Há escritores que respondem a perguntas. Telmo Mendes conta histórias. Ao longo de quase duas horas de conversa, as respostas sucedem-se como capítulos de um romance, onde as memórias da infância se cruzam com reflexões sobre a literatura, a sociedade, a cultura e o tempo em que vivemos.
Aos 49 anos, o autor de ‘Antes que a luz apague a escuridão’ vive um dos momentos mais marcantes do seu percurso. Onze anos depois de se estrear em nome próprio com uma obra de autoedição, chega à Oficina do Livro, chancela do grupo LeYa, e vê o seu romance conquistar leitores e crítica, multiplicando apresentações e sessões de autógrafos nas principais feiras do livro do país.
O sucesso, contudo, não lhe alterou a forma de olhar para a escrita. Continua a acreditar que um livro precisa de tempo, que as personagens são sempre mais importantes do que o enredo e que escrever continua a ser um exercício de empatia.
“Escrever nunca foi, para mim, um mero exercício estético. Quando me sento diante do papel e chamo a velhice, a memória ou a morte, estou apenas a convocar aquilo que nos torna profundamente humanos, aquilo que nos salva da indiferença”, afirma.

A conversa começa, inevitavelmente, pelas origens. Embora hoje viva em Constância, é em Alferrarede, Abrantes, que identifica as primeiras raízes de tudo aquilo que viria a construir. Não fala da infância através de datas ou acontecimentos marcantes, mas das pessoas, das leituras, da curiosidade pelas artes e da forma como foi aprendendo a observar o mundo.
“Tenho ainda memórias muito vivas da minha infância no Canaverde, na freguesia de Alferrarede, onde vivi até aos 10 anos e de onde suspeito nunca ter saído de vez. Há uma parte de mim que lhe permanece. De vez em quando sou acometido pela necessidade de regressar, como fizemos para esta entrevista. Fico parado em frente à casa onde cresci e algo acontece, o tempo dobra-se e vejo-me a mim, pequeno, com os amigos, os vizinhos, o pai, o colo da mãe, ainda o cão e o gatito branco. Regresso ao Canaverde como quem tem na infância o que de mais sagrado existe. Como pudeste perceber, há fotografias que não deixam que as minhas memórias mirrem. Pelo contrário, erguem-nas”.
Para Telmo, as memórias que guarda desses tempos são claras no papel que tiveram as suas vivências, com os seus pais e amigos, na formação da pessoa que é hoje.
“Tive o privilégio de viver uma infância genuinamente livre, rodeado de ribeiros, amigos, mergulhos em tanques, pinhais e aventuras levadas da breca. Os pneus da bicicleta furavam-se com frequência, e isso era apenas um pormenor da vida feliz. Curiosamente, a mudança para Constância foi muito fraturante… Fazia algum tempo que a “casa nova” estava a ser construída, e tinha a noção de que a mudança iria acontecer, mas… deu-se numa altura em que eu estava de férias com os meus avós. Quando regressei, regressei para outro lugar. Lembro-me que já anoitecia e guardo ainda na memória o cheiro da tinta fresca quando entrei na casa de Constância. Também me recordo que o jantar foi frango de fricassé”.
“Nunca houve despedida dos meus amigos do Canaverde, nem dos vizinhos, nem da casa… ninguém me perguntou se queria fazê-lo. Simplesmente fui mudado de lugar e pronto. Acho que essa fresta me permanece. Em Constância fiquei outro miúdo, mais fechado e inseguro. Parecia que tinha perdido o jeito para fazer amigos. Foi nesse processo que a escrita e a música (e também o basquetebol) se tornaram alvos de interesse, não por uma vocação imediata, mas por necessidade”.
“Naturalmente, que os meus pais foram capitais na construção da minha identidade, facultando-me valores e ferramentas para crescer com sentido crítico e autonomia. A literatura foi-me plantada por eles. Recordo que eram assinantes do Círculo de Leitores, e todos os meses entravam livros em casa, livros para mim, para o meu futuro, enciclopédias, clássicos… Com 7 ou 8 anos eu lia banda desenhada e Júlio Verne com o mesmo encanto, sem hierarquia entre eles. Depois, existiram outras pessoas fundamentais, de forja muito dedicada: a minha madrinha Isabel e o meu avô João são figuras basilares de amor profundo e formador. Por eu ser um menino meio balonista, o meu amigo Carlos Dâmaso, mostrou-me que a arte era um território onde eu podia sonhar e expressar-me… todos eles foram matéria construtiva. As raízes não sustentam somente a árvore, sustentam também o fruto, não é?”.




