Constância pede apoios ao governo para abrir Casa "digna da Memória de Camões". Foto: mediotejo.net

“Nós, neste momento, temos uma Casa Memória construída e a única coisa que falta é dotá-la de recursos financeiros e humanos para poder funcionar de forma permanente”, disse no dia 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões, e das Comunidades Portuguesas, o presidente da Câmara, Sérgio Oliveira (PS), tendo feito notar que, “sozinhas, a autarquia e as entidades locais não conseguem”.

Constância assinalou os 500 anos do nascimento de Camões com a deposição de uma coroa de flores junto à estátua do poeta e uma recriação histórica no âmbito das Pomonas Camonianas, com o parque de merendas, situado na zona ribeirinha, transformado num imenso mercado quinhentista, retratando a época em que viveu o poeta, envolvendo a população, a comunidade escolar e as associações do concelho.

Com o mote ‘Camões em Constância, 5 Séculos, 5 Dias’, o município construiu um programa comemorativo com a comunidade, tendo o autarca lembrado que “Constância tem com Camões uma muito antiga e arraigada relação de afeto, fundada na plurissecular tradição de que o épico terá vivido na vila durante algum tempo”, tendo ali “escrito parte da sua produção poética”.

“Estas comemorações de Camões permitiram reafirmar Constância como a terra mais Camoniana de Portugal, e projetar o nosso Concelho a nível nacional e internacional”, afirmou Sérgio Oliveira, tendo reivindicado apoios do governo de modo a se conseguir a “abertura permanente” da Casa Memória.

Casa Memória de Camões foi edificada sobre as ruínas da habitação onde terá estado Luís Vaz de Camões. Foto: Ricardo Escada

“No dia em que o projeto de Camões em Constância esteja completo, ou, melhor dizendo, reafirmado, porque o projeto de Camões é dinâmico e nunca estará fechado, a afirmação do Concelho será muito maior. E o reafirmar deste projeto faz-se com a abertura de forma permanente da Casa Memória de Camões. No dia em que esta concretização se realize Constância passará a ser o Centro Nacional e Internacional para o estudo a aprofundamento de Camões”, vincou o autarca.

Sérgio Oliveira, presidente CM Constância. Foto: mediotejo.net
ÁUDIO | SÉRGIO OLIVEIRA, PRESIDENTE CM CONSTÂNCIA

A Casa Memória de Camões começou a ser pensada e construída há 50 anos, mas até hoje nunca foi aberta ao público e aos turistas, com atividades regulares, a exemplo do que sucede em outros países, com outras figuras históricas, como em Espanha, onde há a Casa Cervantes, ou em Inglaterra, com a Casa Shakespeare, o que Sérgio Oliveira lamenta.

“Portugal parece que não tem uma Casa de Camões. Mas ela existe. Está aqui, em Constância, a terra mais camoniana de Portugal”, vincou o autarca, tendo referido que a mesma não funciona na sua plenitude sem os apoios e um “olhar especial” por parte da tutela.

Sobre as ruínas que o povo aponta como tendo sido as da casa que o acolheu, foi erguida a Casa-Memória de Camões para perpetuar a memória do poeta à vila ribatejana.

Em Constância, existem ainda o Monumento a Camões do mestre Lagoa Henriques e o Jardim-Horto Camoniano, desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, que apresenta a maior parte das plantas referidas por Camões na sua obra e é considerado um dos mais vivos e singulares monumentos erguidos no mundo a um poeta.

Sérgio Oliveira disse que “a Casa Memória de Camões funciona de forma esporádica, com exposições ou marcações prévias para visitar”, mas com poucos conteúdos.

“Teria todo o significado que o Ministério da Cultura tivesse aqui um olhar especial e que fosse desta vez, quando se assinalam os 500 anos do nascimento de Camões, que esta casa fosse dotada daquilo que é fundamental para estar a funcionar”, com abertura diária, a par de atividades regulares de estudo e investigação, defendeu.

“Somos dos poucos países que não tem uma casa dedicada a Camões e ao estudo da vida e obra”, notou o autarca, tendo afirmado que já procurou “sensibilizar” a atual Ministra da Cultura para dotar a Casa dos conteúdos necessários, recursos humanos e financeiros, para fazer da Casa Memória uma casa de estudo, pois a seu ver é “difícil haver terra que comemore Camões como Constância” o faz.

