A música dos sinos vai voltar a ecoar em Constância, Leiria e Mafra entre 31 de julho e 9 de agosto, na 10.ª edição do Festival Internacional do Carrilhão e do Órgão (FICOC), evento promovido pelo Centro Internacional do Carrilhão e do Órgão (CICO), sediado em Constância, que ao longo da última década tem procurado retirar o carrilhão das torres das igrejas e levá-lo até junto das pessoas.
Para Ana Elias, diretora artística do festival, os resultados desse trabalho começam agora a ser visíveis.
“Este ano, finalmente, as coisas começaram a rolar como nós idealizámos há 11 anos”, afirmou ao mediotejo.net, apontando o aumento da procura por concertos do carrilhão itinerante LVSITANVS como um sinal da crescente afirmação desta expressão musical em Portugal.
Segundo a responsável, o festival nasceu na sequência do projeto iniciado com a chegada do carrilhão itinerante a Portugal, em 2015, tendo como principal objetivo aproximar esta arte de novos públicos.
“Quisemos tirar o carrilhão das torres das igrejas e trazê-lo até aos públicos, mostrando que é um instrumento que toca todo o tipo de música”, afirmou.

Hoje, onze anos depois, o LVSITANVS percorre regularmente o país e, segundo Ana Elias, é atualmente “o maior carrilhão itinerante do mundo”. Instalado sobre um camião-palco, é composto por 63 sinos de bronze e foi concebido para atuar em praças, jardins, anfiteatros e outros espaços públicos, levando a música do carrilhão a locais onde este instrumento dificilmente chegaria de outra forma.

O FICOC assinala este ano a sua décima edição com um programa que integra concertos de carrilhão e órgão, ações de formação e provas públicas dos alunos da Escola de Música da CICO, mantendo a aposta na divulgação daqueles instrumentos e na formação de novos intérpretes.
A principal novidade surge logo na abertura do festival, na sexta-feira à noite, no Anfiteatro dos Rios, em Constância, onde o espetáculo “Estrelas Emergentes” junta o carrilhão LVSITANVS, faixas sonoras pré-gravadas e alunos da Escola de Música da CICO, num programa que cruza música pop e rock com a sonoridade do carrilhão.
“Decidimos incluir os alunos num concerto de destaque porque estão muito bem preparados. É um espetáculo completamente diferente este ano”, explicou Ana Elias.
O cartaz inclui ainda um concerto do organista João Santos, na Igreja Matriz de Constância, dedicado ao órgão histórico português, bem como duas atuações do carrilhanista norte-americano Liam Flood, em Montalvo e na Torre da Sé de Leiria.
A componente pedagógica volta igualmente a assumir um lugar central na programação. No Parque Ambiental de Santa Margarida da Coutada realizam-se os exames-recital de três alunos da Escola de Música da CICO, perante um júri internacional que integra especialistas da Escola Real de Carrilhão da Bélgica.

Segundo Ana Elias, existem atualmente apenas três carrilhanistas portugueses no ativo, mas a escola começa já a formar uma nova geração. Entre os alunos destaca uma jovem que irá realizar este ano o exame do quinto grau, considerando que reúne condições para assegurar, no futuro, a continuidade desta arte em Portugal.
A responsável reconhece que a décima edição acabou por ser preparada com menos antecedência do que pretendia, devido à intensa atividade do LVSITANVS ao longo de 2026.
“Foi um ano extraordinário em termos de concertos. Tivemos tantos convites que fomos obrigados a adiar o festival uma semana”, explicou, acrescentando que a agenda do carrilhão está praticamente preenchida até ao final do verão e já existem atuações marcadas para dezembro.

Apesar das dificuldades, Ana Elias garante que o objetivo é continuar a consolidar o projeto. “Conseguimos chegar à décima edição e tudo faremos para continuar, para estarmos aqui na 20.ª e na 30.ª edição”, afirmou.
Um sonho que continua a ecoar
A história do FICOC confunde-se com a da família Elias. O projeto começou a ganhar forma no final da década de 1990, quando as irmãs Ana e Sara Elias, então estudantes de carrilhão na Bélgica, imaginaram criar em Portugal um carrilhão itinerante que permitisse levar esta música para fora das torres das igrejas e aproximá-la das pessoas.
O pai, Alberto Elias, engenheiro mecânico natural de Tramagal, transformou esse sonho num projeto de vida. Após vários anos de trabalho, candidaturas e procura de financiamento, o carrilhão LVSITANVS foi construído na Holanda e chegou a Portugal em maio de 2015, representando um investimento de cerca de 350 mil euros.
Desde então percorre o país instalado num camião-palco, tornando-se um dos mais singulares projetos culturais portugueses dedicados à divulgação da arte do carrilhão.

Falecido em outubro de 2022, Alberto Elias continua a ser uma figura central do festival. A edição deste ano volta a incluir uma homenagem ao fundador do CICO, marcada para a manhã de domingo, 2 de agosto, junto à sua sepultura, no cemitério de Tramagal, seguindo-se depois a deslocação do carrilhão para o Parque Ambiental de Santa Margarida da Coutada.
Enquanto Ana Elias se dedica atualmente a tempo inteiro ao projeto sediado em Constância, a irmã Sara Elias prossegue a sua carreira académica no Canadá, onde é professora universitária na área do empreendedorismo das artes. Apesar de manter ligação ao CICO, este ano não poderá participar no festival por motivos profissionais.

Criado inicialmente como Festival Internacional do Carrilhão e do Órgão de Constância, o FICOC foi alargando progressivamente o seu âmbito territorial e envolve atualmente também Leiria e Mafra, mantendo a ambição de afirmar Portugal como um dos polos internacionais de divulgação desta arte musical.
A programação decorre até 9 de agosto, com entrada livre, repartindo-se entre Constância, Montalvo, Santa Margarida da Coutada, Leiria e Mafra.
O programa completo do FICOC pode ser consultado em www.cico.pt/actividades.