Em Alferrarede, cedo aprendeu a observar as pessoas e a escutar histórias. Muito antes de pensar publicar livros, havia uma curiosidade permanente pelas palavras, pela música, pelo teatro e pela fotografia, linguagens que hoje reconhece terem moldado a forma como escreve.
“Nunca consegui separar completamente essas artes. A música ensinou-me o ritmo das frases, a fotografia ensinou-me a olhar e o teatro ajudou-me a perceber as personagens”, recorda, considerando que todas essas influências continuam presentes na sua escrita.
“Para eu estar aqui, outros houve que desbravaram caminho. A forma como escrevo hoje é reflexo de tudo o que li e da literatura pela qual me fascinei”, diz, antes de assumir que nunca acreditou na ideia romântica do escritor isolado. Pelo contrário, considera que todos escrevem sobre os ombros de quem veio antes.
Essa consciência torna-se particularmente evidente quando fala das referências literárias que o acompanham. Sem hesitar, aponta Fernando Pessoa e António Lobo Antunes como os dois autores que mais marcaram a sua formação enquanto escritor.
“Fernando Pessoa não foi apenas um escritor. Foi um milagre doloroso que me mostrou que a literatura pode ser um lugar onde a solidão se desmultiplica em muitos para não estarmos tão sós. Já Lobo Antunes ensinou-me a não ter medo do escuro, a escavar os escombros da memória, da família e da perda até encontrar uma espécie de beleza que magoa. São dois terramotos que reconfiguraram a minha geografia interior.”
Apesar da paixão pelos livros, o caminho até ao reconhecimento esteve longe de ser imediato.
Em 2015 publicou ‘Pelo Peito Adentro’, em autoedição. Poderia ter procurado rapidamente um segundo livro, mas preferiu esperar. Hoje olha para esses onze anos sem qualquer sentimento de atraso.
“Não senti que tivesse esperado onze anos. Senti que precisei de onze anos”, resume.
Ao contrário da lógica dominante, que privilegia a rapidez e a exposição permanente, Telmo Mendes acredita que a literatura continua a exigir silêncio e maturação.
“O mundo atual tem horror ao silêncio. Mas a literatura exige tempo, exige silêncio e paciência de chegar”, uma ideia que atravessa praticamente toda a conversa.

