A Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) manifestou “profunda preocupação” sobre as condições de reabertura de creches dentro de uma semana e diz que as recomendações para essa abertura são “profundamente desadequadas”.
A direção-geral da saúde (DGS) já fez um conjunto de recomendações para a reabertura das creches, que pode acontecer a partir de dia 18, sendo essas recomendações que a APEI vem agora contestar, manifestando-se disponível para colaborar com o Governo e outras entidades com responsabilidade nas respostas às crianças com menos de três anos, para “encontrar as melhores soluções”.
No plano de desconfinamento pós-estado de emergência divulgado pelo governo consta a reabertura de creches com opção de apoio à família a partir de 18 de maio e das restantes creches, ensino pré-escolar e ATL a partir de 01 de junho.
Ainda que tendo consciência do caráter excecional do momento, devido ao novo coronavírus, que provoca a doença covid-19, a associação diz que as propostas para a abertura das creches, a serem cumpridas, “estão objetivamente a lesar o desenvolvimento das crianças”.
“Manter uma distância física de dois metros entre cada criança e impedir que possam interagir entre si, evitar o toque em superfícies, dispor mesas em linha ou crianças colocadas de costas umas para as outras, evitar a partilha de brinquedos e outros objetos, ter adultos de referência (educadoras e auxiliares), com os quais as crianças mantêm vínculos profundos, a usar máscaras, são medidas reveladoras de um desconhecimento sobre a realidade do trabalho educativo em creche e sobre o desenvolvimento das crianças com menos de 03 anos”, alerta a APEI no comunicado.
E acrescenta que essas medidas são acima de tudo “profundamente perturbadoras” já que são também “uma violência contra as crianças”.
“Pegar ao colo, olhar nos olhos e deixar que a criança crie empatia através da expressão facial, falar perto da sua cara e acariciar o seu rosto são afetos que constroem e cimentam as interações e o vínculo entre criança e educador/cuidador. Impedir estas manifestações de afeto ou artificializá-las, com máscaras e distância física, é violentar a relação”, avisa a associação.
Como é “violentar” a criança “aprisioná-la” em mesas, espreguiçadeiras ou parques, quando essa criança está na fase da progressiva autonomia, de explorar os espaços e os materiais e a relação com os outros.
“É difícil compreender como é possível pensar em reabrir as creches com este tipo de recomendações que, é bom clarificar, vão abranger as crianças maioritariamente oriundas de famílias com condições sociais de maior vulnerabilidade e desigualdade socioeconómica, precisamente as que não terão alternativa a não ser a creche, pois as restantes irão optar por mantê-las em segurança, na sua casa”, diz-se ainda no comunicado da associação.
Além de que não se pode, salienta, olhar para as creches “como depósitos de crianças.
A APEI, no comunicado, não dá soluções para o problema, mas diz que está a promover uma reflexão para preparar um documento sobre a matéria.
Um documento, adianta, que contribua para o respeito pela criança, para a dignificação das creches como espaço educativo de qualidade, para a garantia de condições de higiene, segurança e em estar das crianças, e para a valorização do trabalho pedagógico e de apoio às famílias.
DGS diz que cabe aos adultos fazer tudo para reduzir riscos nas creches
A diretora-geral da Saúde disse hoje ser impossível impor regras de comportamento a crianças pequenas, defendendo que cabe aos adultos “fazer tudo” para minimizar o risco de contágio quando estão a brincar e a conviver.
As creches são “um sítio para brincar” e as crianças são “muito pequeninas e, portanto, não é possível” impor-lhes regras de comportamento, disse Graça Freitas na conferência de imprensa diária sobre a evolução da pandemia de covid-19 em Portugal
No entanto, sublinhou, “devemos fazer tudo, mas tudo, que os adultos e o espaço permitirem para minimizar o risco das suas brincadeiras”.
Graça Freitas deu vários exemplos de como o fazer, como “desdobrar turmas, manter o mínimo possível de meninos dentro de uma sala”.
“Não garante que eles não se juntem”, mas permite que se crie “uma espécie de distanciamento social alargado”.
Por outro lado, apontou, “sabemos que na brincadeira eles não podem deixar de se juntar, mas podem deixar os sapatos à porta” e na hora de dormir os seus colchões devem ficar a uma distância de segurança para não passarem “gotículas para o seu coleguinha do lado” enquanto dormem.
Também se pode pedir que cada menino tenha o seu próprio colchão e que “as refeições que são tomadas tenham também espaçamento entre as salas, que não sejam todas ao mesmo tempo e que tenham circuitos separados”, exemplificou Graça Freitas.
“O que nós os adultos podemos fazer não é impedir o mundo dos meninos, mas é dar a esse mundo dos meninos a maior segurança possível e isso está na mão dos adultos, separando mesas, salas, dedicando o material tanto quanto possível a uma criança, arranjando circuitos próprios”, salientou.
Por isso, defendeu, “é tão importante que as creches se organizem em função do seu espaço, do seu número de alunos para criarem este circuito”.
“Agora, obviamente, não vamos impedir o normal desenvolvimento dos meninos, nem as suas brincadeiras, nem os seus convívios, porque isso é impossível, vamos é fazer tudo para minimizar cruzamentos entre pessoas, entre meninos, e por outro lado proteger os adultos que os acompanham”, reiterou a diretora-geral da Saúde.
Como os meninos não podem utilizar uma máscara, “os adultos terão de fazê-lo, obviamente, sempre para minimizar a probabilidade de contágio de um adulto para uma criança”, exemplificou ainda.
Graça Freitas sublinhou que as regras que foram apresentadas há poucos dias numa sessão pública eram apenas ainda para ser discutidas, para ouvir pareceres de associações de pais e de outros setores da atividade.
“Temos que pensar nos meninos que têm características próprias e direito ao seu desenvolvimento e à sua brincadeira e adultos têm de criar regras que minimizem o cruzamento entre determinados objetos, equipamentos e depois no cruzamento entre muitas crianças ao mesmo tempo”, rematou.
A Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) já manifestou “profunda preocupação” sobre as condições de reabertura de creches dentro de uma semana e diz que as recomendações para essa abertura são “profundamente desadequadas”.
