Quando a força portuguesa atravessou a fronteira rumo à província espanhola de Ávila, na tarde de 25 de julho, David Lobato sabia que a missão ia muito além do combate às chamas. À frente de 132 operacionais e 45 viaturas, cabia-lhe coordenar a participação portuguesa num dos maiores dispositivos internacionais de combate a incêndios dos últimos anos e garantir que todos regressavam a casa em segurança.
À chegada, já passava das 22h30, o incêndio permanecia completamente descontrolado. Enquanto as autoridades espanholas previam que a força portuguesa descansasse antes de entrar em ação, o comandante decidiu avançar de imediato com metade dos meios, mantendo a outra metade em repouso, longe do teatro de operações, para assegurar rendições permanentes e operacionais sempre em condições físicas e psicológicas para intervir.
Durante cinco dias, entre 25 e 29 de julho, os operacionais portugueses integraram o dispositivo espanhol no combate ao incêndio de Burgohondo, na província de Ávila. Já na fase final da missão, Portugal manifestou disponibilidade para permanecer no terreno caso fosse necessário, mas a evolução favorável do incêndio permitiu que, na manhã seguinte, fossem realizadas apenas ações de vigilância e consolidação, antes do regresso a casa.
Nesta entrevista ao mediotejo.net, David Lobato revisita os momentos mais marcantes da operação, explica as decisões estratégicas tomadas no terreno, reflete sobre a liderança de uma missão internacional e fala também do percurso que o levou aos bombeiros, da importância da formação e da forma como procura encontrar, junto do mar, o equilíbrio depois de dias de enorme exigência.







“A primeira preocupação de um comandante é levar todos e trazer todos.” – David Lobato
Receber o comando da força portuguesa mobilizada para Espanha representou um dos maiores desafios da sua carreira. Que balanço faz desta missão?
David Lobato: Faço um balanço extremamente positivo. Não tanto pela missão em si, porque combater incêndios rurais é aquilo que fazemos diariamente em Portugal e o cenário que encontrámos em Ávila era muito semelhante ao nosso, com terreno montanhoso, pinhal, mato e um comportamento do fogo muito idêntico ao que conhecemos.
O verdadeiro desafio foi outro: comandar uma força de 132 operacionais e 45 viaturas, projetá-la para outro país e garantir que todos trabalhavam de forma coordenada. Não é uma tarefa simples, mas tornou-se mais fácil porque tínhamos connosco profissionais extraordinários – bombeiros das Beiras e Serra da Estrela, elementos da Força Especial de Proteção Civil e da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR. Todos demonstraram um enorme profissionalismo e espírito de missão.
Chegámos a Ávila numa fase particularmente crítica. O incêndio já lavrava há vários dias, tinha uma enorme extensão, milhares de pessoas afetadas e o dispositivo espanhol encontrava-se sob grande pressão. Quando regressámos a Portugal, após quase quatro dias de trabalho intenso, deixámos um incêndio dominado e em fase de consolidação. Saímos com um profundo sentimento de missão cumprida.
Quando chegou a Ávila, percebeu imediatamente a dimensão do incêndio que tinham pela frente?
Sim. Ainda antes de chegarmos ao teatro de operações fomos ao posto de comando para perceber qual era a situação e quais eram as prioridades definidas pelas autoridades espanholas. Rapidamente percebemos que estávamos perante um incêndio de enorme dimensão, que já lavrava há vários dias, com milhares de hectares ardidos, inúmeras habitações ameaçadas e um dispositivo muito alargado no terreno.
Era um cenário complexo, mas, do ponto de vista operacional, não muito diferente daquele que encontramos em Portugal. O terreno era montanhoso, com fortes declives, muito semelhante ao da Serra da Estrela, e os combustíveis eram praticamente os mesmos: pinhal, mato e vegetação fina. O comportamento do incêndio também era muito idêntico ao que conhecemos.
A grande diferença estava na escala da operação. Falamos de um incêndio que mobilizava centenas de meios e obrigava a uma coordenação permanente entre diferentes forças e diferentes níveis de comando.
Uma das primeiras decisões foi colocar metade da força a combater e metade em descanso, quando as autoridades espanholas esperavam que os operacionais repousassem até ao dia seguinte. Porque tomou essa decisão?
A nossa principal preocupação era garantir capacidade operacional permanente. Se colocássemos toda a gente a trabalhar ao mesmo tempo, ao fim de poucas horas teríamos uma força completamente desgastada.
Optámos por outro modelo. Enquanto metade dos operacionais entrou imediatamente no combate ao incêndio, a outra metade permaneceu em descanso na base instalada em Ávila. Depois fazíamos a rendição no terreno, garantindo sempre equipas frescas e preparadas para intervir.
Mas esse descanso fazia parte da própria estratégia. Não era feito junto ao incêndio. Era um descanso efetivo, longe do teatro de operações, permitindo aos operacionais recuperar, alimentar-se e preparar-se física e psicologicamente para regressarem ao combate nas melhores condições.
Foi essa organização que nos permitiu manter uma resposta praticamente permanente durante toda a missão, sem perder capacidade operacional. No combate aos incêndios não basta ter homens e meios; é fundamental saber gerir o desgaste das pessoas. Um operacional cansado deixa de decidir e de reagir da mesma forma.
As autoridades espanholas compreenderam rapidamente essa opção. Quando perceberam que, em vez de esperar pela manhã, metade da força portuguesa estava pronta para entrar imediatamente em ação, perceberam também que podiam contar connosco desde o primeiro momento.