Para o escritor, escrever nunca foi uma corrida para publicar mais depressa ou ocupar espaço nas livrarias. Sempre encarou a escrita como uma procura de verdade, recusando adaptar-se às modas ou às exigências do mercado editorial.
Essa opção acabou por encontrar recompensa quando ‘Antes que a luz apague a escuridão’ chegou à Oficina do Livro.
Publicado em abril, ‘Antes que a luz apague a escuridão’ representa um ponto de viragem no percurso do autor. Depois da estreia em autoedição, é o primeiro romance editado por uma das principais editoras portuguesas e aquele que lhe abriu portas às maiores feiras do livro do país, aproximando-o de um público muito mais vasto.
Embora a história tenha como ponto de partida uma tempestade que atinge uma pequena comunidade, Telmo Mendes rejeita que o romance seja apenas sobre esse acontecimento.
“A tempestade é apenas um pretexto. O livro fala das pessoas. Daquilo que permanece nelas depois da destruição física desaparecer. Interessa-me perceber como é que alguém continua a viver quando tudo parece desabar.”
Embora o livro se passe numa vila piscatória da costa, Telmo assume que ela é inspirada na arquitetura e na alma ribeirinha de Constância. E quanto às personagens? O padre que atira cartas de amor ao mar, o homem demente que espera comboios numa estação abandonada… Há pedaços de pessoas reais que conheceu em Abrantes ou Constância escondidos neste mosaico?, perguntamos.
“Sim. Há pedaços de pessoas reais escondidos no mosaico de personagens do “Antes que a luz apague a escuridão”, muitos mesmo. A minha ficção, nasce quase sempre de um gesto apanhado na rua, de um relato que alguém me fez sem saber que me estava a dar pilares para uma personagem, de um apontamento físico, de qualquer coisa pequena e mundana que de repente carrega uma frase que preciso de plantar. Pego nisso e visto-o de prosa e poesia para revelar o que traz escondido. Por vezes um personagem são várias pessoas reais em simultâneo, cujas vozes se fundem numa só”.
“Posso partilhar contigo que, por exemplo, o padre que atira garrafas com cartas de amor ao mar, foi inspirado no meu amigo Carlos Dâmaso (já falecido), a quem dei o nome à personagem, como singela homenagem. O Dâmaso perdeu a mulher e ficou meio desamparado, sem saber muito bem o que fazer com o silêncio da casa, com os objetos e com a ausência da Maria João. Então decidiu continuar a escrever-lhe cartas de amor, mesmo depois de morta. Publicava-as regularmente, como se ela, por qualquer intervenção divina, as pudesse receber algures. Havia uma fé naquele gesto que me partia o coração e simultaneamente me enchia de poesia triste. A ideia do padre Dâmaso que lança garrafas com cartas de amor parte precisamente daí, de um homem real que recusou aceitar que amor tem prazo”.

Essa preocupação acompanha praticamente toda a sua escrita. As personagens que cria raramente são heróis. São pessoas comuns, muitas vezes invisíveis, que transportam perdas, cicatrizes e fragilidades semelhantes às de qualquer leitor.
“Faço questão de transportar para o que escrevo a compaixão. Não a pena, mas a capacidade de vestir a pele do outro. Tentei devolver dignidade aos esquecidos, àqueles que o mundo empurra para a margem porque acha que a sua história já não interessa.”
É precisamente aí que entende residir a função da literatura. Num tempo marcado pelo imediatismo e pela exposição permanente, considera que os livros continuam a oferecer um espaço raro de reflexão.
“Vivemos tempos de um individualismo feroz, quase pornográfico, onde as pessoas parecem mais preocupadas em expor-se do que em ver-se. A literatura pode funcionar simultaneamente como espelho e como alerta. Pode obrigar-nos a reconhecer as nossas próprias fraturas e lembrar-nos que a nossa única salvação reside na capacidade de cuidarmos uns dos outros.”
É uma das frases que melhor resume a sua visão do mundo. Quando lhe pergunto se escrever também constitui uma forma de intervenção cívica, responde sem hesitar.
“Escrever é a minha forma de protestar contra a desumanização. É uma tentativa de erguer uma pequena fogueira contra o gelo da indiferença.” À medida que a conversa avança, percebe-se que Telmo Mendes fala da literatura quase como quem fala de um compromisso ético.
Para ele, escrever não é apenas contar histórias. É uma forma de resistir.

Este livro tem uma forte marca da região também na parte visual. A ilustração é da sua conterrânea Ana Joaquim e a capa é do Maike Bispo, um reconhecido artista brasileiro residente em Vila Nova da Barquinha, uma parceria de talento local que abraça um projeto de dimensão nacional.
“Acredito que a arte, além da sua componente salvífica, é uma manifestação para a revelação de algo íntimo, que não está à vista. No “Antes que a luz apague a escuridão”, as imagens e a escrita complementam-se em benefício da experiência da leitura. Há qualquer coisa de foro espontâneo que impele o leitor para um lugar, uma outra forma do livro dialogar com o leitor. A parceria com a Ana Joaquim nasceu de uma intuição. Lancei-lhe o desafio sem ter visto um único trabalho dela a carvão. Conhecia outras obras suas, mais experimentais, e em tudo havia uma sensibilidade que me disse que seria capaz. E foi. O que ela criou foi arte em traço puro. Apenas mão, carvão, papel vivo e uma odisseia”.
“Do Maike Bispo, já conhecia o trabalho e a identidade do seu traço, principalmente no registo a tinta da china, onde ele é diferenciado. Quando surgiu a oportunidade de fazer a capa, senti que tinha a linguagem visual que eu queria para o livro antes deste ser aberto. Julgo que as capas dos livros devem ser como portas de entrada que convidam os leitores para um universo totalmente novo, e a arte da Maike pareceu-me conter essa porta. Que ambos sejam da região é algo que me enche de satisfação genuína, mas não era uma condição, foi antes uma confluência de talentos”.

