Foto de grupo em frente à bibliomóvel do Montijo. Foto: mediotejo.net

A Casa-Memória de Camões recebeu no sábado, dia 12, a mesa-redonda “As Bibliotecas Itinerantes em Portugal e a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial. Algumas metodologias de recolha”. Um momento que contou com a presença de Luís Marques, presidente da Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Imaterial (PCI), e se focou no papel das bibliomóveis (bibliotecas itinerantes) na salvaguarda do passado através dos testemunhos recolhidos durante as viagens por locais remotos.

Luís Marques começou por sublinhar que foi em Constância “que tudo começou” com a realização das primeiras jornadas regionais para a salvaguarda do Património Imaterial, às quais se seguiram as ligadas a outras regiões do país, como o Algarve e o Alentejo. O objetivo destas e outras iniciativas realizadas pela PCI foram apontadas pelo seu presidente como a criação de “campos de atuação no domínio imaterial”, a par de gerar “consciência da identidade local ou regional”.

Seguiram-se as intervenções dos oradores convidados para esta iniciativa organizada pela PCI, nomeadamente Rui Neves, da Câmara Municipal do Montijo, Nuno Marçal, da Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova, Maria Gorete Afonso, da Biblioteca Municipal de Montalegre, Cidália Pacheco, da Biblioteca Municipal de S. Brás de Alportel, e Maria do Rosário Pestana, da Universidade de Aveiro.

Luís Marques, presidente da Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Imaterial. Foto: mediotejo.net

Na plateia estiveram o presidente da Câmara Municipal de Constância, Sérgio Oliveira, Manuela Arsénio, em representação da Casa-Memória de Camões, e Filipa Montalvo, vereadora da cultura da autarquia, que ouviram os detalhes do trabalho desenvolvido em diversos concelhos, assim como Luís Marques a destacar que o papel das bibliotecas na recolha e preservação do património imaterial é “importante por si só”, contribuindo para as restantes vertentes associadas a esta área.

Rui Neves abriu o programa das comunicações realizadas ao longo da tarde na Casa-Memória Camões, intercaladas pela visita à bibliomóvel do Montijo. O bibliotecário com uma carreira de 28 anos fez uma resenha históricas das bibliotecas itinerantes em Portugal, na qual se destacam marcos importantes como o surgimento do primeiro carro-biblioteca em 1953 por influência de António Branquinho da Fonseca que, cinco anos depois, dirigiu o serviço de bibliotecas móveis criado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Nuno Marçal, por seu lado, aludiu aos “tempos difíceis” com que as bibliotecas se deparam atualmente, lançando a questão se o modelo atual deve ser repensado na medida em que estas não se tratam apenas de “um espaço bonito” onde as pessoas consultam e requisitam livros. Segundo o bibliotecário, é necessário “ir mais além” da promoção do livro e da leitura” e apostar no “bem mais precioso de uma biblioteca”, ou seja, as pessoas, gerando nelas empatia com estes equipamentos culturais.

Seguiu-se a intervenção de Maria Gorete Afonso que se referiu às bibliotecas municipais enquanto “espaço comum de cidadania efetiva”. A bibliomóvel do concelho que representou nesta mesa-redonda começou por ser uma ludoteca que viajava pelos estabelecimentos escolares e numa segunda fase passou a biblioteca itinerante. A intenção de fazer algo mais foi materializada com o trabalho desenvolvido junto da população, sobretudo sénior, exemplificado através do vídeo apresentado sobre o fabrico artesanal de pão em Barroso.

Cidália Pacheco, da Biblioteca Municipal de S. Brás de Alportel. Foto: mediotejo.net

Cidália Pacheco também apresentou as atividades desenvolvidas nas viagens com a carrinha que a leva pela serra ao encontro da população idosa, permitindo a recolha de testemunhos e perpetuando o património imaterial associado aos costumes e tradições populares que correm o risco de desaparecer caso não sejam registados. As escolas também fazem parte do itinerário e, em alguns casos, vai de porta a porta ou mesmo dentro de casa, ao encontro dos leitores interessados quando o estado de saúde não lhes permite sair.

A última oradora da tarde, Maria do Rosário Pestana, fez uma apresentação mais académica, focada nas metodologias de recolha etnográfica. À semelhança dos restantes intervenientes, salientou o papel central das pessoas e a riqueza das suas memórias para o fortalecimento da identidade territorial, acrescentado que estas devem ser registadas e transmitidas com envolvimento pessoal, ou seja, não apenas como mera recolha e catalogação de dados.

Em suma, as bibliomóveis, além de levarem livros com diversos temas à população, alguns associados ao património imaterial, podem afirmar-se elas próprias como veículos de perpetuação dos traços identitários de cada local ou região. O contacto direto com as populações nos lugares mais remotos permite a recolha de pormenores únicos, fixados nas memórias de quem os viveu e ainda pode contar na primeira pessoa.

Maria do Rosário Pestana, da Universidade de Aveiro. Foto: mediotejo.net

Um contributo fundamental corroborado por Luís Marques, para quem as pessoas são um “património vivo” e o património imaterial apenas “tem vida quando as pessoas o expressam dai que esteja mais em risco, tenha de ser mais compreendido e mais salvaguardado”. Nas suas declarações ao mediotejo.net durante a iniciativa também foi destacado o papel das bibliomóveis na preservação deste património.

Segundo o presidente da PCI, as bibliomóveis “já não estão a fazer apenas o empréstimo domiciliário”, assumindo-se também como “intervenientes relativamente à cultura local”. As suas viagens permitem a recolha das “tradições locais, ao falar com as pessoas que são as únicas guardiãs, as memórias vivas daquele património e que, uma vez desaparecidas, deixa de ter registo”.

Luís Marques apontou o muito que está por “conhecer e, sobretudo, por valorizar” e a forma como a PCI procurou através desta mesa-redonda “ajudar a compreender, por um lado, o trabalho inestimável que as bibliomóveis fazem e, por outro, o que estão a acrescentar e devia ser mais reconhecido como auxiliares na defesa do património cultural e imaterial em Portugal”.

A importância deste trabalho para as gerações vindouras foi, igualmente, destacado ao referir que “se nós quisermos reconhecer-nos enquanto portugueses temos que reconhecer a importância desta cultura e destes patrimónios locais e a sua diversidade”. Os testemunhos recolhidos permite, nas suas palavras, “projetar para o futuro essa mesma cultura pois sem eles criaríamos aqui um hiato, um vazio que não tem sido, nem será, preenchido apenas pela intervenção escrita, nomeadamente dos mais literatos”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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