Máximo Ferreira, presidente da direção da Associação Casa Memória de Camões, lembrou que a Casa já existe e que “falta pouca coisa” para funcionar a 100% “e, ao mesmo tempo, muita coisa”. O “essencial é vontade” por parte dos decisores políticos, notou.

Máximo Ferreira, presidente da direção da Associação Casa Memória de Camões. Foto: mediotejo.net
ÁUDIO | MÁXIMO FERREIRA, PRESIDENTE ASSOCIAÇÃO CASA MEMÓRIA CAMÕES:

À semelhança de Olga Antunes e Máximo Ferreira, diretora do Agrupamento de Escolas e presidente da Casa Memória, respetivamente, Sérgio Oliveira destacou a forma como o trabalho conjunto das três entidades organizadoras projeta, “para fora dos muros do concelho, a ideia convicta de que Camões esteve em Constância” e reforça os motivos para que o concelho receba mais visitantes.

Uma ideia que, defende, “devia ser partilhada e estimulada pelo Governo com o reconhecimento e financiamento” da Casa Memória.

Constância, a terra mais camoniana de Portugal

No seu discurso, Sérgio Oliveira falou de Camões, da Casa Memória, da cultura camoniana e da envolvência de toda uma comunidade para sustentar que estas comemorações permitiram reafirmar Constância como a terra mais Camoniana de Portugal, e projetar o concelho a nível nacional e internacional.

Sérgio Oliveira, presidente CM Constância. Foto: mediotejo.net

Mas o autarca foi mais longe e falou também da conjuntura política nacional e internacional, num discurso que aqui reproduzimos, na íntegra:

