Os dois projetos de centros de dados anunciados para Abrantes levaram o PSD a propor à Câmara a criação de um relatório público anual que permita medir o emprego, contratação de empresas locais e retorno fiscal dos grandes investimentos realizados no concelho.
A proposta foi apresentada pelo vereador social-democrata João Morgado na reunião do executivo municipal de 8 de setembro, numa intervenção em que questionou os impactos económicos e ambientais dos investimentos anunciados para o território.
O eleito defendeu que, a par dos valores de investimento e dos postos de trabalho anunciados pelos promotores, o município deve conseguir avaliar posteriormente a riqueza que fica efetivamente no concelho.
“Ser feito um reporte público anual sobre o cumprimento dos compromissos de emprego destes grandes investimentos”, propôs João Morgado, indicando que o documento deveria identificar os “postos de trabalho criados”, quantos estão ocupados, quantos trabalhadores residem no concelho, quantas empresas locais são subcontratadas e “qual é o retorno fiscal gerado” para Abrantes.
O vereador propôs ainda que, “se isto for juridicamente possível”, o regulamento municipal relativo aos incentivos fiscais passe a contemplar um compromisso mensurável de acompanhamento do desenvolvimento local gerado pelos projetos apoiados, designadamente ao nível do emprego, compras, contratação de empresas locais e criação de valor no território.
Para João Morgado, só desta forma será possível comparar os benefícios concedidos pelo município com o retorno efetivamente proporcionado pelos investimentos.
A referência aos incentivos surge depois de a Câmara ter aprovado, em setembro de 2025, benefícios em IMI, IMT, Derrama e taxas municipais para o projeto da EDC ONE, num valor global estimado em 16,2 milhões de euros.
O investimento anunciado para a Zona Industrial do Pego ascende a sete mil milhões de euros até 2030 e prevê a criação de 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos. O projeto foi declarado de interesse municipal e está associado à instalação de um centro de dados nos terrenos da antiga RPP Solar, junto à desativada Central Termoelétrica do Pego.
A este juntou-se um segundo projeto, promovido pela Hyperion Renewables Services, para uma área próxima da rotunda de Alvega. A Câmara aprovou em maio, por unanimidade, um Pedido de Informação Prévia (PIP) favorável à viabilidade urbanística do empreendimento, não correspondendo essa decisão à aprovação definitiva do projeto.
A Hyperion confirmou então ao mediotejo.net que o empreendimento prevê uma potência de ligação de 200 MVA ao futuro Posto de Corte de Abrantes, no Pego, e que os processos de licenciamento ambiental e municipal estavam em curso, apontando para uma eventual entrada em operação em 2029.
Consumo de energia e risco de uma “economia de enclave”
Na reunião, João Morgado associou a proposta de maior escrutínio económico às preocupações entretanto levantadas sobre a dimensão e os impactos dos dois centros de dados.
O vereador referiu estimativas recentemente divulgadas segundo as quais, à plena capacidade, os projetos poderão consumir cerca de 19 vezes a eletricidade atualmente consumida em todo o concelho.
Os cálculos foram avançados pela Quercus no final de agosto. A associação ambientalista estimou que, num cenário de utilização média de 30% da potência instalada, os dois centros de dados consumiriam conjuntamente cerca de 841 GWh por ano, aproximadamente 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade de Abrantes em 2024.
À plena capacidade, segundo a mesma estimativa, o consumo poderia aproximar-se dos 2,8 TWh anuais, quase 19 vezes o consumo atual do concelho.
João Morgado acrescentou às preocupações energéticas o consumo de água e o calor gerado por este tipo de infraestruturas e questionou se Abrantes pretende assumir estes investimentos como uma prioridade da sua estratégia económica.
O vereador enquadrou a discussão nas características atuais da economia do concelho, que disse ser composta por cerca de três mil microempresas e apenas uma grande empresa, num território que tem vindo a perder população e cuja recente recuperação demográfica atribuiu sobretudo à imigração.