O que significa, na prática, comandar uma força de 132 operacionais e, pela primeira vez, num país estrangeiro?
A responsabilidade é enorme. Quando aceitamos uma missão destas, sabemos que estamos a representar Portugal e que tudo aquilo que fazemos acaba por refletir a imagem do país e da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.
Mas há uma preocupação que está sempre presente: as pessoas. Costumo dizer que a primeira missão de um comandante é levar todos e trazer todos. Só depois vem o resto. É evidente que queremos cumprir os objetivos operacionais e ajudar quem precisa, mas nunca podemos esquecer que temos homens e mulheres no terreno que dependem das decisões que tomamos.
Cada decisão tem consequências. Decidir onde entram as equipas, quanto tempo permanecem no combate, quando descansam ou quando são rendidas pode fazer toda a diferença.
Por isso, um comandante não pode pensar apenas no incêndio. Tem de pensar continuamente na segurança, no desgaste e na capacidade física e psicológica dos seus operacionais. Essa responsabilidade acompanha-nos durante toda a missão.
Como foi trabalhar lado a lado com as autoridades espanholas num incêndio desta dimensão?
A articulação foi muito fácil desde o primeiro momento. Encontrámos uma estrutura muito organizada, com procedimentos claros e uma excelente capacidade de coordenação entre todos os meios envolvidos.
A linguagem operacional é muito semelhante e isso facilita bastante o trabalho conjunto. Rapidamente percebemos quais eram as prioridades e integrámo-nos no dispositivo sem dificuldades.
Naturalmente, existem diferenças de organização entre os dois países, mas, quando o objetivo é proteger pessoas e bens, essas diferenças deixam de ter importância. Existe uma grande cultura de cooperação entre Portugal e Espanha e isso voltou a demonstrar-se nesta missão.
Sentimos sempre confiança por parte das autoridades espanholas e também muito reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pelos operacionais portugueses.




Quando regressaram a Portugal, sentiram que tinham cumprido a missão?
Sem dúvida. Nos últimos dias já era visível que a evolução do incêndio estava a ser favorável. Ainda assim, transmitimos às autoridades espanholas que permaneceríamos no terreno enquanto fosse necessário. A missão só terminaria quando entendessem que a nossa presença deixava de ser útil.
Na noite anterior ao regresso disseram-nos que, se o combate evoluísse como previsto, na manhã seguinte realizaríamos apenas ações de vigilância e consolidação. Foi exatamente isso que aconteceu.
Depois dessas últimas operações recebemos o agradecimento das autoridades espanholas pelo trabalho desenvolvido e iniciámos o regresso a Portugal com a satisfação de termos contribuído para controlar uma situação extremamente difícil.
O que trouxe desta missão para o Médio Tejo? Há aprendizagens que podem ser aplicadas na resposta da Proteção Civil portuguesa?
Cada missão é uma oportunidade para aprender. Independentemente do país onde decorra, há sempre procedimentos, formas de organização e soluções que podemos observar e adaptar à nossa realidade.
Esta experiência reforçou uma convicção que já tinha: a preparação começa muito antes da ocorrência. Quando uma força chega ao terreno já tem de saber como vai atuar, como vai comunicar, como vai render equipas, como vai garantir alimentação, descanso e segurança. Tudo isso faz parte da operação.
Também confirmou a importância da cooperação entre diferentes entidades. Nesta missão trabalhámos com bombeiros, forças especiais, GNR, Exército e autoridades espanholas, cada um com funções muito bem definidas. Quando existe confiança entre todos, a resposta torna-se mais eficaz.
São aprendizagens que transportamos para o nosso trabalho diário no Médio Tejo. A realidade é diferente, mas os princípios da organização, do planeamento e da preparação são exatamente os mesmos.
Depois desta missão em Espanha, mudou alguma coisa na forma como olha para a Proteção Civil e para quem lidera homens e mulheres em cenários extremos?
Estas experiências reforçam aquilo em que já acreditávamos. Os incêndios e as restantes emergências são cada vez mais exigentes e imprevisíveis e obrigam-nos a estar permanentemente preparados.
Isso exige formação contínua, treino e investimento em meios, mas acima de tudo exige pessoas. Podemos ter os melhores equipamentos do mundo; se não tivermos homens e mulheres preparados e motivados, esses equipamentos valem muito pouco.
O papel de quem comanda é precisamente criar condições para que todos possam cumprir a missão com segurança e confiança. E isso implica conhecer as pessoas, ouvi-las e saber gerir o seu desgaste. Um operacional cansado deixa de decidir da mesma forma e aumenta o risco. Em Espanha ficou ainda mais claro que cuidar das pessoas é também uma forma de proteger a missão.

