António Matias Coelho, presidente da Casa-Memória de Camões, cumprimenta o poeta Nuno Garcia Lopes, distinguido com menção honrosa nas duas edições já realizadas do Prémio Literário do Médio Tejo. Foto: Zé Paulo Marques

Foi uma tarde de emoções à flor da pele, como convém quando falamos de poesia. Na quinta-feira, 20 de junho, o auditório da Casa-Memória de Camões, em Constância, encheu-se para conhecer as obras poéticas distinguidas no Prémio Literário do Médio Tejo 2018, celebrando a força das palavras e a capacidade que têm de nos emocionar e transformar.

António Matias Coelho (de pé) apresentou as obras de Martinho Branco e Nuno Garcia Lopes, com a diretora editorial da Médio Tejo Edições, Patrícia Fonseca. Foto: Zé Paulo Marques

António Matias Coelho, presidente da Associação Casa-Memória de Camões e membro do júri do Prémio Literário do Médio Tejo desde a primeira edição, em 2017, apresentou “O homem que tirava retratos”, de Martinho Branco (vencedor) e “arremedilho aos homens minúsculos”, de Nuno Garcia Lopes (menção honrosa), destacando a extraordinária capacidade criativa destes poetas.

A conversa entre os escritores e muitas figuras do mundo cultural e político da região prolongou-se até ao crepúsculo, à beira Tejo, ao som da música de Adolfo Carlos Mendes (guitarra) e Rafael Umbelino (bandolim), o Duo Outrora.

Duo Outrora, em Constância. Foto: Zé Paulo Marques

“O homem que tirava retratos”, de Martinho Branco, foi o primeiro livro a ser apresentado por António Matias Coelho, que começou por referir o facto de este poeta ser um dos pioneiros da corrente Poetrix em Portugal e muito ligado, nos últimos 15 anos, ao movimento criado na Baía pelo brasileiro Goulart Gomes. “Martinho Branco tem-se destacado nesta forma poética minimalista, nesta arte de despertar fortes emoções com poucas palavras, e é uma figura muito prezada no Brasil, como se pode constatar também pelos testemunhos publicados no final do livro”, referiu Matias Coelho.

Natural de Riachos, em Torres Novas, o poeta Martinho Branco reside no Entroncamento e é professor na Escola EB1 de Azinhaga, na Golegã. Foto: Zé Paulo Marques

“Este é o livro muito plural, no sentido em que tem poesia de diversos tipos, além do Poetrix há também poesia que se aproxima mais da dita poesia convencional, e tem depois também várias composições da chamada poesia visual, ou imagética. É onde mais nos surpreende, brincando com as palavras, e não apenas com o som e o sentido das palavras, mas também com a forma, e usa essas palavras para compor os seus retratos”, considerou.

“O primeiro interlocutor da palavra é a objectiva do olhar”, lembra o professor torrejano António Mário Santos no prefácio do livro agora publicado, também ele um texto-quase-poema, como referiu Matias Coelho.

 

 

“Martinho Branco é um mestre da palavra, e um mestre a surpreender-nos com o que é possível fazer com as palavras”, concluiu o presidente da Casa-Memória de Camões, que descreveu ainda a obra como sendo “o livro de um homem muito sensível”, por onde perpassam uma série de emoções. “Fala-nos de amor e da natureza, chama a atenção para causas sociais, fazendo por exemplo a denúncia do analfabetismo, da exploração, da pobreza. Fala-nos também da ‘cidade que se esquece de ser feliz’, na correria dos dias. É portanto um livro de preocupações, de inquietações, de revoltas também.”

Seguindo essa matriz de pensamento, Martinho Branco fez uso da palavra para agradecer: à editora, por “valorizar” os textos criando livros que se destacam pela diferença e por promover os seus autores em várias iniciativas, como sucedeu na semana passada na Feira do Livro de Lisboa; aos inúmeros familiares e amigos que o ajudaram no seu percurso de escritor, ao longo dos anos; e aos seus alunos, crianças e adultos que ensinou a ler e escrever, de quem recebeu grandes ensinamentos.

Nuno Garcia Lopes, de Tomar, usa a poesia como uma forma de intervenção na sociedade. Foto: Zé Paulo Marques

Nuno Garcia Lopes, natural de Linhaceira, em Tomar, recuperou para os nossos dias o “arremedilho”, um tipo de representação satírica medieval, para construir um brilhante trabalho crítico daqueles que mais poder têm no mundo, e de como nos querem manter ordeiros e previsíveis, como “formigas no carreiro”.

O livro que a Médio Tejo Edições agora publica (como sempre com o design de Paulo Passos/Naperon), segue o espírito do texto, fugindo à norma. Tem um formato mais pequeno (“minúsculo”), e as folhas não são coladas ou cosidas a uma lombada mas presas por um parafuso, e a percorrer as páginas há… formigas.“Só um grande poeta, só alguém que olha de alto o andar do formigueiro, é que poderia fazer uma maravilha como esta, que é uma reflexão sobre os comportamentos humanos, que é uma acutilante crítica social e que é, como a Patrícia Fonseca classificou, ‘poesia de intervenção’.” O Nuno Garcia Lopes, concluiu Matias Coelho, “é, inquestionavelmente, um grande poeta – um poeta maiúsculo – e nós ficamos à espera de mais pequenas-grandes realizações poéticas suas”.

Nuno Garcia Lopes agradeceu as palavras e explicou que recebeu a menção honrosa como um primeiro prémio, uma vez que a sua obra acabou por ser publicada. “Só” não recebeu o prémio monetário (500 euros) reservado ao primeiro lugar, mas, destacou, passou a fazer parte do grupo de escritores revelados por este Prémio Literário, uma iniciativa que o entusiasmou desde a sua criação por procurar “valorizar e aglutinar” os talentos da região.

O auditório da Casa-Memória de Camões, em Constância, encheu-se para conhecer a nova poesia destes autores. Foto: Zé Paulo Marques

O Prémio Literário do Médio Tejo, uma iniciativa da Médio Tejo Edições com o apoio do TorreShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, premiou em 2017 as obras “20 poemas de dores e amores”, de António Lúcio Vieira (Poesia), “na massa do sangue”, de Evelina Gaspar (Romance) e “O Arneiro – 100 anos depois da Guerra”, de Paulo Jorge de Sousa (Não-Ficção).

Em 2018, além de Martinho Branco e Nuno Garcia Lopes, na Poesia, foram distinguidas as obras de Não-Ficção “A Árvore Cantante”, de Paulo Alves (vencedor), e “Os carvoeiros do Pego”, de Joaquim Santos (menção honrosa). O júri entendeu não atribuir, em 2018, o prémio de Romance.

As candidaturas para a 3ª edição do Prémio Literário do Médio Tejo abriram no início de maio e decorrem até 28 de junho de 2019. Os vencedores recebem 500 euros e veem a sua obra publicada e divulgada a nível nacional. O regulamento pode ser consultado aqui.

O júri é composto por Patrícia Reis, escritora premiada com 12 romances publicados na D. Quixote, CEO do Atelier 004 e editora da revista Egoísta; António Matias Coelho, historiador, consultor cultural e presidente da Associação Casa-Memória de Camões, em Constância; Margarida Teodora, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, de Torres Novas; e Patrícia Fonseca, diretora editorial da Médio Tejo Edições (que publica também o mediotejo.net) e jornalista da revista Visão.

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