre a calda de açúcar quente.

Pedro António sublinha que esta opção tem custos e exige mais tempo, mas considera que a diferença justifica o esforço. A confeitaria procura manter o método que marcou as primeiras décadas do negócio, preservando um saber-fazer que depende tanto dos ingredientes como da experiência de quem os trabalha.
A Palha de Abrantes é, assim, mais do que o produto que identifica a casa. É também uma ligação à história da cidade e à forma como as receitas tradicionais atravessam o tempo, adaptando-se sem perder os elementos que as tornam reconhecíveis.
Broas fervidas: três séculos de tradição e novas combinações
Se a Palha de Abrantes é a imagem mais imediata da confeitaria, as broas fervidas ocupam um lugar especial na relação da casa com a doçaria sazonal. Tradicionalmente associadas à época dos Santos, em novembro, e aos meses que antecedem o Natal, estas broas têm uma história antiga na região.
Pedro António refere que existem referências históricas a esta tradição com cerca de três séculos e explica que a confeitaria começou por produzir as broas sobretudo entre o final de outubro e o Natal. A procura levou, entretanto, a casa a alargar a produção a todo o ano.

A receita tradicional tem como base o azeite, o mel e a noz, aos quais se juntam outros ingredientes. O processo começa num tacho ao lume, onde os ingredientes são fervidos para se ligarem. Só depois é incorporada a farinha, gradualmente, até se obter uma massa muito densa e pesada. A massa arrefece antes de ser moldada e levada ao forno.
É uma preparação que exige força, coordenação e experiência, já que a consistência da massa torna difícil o seu manuseamento. O próprio nome, broas fervidas, explica uma das etapas essenciais da confeção: a fervura inicial dos ingredientes antes da adição da farinha, ainda realizada em tacho de cobre.

A tradição, contudo, não impediu a experimentação. Em 2018, a confeitaria criou uma versão com batata-doce, mel e noz, mantendo a base de azeite que caracteriza a receita. A novidade foi distinguida com um prémio gastronómico. No ano seguinte, surgiu uma segunda variante, com abóbora, mel e noz.
As duas propostas juntaram-se à broa tradicional e conquistaram o seu espaço. A versão de batata-doce, conta, vende hoje tanto como a original.

“São coisas diferentes, o mesmo processo, a mesma base”, explica, referindo-se à forma como a alteração de um ingrediente pode transformar o resultado final.
A inovação nasce, assim, de uma receita antiga, sem a intenção de a substituir. A base mantém-se e a confeitaria procura encontrar novas combinações que respeitem a identidade do produto. O resultado mostra como uma tradição pode continuar a ser relevante quando é trabalhada e adaptada com critério.
Tigeladas: o sabor de Abrantes numa tigela de barro
Outra das especialidades da casa é a tigelada de Abrantes, um doce de aspeto simples, que se assemelha a um pudim, cuja preparação depende muito do recipiente e da temperatura de cozedura.
Pedro António explica que a tigelada é feita em tigelas de barro não vidrado, previamente aquecidas no forno a uma temperatura que pode atingir os 400 graus. A mistura é depois colocada no recipiente quente, sem retirar a tigela do forno durante o processo, para evitar que arrefeça.

A escolha do barro não é um pormenor decorativo. O material dilata com o calor e contrai quando arrefece, influenciando a forma como a tigelada coze. A confeitaria utiliza um método que permite que a cozedura se faça de baixo para cima, contribuindo para a textura característica do doce.
Embora existam preparações semelhantes noutras regiões, a tigelada abrantina distingue-se da tigelada da Beira, por exemplo, pelas diferenças na receita e no processo. Pedro António salienta que a versão da casa é feita com ingredientes frescos, incluindo leite e ovos com casca, e não com ovos em pó.

A simplicidade aparente esconde, portanto, uma preparação que exige atenção à temperatura, ao recipiente e ao tempo de cozedura. É também um produto com uma duração mais curta do que os bolos secos, pelo que a confeitaria procura assegurar a frescura e a textura adequadas.
“É também uma coisa que nós fazemos todos os dias e que, felizmente, tem muita tradição na nossa casa”, afirma.
A tigelada mantém-se como uma das referências da doçaria abrantina e continua a ser procurada por quem quer conhecer os sabores mais característicos da região. Para a confeitaria, representa mais uma forma de preservar uma receita tradicional através da prática diária, sem atalhos que alterem a sua natureza.
Bolotas e ferraduras: os húngaros que acompanham gerações
Nem todas as especialidades da confeitaria têm a mesma notoriedade da Palha de Abrantes, mas algumas conquistaram uma identidade tão própria que se tornaram parte da história da casa.
É o caso dos húngaros, bolos de massa amanteigada cobertos com chocolate, que Pedro António associa a uma receita introduzida na confeitaria nos primeiros anos de atividade. O seu pai trouxe do Porto um pasteleiro que conhecia esta preparação, que passou a fazer parte da oferta da casa há mais de cinco décadas.
A versão mais conhecida dos húngaros é frequentemente apresentada em formato redondo, mas a confeitaria decidiu dar-lhes formas que remetem para o território e para o quotidiano ribatejano. Na casa, a massa transforma-se em bolotas e ferraduras.

