Há coisas simples, rotineiras e quotidianas que têm a importância que têm mas que me irritam profundamente. E que fique claro, não me estou a referir nem a governos, nem a políticos, nem à política. Refiro-me a coisas com as quais colido no dia-a-dia e que acredito, com maior ou menor frequência, também devem acontecer a quem me está a ler.
Uma das coisas que me irritam profundamente é ir a circular de carro numa faixa com prioridade e, de repente, outro carro, obviamente sem prioridade, entrar na estrada e colocar-se à minha frente. A minha irritação sobe de intensidade quando me apercebo que a aparente urgência deste sujeito é mesmo aparente porque ninguém pode ter urgência quando não passa dos 30 km/h. A suprema irritação surge quando este encadear de situações se sucede quando sou eu que tenho pressa para chegar ao meu destino.
Outra situação que me irrita profundamente é a violação sem dó nem respeito pelo relógio e pelos horários marcados. Se eu tenho um compromisso, organizo-me de forma a estar no local 5 a 10 minutos antes da hora combinada e não suporto aqueles sujeitos que chegam cronicamente atrasados e têm a desfaçatez de afirmar “pensava que vinha atrasado mas afinal o Zé das Iscas ainda não chegou”.
A resposta que tem que ser dada por quem é rigoroso no cumprimento dos horários é “o meu amigo está atrasado, há é infelizmente quem consiga estar ainda mais atrasado”! E aqui, quase me apetecia brincar com as palavras e fazer comparações entre os verbos estar… e ser!
Continuando a desenrolar a minha “short list” relativamente a coisas simples que me irritam profundamente, não posso deixar de referir os “Chicos Espertos” que chegam a locais públicos e engendram estratégias para serem atendidos à frente de quem chegou antes deles. Mas nestas situações o que me tira mesmo do sério é quando percebo que há quem colabore com estas manobras do lado de lá do balcão. E nestes casos apenas uma reclamação formal pode “educar” quem é conivente com quem gosta de prevaricar desrespeitando todos aqueles que cumprem escrupulosamente as regras básicas de cidadania.
As permanentes agressões à língua portuguesa também me agridem e me incomodam. E não me refiro apenas à diferença entre “à” e “há”, refiro-me aos valentes e sucessivos pontapés na gramática invariavelmente justificados pelo corretor ortográfico. Concordo que os teclados inteligentes complicam mais do que facilitam mas eles ainda não têm a faculdade de acompanhar a criatividade de quem “inventa” palavras que não existem.
Mas dentro de todas as coisas simples que me irritam profundamente talvez a que me irrite mais seja mesmo aquelas pessoas que fazem questão de estar num estado de autocomiseração e lamento contínuo como forma de adoração pelo seu pseudo-sofrimento.
De uma forma perversa quase me atrevo a afirmar que estas pessoas apenas são felizes se se sentirem infelizes e se partilharem essa infelicidade com quem as rodeia. E para que não fiquem dúvidas, não me refiro àquelas pessoas que emitem gritos de alerta como pedido legítimo de ajuda, refiro-me àquelas que sem motivos para tal, se sentem bem a mergulhar em águas escuras e profundas e fazem questão de arrastar de forma egoísta quem se encontra por perto.
Tenho mais, muito mais coisas simples que me irritam profundamente para partilhar, mas não tenho tempo nem espaço. E em jeito de conclusão, voltando aos verbos ser e estar, tudo se resume a ser e a estar. Saber ser e saber estar!
