A venda da antiga unidade industrial da Tupperware, em Montalvo, no concelho de Constância, voltou a ficar sem desfecho esta quarta-feira, 14 de outubro, depois de nenhuma das propostas apresentadas em leilão ter atingido os valores definidos pela comissão de credores. O processo, conduzido pela leiloeira Avalibérica, terminou sem adjudicação, ficando as ofertas sujeitas a uma nova apreciação.
O leilão arrancou pelas 15h00, com um preço base de 10 milhões de euros para a venda da fábrica na sua totalidade, incluindo imóveis, máquinas e equipamentos. A melhor proposta apresentada nesta primeira fase atingiu os 3,8 milhões de euros, mas foi recusada pela comissão de credores.
Seguiu-se uma segunda fase, destinada à venda separada dos bens imóveis e móveis. Pelos imóveis, colocados à venda por 5,4 milhões de euros, foi apresentada uma oferta de 2,5 milhões. Já os equipamentos e restantes bens móveis, com um preço base de 4,5 milhões, receberam uma proposta de 1,2 milhões de euros. Nenhuma foi aceite.
O leilão avançou então para a venda dos ativos lote a lote, mas as ofertas continuaram abaixo dos valores pretendidos. Perante este cenário, a comissão de credores decidiu interromper os trabalhos e remeter as propostas para reapreciação posterior, ficando em aberto a possibilidade de aceitação de alguma das ofertas ou de realização de um novo leilão.

Em declarações à agência Lusa, o administrador da insolvência, Jorge Calvete, reconheceu que o resultado ficou aquém das expectativas, uma vez que “não foram atingidos os valores pretendidos pela comissão de credores”.
O responsável admitiu, contudo, que a proposta de 3,8 milhões de euros pela totalidade da unidade industrial poderá voltar a ser analisada, tendo em conta que as ofertas separadas pelos imóveis e pelos equipamentos somaram apenas 3,7 milhões de euros.
Quanto à terceira fase do leilão, explicou que os valores oferecidos pelos primeiros lotes rondavam apenas “cerca de 25%” dos preços-base, apontando para uma receita global inferior à proposta anteriormente apresentada pelo conjunto dos bens móveis.
Jorge Calvete atribuiu as dificuldades na venda à antiguidade dos equipamentos industriais e à sua menor eficiência energética, observando que os apoios europeus ao investimento tornam mais atrativa a aquisição de maquinaria nova.
“Já se percebe que os valores de avaliação e pretendidos pelos trabalhadores não estão de acordo com o que efetivamente é o valor da unidade. Estamos longe”, afirmou o administrador da insolvência.

Nova tentativa de venda depois de propostas insuficientes em abril
O resultado do leilão constitui um novo impasse num processo de venda que se arrasta desde 2025.
Em outubro do ano passado a fábrica foi colocada no mercado por um valor mínimo de 10 milhões de euros, numa operação promovida pela consultora KPMG, que previa a alienação conjunta dos edifícios, terrenos, máquinas e equipamentos.
Na altura, a avaliação do complexo industrial situava-se nos 8,59 milhões de euros, embora o valor mínimo exigido para a venda tivesse sido fixado em 10 milhões.
Em abril deste ano, terminou sem sucesso uma primeira fase de apresentação de propostas, depois de nenhuma oferta ter atingido o montante pretendido. O administrador da insolvência anunciou então que a promoção da venda iria prosseguir.
A alienação dos ativos é particularmente relevante para os antigos trabalhadores, que constituem os principais credores do processo de insolvência.

Segundo os dados divulgados em outubro de 2025 e então noticiados pelo mediotejo.net, a dívida laboral reconhecida ascendia a cerca de 9,07 milhões de euros, num passivo global de 11,47 milhões. Na ocasião, cerca de um terço dos créditos laborais já tinha sido assegurado através do Fundo de Garantia Salarial.
Mais de quatro décadas de atividade e 200 trabalhadores despedidos
A fábrica da Tupperware instalou-se em Montalvo em 1980, tornando-se uma das principais unidades empregadoras do concelho de Constância e uma referência da atividade industrial na região do Médio Tejo.
A empresa, que chegou a empregar cerca de 260 trabalhadores, atravessou um período de dificuldades na sequência da crise financeira da multinacional norte-americana, que avançou com um processo de falência nos Estados Unidos em setembro de 2024.
O encerramento da unidade portuguesa foi anunciado em dezembro desse ano, tendo a produção cessado em janeiro de 2025. A empresa foi declarada insolvente em 10 de fevereiro, seguindo-se o despedimento de cerca de 200 trabalhadores, muitos dos quais com várias décadas de ligação à fábrica.
O fecho teve um impacto particularmente significativo em Montalvo, onde residiam muitos dos funcionários e onde a unidade industrial era, há mais de quatro décadas, uma importante fonte de emprego.
Na altura, o presidente da Câmara de Constância, Sérgio Oliveira, classificou o encerramento como uma notícia triste para o concelho e para a região, manifestando a expectativa de que as instalações pudessem vir a acolher uma nova atividade industrial, capaz de gerar emprego e riqueza.
Essa expectativa mantém-se sem concretização, numa altura em que a venda dos ativos continua dependente de uma decisão da comissão de credores, maioritariamente constituída por representantes dos trabalhadores.
*c/Lusa