Morgado referiu ainda que as dissoluções de empresas no concelho passaram de 17 até julho de 2025 para 24 em igual período deste ano, um aumento superior a 40%.

Perante este quadro e os elevados valores dos novos investimentos anunciados, deixou um alerta para o risco de Abrantes se transformar numa “economia de enclave”, caso a dimensão financeira dos projetos não tenha correspondência na criação de emprego e rendimento para quem vive no território.
A questão, sustentou, é perceber a capacidade do concelho para transformar a riqueza anunciada “em emprego e nos rendimentos de quem aqui vive”.
Valamatos: “Não é possível ter o melhor dos dois mundos”
Na resposta, o presidente da Câmara de Abrantes concordou com a necessidade de o município dispor de mais informação para avaliar o impacto dos investimentos.
“Faz todo o sentido conseguirmos medir e perceber o impacto das empresas no território e os seus efeitos”, afirmou Manuel Jorge Valamatos (PS), defendendo o cruzamento de informação com instituições e serviços de emprego.
“Nós precisamos cada vez, para decidir, de ter mais dados. É esse trabalho que temos que fazer”, acrescentou.
Sobre os centros de dados, o autarca assegurou que nenhum projeto avançará sem os necessários procedimentos de avaliação ambiental.
“Nunca haverá nenhum data center em Abrantes ou em qualquer parte do país que não resulte de um estudo de impacto ambiental”, afirmou, dizendo estar “completamente à vontade” quanto ao escrutínio dos projetos pelas entidades competentes.
Valamatos reconheceu, contudo, que este tipo de investimento produz impactos e defendeu que a atração de atividade económica implica encontrar um equilíbrio entre desenvolvimento, competitividade e proteção ambiental.
“Não é possível ter o melhor dos dois mundos”, afirmou, considerando inevitável a existência de impactos associados ao crescimento económico, embora estes devam ser avaliados e minimizados.
O presidente da Câmara enquadrou ainda a procura do concelho por investimentos intensivos em energia na transformação ocorrida após o encerramento da Central do Pego e na capacidade de ligação à rede elétrica existente no território.
“Abrantes tem aqui uma responsabilidade maior. Nós temos aqui um ponto de injeção”, afirmou, considerando o concelho um dos territórios mais procurados para investimentos ligados tanto à produção como ao consumo de energia.
Para Valamatos, essa característica representa também uma oportunidade para Abrantes se afirmar na atração de “indústria tecnológica” e de projetos de produção energética.
“Estamos disponíveis para data centers ou para outras indústrias, desde que haja equilíbrio, haja bom senso, haja racionalidade”, declarou, reconhecendo que os centros de dados “são grandes consumidores de energia”.
Durante a discussão, o presidente referiu que os projetos apresentam compromissos e números que terão de ser cumpridos, lembrando que os benefícios fiscais aprovados pelo município só se concretizam se os próprios investimentos avançarem.
“Os projetos, para se concretizarem, têm números e isso é que é medido”, afirmou, rejeitando a possibilidade de o município apoiar um empreendimento que anunciasse centenas de empregos e acabasse por criar apenas uma pequena parte.
A vereadora Ana Oliveira (PSD) manifestou, por seu lado, dúvidas quanto ao número de postos de trabalho que os projetos poderão efetivamente gerar e sugeriu que a Câmara atualize regularmente os vereadores sobre a evolução dos processos.
Valamatos respondeu que os projetos estão ainda numa “fase muito inicial” e que o município divulgará informação à medida que esta possa ser tornada pública.
“Nós não temos toda a informação que muitas vezes os senhores possam pensar. Nós vamos partilhando a informação que temos neste momento. Tudo são intenções”, afirmou.
O autarca acrescentou existirem outros projetos e intenções de investimento, tanto na produção como no consumo de energia, que apenas serão apresentados publicamente quando atingirem maior maturidade e os respetivos investidores autorizarem a divulgação de informação.
