Com a calma dos saberes antigos, Sardoal esteve a cortar, limpar e a tocar cana rachada. Foto: mediotejo.net

No Ribatejo estão à mão de semear, de preferência em canaviais próximos de cursos de água. Os mestres estão certos que só essas dão boas canas rachadas. Talvez antes de tocar, tenham voz, dizendo ao tocador, no adejar das folhas ao vento, quais as que dão mais jeito para serem tocadas. Mas uma coisa é garantida: A boa irrigação dá canas mais fortes e resistentes. Há também uma altura mais propícia para apanhar a cana: quando não está nem muito seca nem muito verde. No meio-termo é que está a virtude.

Cana rachada, caninha ou castanhola de cana rachada, é um instrumento tradicional português tocado na região da Lezíria Ribatejana, e outras regiões do país, para acompanhar ritmos e danças. Para o fabricar basta um canavial, uma simples navalha, engenho e arte para saber cortar e manusear. Um golpe até ao primeiro nó, com cerca de 20 centímetros, um recorte no meio entre o primeiro e o segundo nó da cana, que terá no total uns 30 centímetros, por fim polir as extremidades. Na base pode colocar-se um pedaço de cortiça arredondada polida, para não magoar a mão e depois é fazer vibrar a cana.

VÍDEO: WORKSHOP DE CANA RACHADA:

Um instrumento fácil de fazer mas mais difícil de manusear que requer alguma prática. Miguel Ouro, Vitor Rosa, Nuno Almeida e Jorge Santos, da Trupe da Cana Rachada, da Terra Velhinha, estiveram em Sardoal para a ensinar a construção do instrumento e também a aprendizagem para o tocar, terminando a oficina com uma tocata musical, com os sardoalenses que arriscaram praticar.

O Ribatejo continua a ter tocadores de cana rachada que se destacam, nomeadamente em Azambuja. Miguel Ouro é dos executantes deste instrumento artesanal e explica que contrariamente a outras regiões do país, o Ribatejo ainda apresenta “os melhores tocadores e temos aproveitado essa faceta”.

O responsável da associação Terra Velhinha, com múltiplos projetos, conta ser interessado “por estas artes antigas, etnografia, folclore, etc. Comecei a aprender desde novo a tocar os harmónios, cavaquinho, a cantar o fado. Depois fui andando pela investigação e pesquisa destas artes antigas e desta música. Isto também advém da minha atividade como animador cultural. Recolhemos, fazemos a investigação, preservamos, comunicamos e depois recriamos para as pessoas terem também acesso a estas artes”.

Sendo um instrumento de percussão, situa-se no índice 11. no sistema Hornbostel-Sachs de classificação de instrumentos musicais, como um idiofone. Mas existem em Portugal outros instrumentos de cana tradicionais, como o reque-reque, um idiofone fricativo que consta esquematicamente de um pau dentado, ou o cartaxinho. Os idiofones percutidos são postos em vibração por um golpe ou batida. Em Sardoal, a cana ao lado de outros instrumentos também de percussão, como os potes ou os tambores, que ajudam a acompanhar os instrumentos melódicos do folclore.

Miguel Ouro do grupo Terra Velhinha, em Sardoal na dinamização da “Oficina da Cana Rachada”, instrumento musical tradicional do Ribatejo. Créditos: mediotejo.net

“Estes instrumentos antigos, sobretudo quando apareceram nos grupos de folclore como ode aos utensílios do povo antigo, simboliza que as pessoas, de qualquer instrumento que tivessem à mão, faziam som. Por exemplo, num almoço, numa festa, as garrafas a bater com o garfo servem de ferrinhos. Como não havia nada, não tinham acesso a nada, era da própria natureza que fabricaram os seus instrumentos”, refere Miguel Ouro dizendo não ter ido a Sardoal um instrumento “primordial” no folclore português: a gaita de beiços.

Um pequeno instrumento que cabe num bolso e que “o pastor tocava, como podia ir à taberna e tocar, como podia estar na ‘sesta’ do trabalho e tocar e portanto, esses contextos lúdicos acontecem muito porque havia a gaita de beiços e também o canto, que por si só dá para as pessoas circularem e fazerem uma roda. Como não havia telefones, nem telemóveis nem nada disso as pessoas inventavam um sem número de coisas para se poderem divertir. E nós com tanta informação e tecnologia estamos a precisar de nos divertirmos outra vez de forma simples como as crianças. Adultos que somos crianças que fomos”, acrescenta.

Falando de artes antigas e dos quotidianos do folclore popular, a Trupe explicou que a origem está em Espanha, na zona de Huelva, por isso na Beira Interior chamam-lhe castanhola de cana, devido ao som que emite, aliás, como é sabido, são algumas as influências espanholas no folclore ribatejano, desde logo no fandango. Na cana, são várias as formas de a tocar. No Ribatejo os tocadores aplicam a técnica da “conchinha”, fechando a mão, sabendo que cada cana oferece um som próprio.

Miguel Ouro conta que a adesão do público a estas oficinas é “sempre muito boa”. E não só de portugueses. “Os estrangeiros têm grande interesse por este instrumento. Recordo que uma vez no Algarve deixámos de ter canas e tivemos de ir a um canavial para fazer canas rachadas e vendemos a 10 euros cada uma. Esta é a oficina que fazemos mais. A cana salta à vista, há uma paixão imediata, tem um fascínio no toque dobrado que ela faz e as pessoas podem logo participar”.

O grupo Terra Velhinha em Sardoal na dinamização da “Oficina da Cana Rachada”, instrumento musical tradicional do Ribatejo. Créditos: mediotejo.net

E, na passada sexta-feira, 9 de maio, Sardoal ficou a conhecer melhor este secular instrumento de percussão feito a partir de uma comum cana selvagem, com os construtores e tocadores a mostrarem, com a calma dos saberes antigos, como se corta, limpa e prepara este artefacto de sonoridade idêntica à das chamadas castanholas.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

Leave a Reply