A preparação dos operacionais portugueses está hoje à altura dos fenómenos extremos que se têm tornado mais frequentes?
Costumo dizer que estamos preparados, mas nunca estamos totalmente preparados, porque nunca sabemos exatamente o que aí vem.
Ainda assim, tenho plena confiança nos operacionais portugueses. Os nossos bombeiros, a Força Especial de Proteção Civil e a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR têm um nível de preparação e de conhecimento igual ou superior ao de muitas forças internacionais.
Hoje já não basta saber combater um incêndio. É preciso perceber porque é que ele evolui de determinada forma, antecipar cenários e adaptar a estratégia. Essa capacidade de análise faz toda a diferença e é uma das maiores qualidades dos nossos operacionais.
Quem é David Lobato para lá da farda? Como nasceu esta ligação aos bombeiros e à Proteção Civil?
Entrei para os bombeiros aos 14 anos, pela mão do meu pai, que também era bombeiro. Foi ele que me levou a assistir ao primeiro curso de socorrismo e, a partir desse dia, percebi que era este o caminho que queria seguir.
Nasci em Alcoentre, estudei nas Caldas da Rainha e iniciei a carreira nos Bombeiros do Cartaxo, onde percorri todas as etapas: bombeiro de 3.ª, de 2.ª, de 1.ª, adjunto de comando, segundo-comandante e comandante. Em 2020 transitei para a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, primeiro como segundo-comandante distrital de Santarém, depois comandante distrital e, desde 2023, comandante sub-regional do Médio Tejo.
Nunca encarei esta profissão apenas como um emprego. É uma forma de estar e de servir. Quando escolhemos esta vida sabemos que dificilmente teremos horários ou dias normais e que haverá decisões difíceis para tomar.
Ao longo do percurso percebi também que esta dedicação tem um preço. Passei menos tempo com a família do que gostaria. Foi uma opção minha, porque sempre procurei dar o melhor de mim àquilo que faço. Hoje continuo a acreditar que valeu a pena, mas tenho consciência desse lado menos visível da profissão.

Quando regressa a casa depois de uma missão destas, qual é a primeira coisa que faz ou sente?
Tenho sempre a sensação de que deixo um peso à porta de casa. Tento separar completamente o trabalho da vida pessoal. Tal como não levo os problemas pessoais para o serviço, também procuro não levar o serviço para casa.
Nem sempre é fácil, porque o telefone toca a qualquer hora, mas faço esse esforço. Entro em casa, tomo um banho e sinto que consigo respirar outra vez.
O mar é o meu maior refúgio. O cheiro da maresia, o som das ondas e o silêncio ajudam-me a limpar a cabeça. Sou capaz de ficar muito tempo simplesmente a olhar para o mar. É ali que recupero energias para voltar a fazer aquilo de que gosto: servir”.
A despedida foi de agradecimentos e de alguma emoção, com as autoridades espanholas a reconhecerem publicamente o apoio dado: “Obrigado, Portugal. Terão sempre um lugar no coração de Ávila”.

A participação de David Lobato nesta missão representa a segunda operação internacional recente envolvendo o comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil do Médio Tejo.
Nas últimas semanas, o segundo-comandante sub-regional, João Pitacas, integrou a missão portuguesa enviada à Venezuela para apoiar as operações de proteção civil na sequência do sismo que atingiu aquele país, (ver AQUI) voltando agora o comando do Médio Tejo a assumir responsabilidades num cenário internacional de elevada complexidade.