Ao longo da entrevista, a conversa acaba inevitavelmente por chegar ao estado da cultura em Portugal.
E é aí que Telmo Mendes abandona por momentos a linguagem mais metafórica para assumir um tom claramente crítico.
Considera insuficiente o investimento público na cultura, lamenta a reduzida verba destinada ao setor e critica a distância entre o discurso político e o apoio efetivo às bibliotecas, aos eventos literários e aos criadores.
“A verba atribuída à Cultura representa apenas 0,26% do Orçamento do Estado. Andamos há décadas a exigir 1%. É um insulto que asfixia a criação artística e literária”, afirma, defendendo que muitos projetos culturais sobrevivem apenas graças ao esforço das pessoas que recusam desistir.
Também o mercado editorial merece uma análise particularmente dura. Na sua perspetiva, o livro está cada vez mais sujeito às regras do consumo imediato e da lógica comercial.
“O mercado encontra-se concentrado num duopólio asfixiante. Se um escritor não se moldar à velocidade histérica das redes sociais, se a escrita não for facilmente consumível, é rapidamente empurrado para a invisibilidade. Estamos a trocar a profundidade do pensamento pelo ruído do descartável.”
Apesar desse diagnóstico, recusa qualquer visão pessimista sobre os leitores. Pelo contrário. Telmo Mendes acredita que, precisamente porque o mundo se tornou mais acelerado, existe hoje uma procura renovada por livros capazes de oferecer tempo e profundidade.
“As pessoas continuam a guardar espaço para estes livros porque precisam de se lembrar de quem são. Quando alguém abre um livro e se recusa a ser apressado, está a cometer um ato de insubmissão. Recebo mensagens e abraços de leitores que me mostram que continuam a existir pessoas com fome de humanidade.”

É talvez essa confiança nas pessoas que explica também a forma como encara o sucesso recente.
Embora o romance tenha aberto portas que dificilmente imaginaria há alguns anos, continua a rejeitar a ideia de viver exclusivamente da escrita.
“Viver apenas da literatura, em Portugal, é quase um milagre estatístico. O meu corpo pertence ao trabalho que me garante estabilidade, mas a minha alma pertence inteiramente à palavra. Enquanto não depender da escrita para sobreviver, mantenho a liberdade de escrever apenas aquilo em que acredito.”
Onze anos depois da estreia, Telmo Mendes chega finalmente a um palco maior, sem abdicar daquilo que sempre o distinguiu: uma escrita profundamente humana, feita de tempo, silêncio e da convicção de que os livros continuam a ser um dos lugares onde ainda vale a pena procurar respostas para compreender melhor os outros e, talvez, a nós próprios.

Num mundo habituado ao imediato, Telmo Mendes recorda que há percursos que só fazem sentido quando são construídos devagar. Porque algumas histórias não se escrevem contra o tempo. Escrevem-se com ele.
E talvez seja precisamente por isso que ‘Antes que a luz apague a escuridão’ não pareça um ponto de chegada. Parece apenas o início de um novo capítulo.
A promoção de ‘Antes que a luz apague a escuridão’ continuará durante os próximos meses, com apresentações em várias cidades do país, a próxima das quais no domingo, dia 5 de julho, na Feira do Livro em Portimãom na antiga lota. Entretanto, o escritor já pensa nos próximos projetos.

“Não existem férias para o espanto”, diz, sorrindo. “Enquanto acompanho este livro, já vivem outros projetos que me desassossegam. Escrever é uma continuidade. O rio não para só porque a margem é bonita” (risos).