São formas simples, mas facilmente reconhecíveis, que acabaram por se tornar uma assinatura da confeitaria. “É algo que já faz parte também da identidade da casa”, afirma Pedro António, que descreve uma relação entre o produto e os clientes construída desde a infância.
Há crianças que começam por comer estes bolos em tenra idade e que continuam a procurá-los em adultas. Mais tarde, regressam com os filhos e os netos, repetindo um hábito que passa de geração em geração.
“Temos aí famílias inteiras que uns já comeram e continuam a comer e outros estão agora a começar a comer”, conta.
A continuidade destes produtos demonstra que a tradição não depende apenas da antiguidade de uma receita. Depende também da relação que se estabelece com quem a consome, das memórias que ficam associadas a um sabor e da capacidade de uma casa se tornar parte da vida de uma comunidade.

Além dos húngaros, a confeitaria produz almendrados, que Pedro António descreve como uma proposta especialmente dirigida a quem aprecia amêndoa. Ao contrário de versões mais duras e muito doces, a receita da casa é menos açucarada e apresenta uma textura mais húmida e densa.
São especialidades diferentes, mas que partilham o mesmo princípio: manter uma oferta própria, ligada à história do estabelecimento, e continuar a dar aos clientes razões para regressarem.
Entre a tradição e a necessidade de reinventar
Manter uma casa histórica não significa que o negócio esteja imune às dificuldades. Pedro António reconhece que os hábitos de consumo mudaram e que o açúcar já não tem o mesmo lugar na alimentação de há algumas décadas. Na sua avaliação, o mercado da doçaria tradicional perdeu consumidores, embora continue a existir uma procura significativa por produtos associados à memória, à autenticidade e à história.
A confeitaria beneficia dessa ligação. O responsável recorda clientes que saem da autoestrada A23 para comprar doces na casa e depois retomam a viagem. São pessoas que conhecem os produtos há muitos anos e que continuam a fazer questão de os procurar.

“Não é só a qualidade, é aquilo que nós vamos oferecendo ao cliente e, em termos de familiaridade, também”, explica.
A memória, a tradição e a qualidade são, para Pedro António, fatores que ajudam a sustentar o negócio num contexto em que os consumidores têm cada vez mais alternativas. Acredita até que a importância das casas tradicionais poderá crescer no futuro, à medida que algumas práticas e receitas forem desaparecendo.
“Cada vez mais há tradições a desaparecer e isso faz-me crer que, daqui a uns anos, vamos começar a sentir muita falta destas tradições e casas como a nossa cá estarão”, afirma.
Apesar disso, não esconde a preocupação com a evolução da cidade, considerando que esta precisa de mais dinamismo, habitantes e visitantes para criar condições favoráveis ao comércio local. A confeitaria tem ideias para desenvolver novos produtos, mas, neste momento, está sobretudo concentrada em manter a qualidade das especialidades que já produz e em melhorar alguns aspetos da pastelaria, como o pastel de nata e o croissant.

“Ideias não faltam. Nós somos uma casa muito antiga, temos aqui muito por onde trabalhar ainda, mas também é preciso que a cidade tenha mais oxigénio, tenha mais dinâmica, tenha mais gente, mais vida e isso é essencial”, defende.
A inovação, neste contexto, não se traduz necessariamente em multiplicar novidades. Pode significar aperfeiçoar o que já existe, encontrar novas formas de apresentar uma receita ou introduzir ingredientes diferentes sem perder a sua base tradicional. Foi o que aconteceu com as broas de batata-doce e abóbora e é esse equilíbrio que a confeitaria procura preservar.
Pedro António sabe que liderar uma confeitaria com esta história implica respeitar o passado sem deixar de olhar para o futuro. O negócio começou com o pai, cresceu com os clientes e continua a depender da capacidade de manter essa confiança, mesmo quando os hábitos mudam e a cidade enfrenta novos desafios.


Aos 62 anos, a casa mantém como prioridade aquilo que a tornou reconhecida: a doçaria tradicional e o cuidado na sua confeção. As bolotas e as ferraduras continuam a acompanhar crianças que crescem e regressam com as próprias famílias; as broas já não se limitam à época dos Santos; e a Palha de Abrantes permanece como o doce que melhor traduz a ligação entre a confeitaria e a cidade.
No fundo, é essa continuidade que Pedro António procura garantir: que os sabores de Abrantes não fiquem apenas nas recordações de quem os conheceu há décadas, mas continuem a fazer parte da vida de quem os descobre hoje.
Porque, numa casa onde tantas receitas atravessaram gerações, preservar a tradição é também assegurar que haverá sempre alguém para a provar pela primeira vez.