“Hoje celebramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Um dia com um significado enorme para todos nós que somos Portugueses, mas com um significado ainda mais especial e vincado na nossa terra, onde celebramos Camões há várias décadas.
Por estes dias, as nossas intervenções repetiram-se na reafirmação da ligação do nosso Concelho ao poeta maior do nosso País – Camões. (…) Se duvidas existissem, com estes dias de Festa que tiveram início na passada quinta-feira, as mesmas seriam dissipadas.
Relativamente à Festa de Camões, às Pomonas Camonianas, ou ‘5 Séculos, 5 dias’ quero apenas reiterar que um Concelho pequeno como o nosso conseguiu realizar estas comemorações com uma envolvência da comunidade, com atividades e iniciativas de uma qualidade irrepreensível.
E por este motivo estamos todos de parabéns! Constância, um dos Concelho mais pequenos do País, conseguiu por de pé uma Festa de Camões ao nível dos grandes centros urbanos onde os recursos humanos, financeiros e a massa cinzenta, no sentido da investigação científica e académica, abunda.
Estes parabéns não são da Câmara, não são do Agrupamento de Escolas, não são da Associação da Casa Memória, são da nossa comunidade como um todo.
Estas comemorações de Camões permitiram reafirmar Constância como a terra mais Camoniana de Portugal, e projetar o nosso Concelho a nível nacional e internacional. Partilho com todos que ontem, por mero acaso, cruzei-me com um grupo aproximadamente de 50 franceses, dirigi-me ao guia, apresentei-me e perguntei quem eram e ao que vinham. E o guia foi claro: viemos visitar Constância e vamos almoçar aqui.
Criar a robustez e a afirmação de um território como o nosso, nos vários sectores estratégicos, leva tempo. Não é algo que se consiga fazer de um dia para o outro.
Temos a profunda convicção que, se a Praia Fluvial veio alterar a face do Concelho, na sua projeção, no seu dinamismo, na sua atratividade, mas também na autoestima das nossas populações, muito mais convicção temos que, no dia em que o projeto de Camões em Constância esteja completo, ou, melhor dizendo, reafirmado, porque o projeto de Camões é dinâmico e nunca estará fechado, a afirmação do Concelho será muito maior. E o reafirmar deste projeto faz-se com a abertura de forma permanente da Casa Memória de Camões. No dia em que esta concretização se realize Constância passará a ser o Centro Nacional e Internacional para o estudo a aprofundamento de Camões.
Portugal é umas das nações mais antigas da Europa e do Mundo, com uma história e património riquíssimo. Fomos e somos uma Nação de homens e mulheres destemidos e corajosos.
Basta lembrar o período dos Descobrimentos em que Portugal, e, como refere Camões nos Lusíadas, entrou por mares nunca dantes navegados. Descobrindo novos territórios e novos Povos. Um País que conheceu a Monarquia, desta mudou para uma República, e dentro desta conheceu uma Ditadura, que caiu e que deu lugar à nossa democracia atual. Um País que soube sempre dar a volta, resistir, reinventar-se, seguir caminho. Devemos ter muito orgulho em sermos Portugueses.
Mas permitam-me que no dia de hoje deixe algumas reflexões de âmbito Nacional e Internacional que nos preocupam e que tem influência direta na vida do nosso Concelho.
Umas destas reflexões é a excessiva burocratização da administração pública. É urgente reformar os processos e os procedimentos dentro da administração pública, tornando-os mais simples, mais intuitivos, mais próximos dos cidadãos e que permitam (…) dar resposta atempada e célere aos cidadãos.
A nível dos recursos humanos, também na administração pública, é urgente rever as carreiras (…) sob pena que, daqui a muito pouco tempo, não seja possível contratar mão de obra qualificada como eletricistas, carpinteiros, pedreiros, canalizadores, motoristas, etc. A integração destas profissões qualificadas nas carreiras gerais da administração pública foi um erro e tem que ser corrigido o mais rapidamente possível. A nível dos instrumentos de ordenamento do território, as limitações criadas nos últimos anos são castradoras do desenvolvimento dos territórios. O regime inflexível e fechado da REN (Reserva Ecológica Nacional) algumas vezes deita por terra investimentos privados importantes e diferenciadores para Concelhos como o nosso. A coesão territorial, a velha dicotomia Litoral – Interior, em vez de melhorar e esbater-se, na nossa ótica, o fosso tem se aprofundado ainda mais.
Não posso também de deixar a reflexão sobre os cuidados de saúde primários, a falta de médicos e a não existência de perspetiva de resolução rápida deste flagelo. Não conseguimos entender porque razão a decisão de contratar médicos aposentados não está delegada nas Unidades Locais de Saúde, porque razão depende de uma autorização da secretaria de Estado ou do diretor executivo do SNS ou, em ultima instância, de aderirmos ao projeto Bata Branca. Percebíamos esta concentração se estivéssemos a viver tempos de normalidade neste setor.
No âmbito internacional a guerra na Ucrânia, que se arrasta no tempo e que pode conduzir-nos a uma escalada de guerra incontrolável, podendo significar uma 3.º Guerra Mundial.
O massacre que acontece em Gaza, uma resposta Israelita desproporcional ao que aconteceu no início de outubro. Também no Médio Oriente estamos perante um barril de pólvora que pode rebentar a qualquer momento, arrastando também a Europa para um conflito.
E tudo isto com implicações difíceis de aceitar, como a perda de vidas humanas inocentes, crianças órfãs, aumento generalizado de preços e agravamento das condições de vida da população a nível mundial.
Por outro lado, enquanto a comunidade internacional está focada nestes dois conflitos, em África propaga-se a fome, a subnutrição das populações, os conflitos regionais incentivados por potências estrangeiras em que o único objetivo é o aproveitamento dos recursos naturais desses países.
Parece que os problemas do continente africano desapareceram das agendas, o que leva mais uma vez ao sofrimento de um conjunto de povos que nunca souberam o que é a paz e viver em harmonia.
É, pois, preciso promover o diálogo entre os Povos, tendo sempre como linha vermelha a defesa intransigente de democracias plurais, da defesa dos direitos fundamentais, com especial ênfase para os direitos, liberdade e garantias.
A par destas situações o reflorescimento de movimentos saudosistas um pouco por todo o mundo, tratando-se quase de uma contra-reforma, são uma ameaça aos valores essências da tolerância, do respeito e, em ultima instância, da democracia.
E isto tudo para vos dizer que estes fatores podem ser a quilómetros de distância de Constância, mas que, num mundo globalizado, os efeitos e as consequências dos mesmos chegam cá, seja de forma individual e às famílias, seja na vida das Instituições.
Vou terminar como comecei: Constância é a terra mais Camoniana de Portugal! Estamos todos de parabéns por estes cinco dias de festa! Viva a Camões! Viva ao Concelho de Constância!, Viva a Portugal!”

*Com Lusa.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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