Casal da Coelheira antecipa vindimas e protege cachos do calor cada vez mais intenso. Foto: CC

“É uma nova normalidade”, afirmou Nuno Rodrigues ao mediotejo.net, explicando que, há mais de 10 anos, as vindimas na propriedade decorrem já em agosto, depois de anteriormente começarem em setembro, num calendário que tem vindo a antecipar-se progressivamente. No ano passado, a colheita arrancou em 13 ou 14 de agosto, enquanto há dois anos começou logo em 31 de julho.

O Casal da Coelheira tem atualmente 53 hectares de vinha, integrados numa exploração agrícola com cerca de 295 hectares, e prevê colher este ano entre 250 e 270 toneladas de uva, com cerca de 70% de produção tinta e 30% branca. A vindima das castas brancas já terminou e permitiu confirmar um aumento de produção entre 25% e 30% face a 2025, enquanto para os tintos, cuja vindima começou esta semana, é também esperado um crescimento, embora inferior ao registado nos brancos.

Nuno Rodrigues mostra-se, por isso, “com algum entusiasmo” relativamente à qualidade da campanha, embora ressalve que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas.

Quinta do Casal da Coelheira, Tramagal. Créditos. DR

As fermentações dos brancos estão em curso e os primeiros dados apontam para bons perfis aromáticos e gustativos, enquanto as primeiras uvas tintas começaram a ser colhidas apenas agora e várias parcelas necessitam ainda de duas a três semanas para atingir o ponto considerado ideal.

“Eu estou com algum entusiasmo, vejo com algum entusiasmo a qualidade”, afirmou, salientando que as maturações têm sido equilibradas, nomeadamente em termos de acidez.

A antecipação da colheita resulta, contudo, de uma conjugação entre a evolução do clima e a procura de novos perfis de vinho, já que os produtores procuram atualmente brancos “mais elegantes” e “mais frescos”, com menos açúcar e menor grau alcoólico.

Nuno Rodrigues, enólogo e proprietário do Casal da Coelheira, tem atualmente 53 hectares de vinha. Foto: mediotejo.net

As alterações climáticas estão também a alterar a forma como a vinha é trabalhada. Nuno Rodrigues recorda que, há 15 ou 20 anos, era habitual retirar folhas e expor os cachos ao sol, de forma a acelerar a maturação, enquanto atualmente a estratégia é precisamente a inversa, procurando preservar a sombra e proteger a uva da radiação solar.

“A nossa política hoje é muito ao contrário. Nós hoje preservamos a sombra, queremos ter os cachos mais protegidos da radiação solar”, explicou, acrescentando que a gestão da folhagem exige, contudo, um equilíbrio entre a proteção contra o calor e a necessidade de manter circulação de ar suficiente para evitar condições favoráveis ao desenvolvimento de doenças.

Apesar de dispor de furos artesianos, alguns dependentes do nível freático do Tejo, a exploração tem sentido alguma “inconstância” na disponibilidade de água, embora este ano não tenha sido necessário alterar a estratégia de rega. A experiência da empresa mostra também que uma vinha com água disponível não fica necessariamente protegida dos efeitos do calor extremo, depois de terem registado, no passado, danos provocados pelo sol mesmo em vinhas jovens que estavam a ser abundantemente regadas.

As temperaturas têm ainda consequências diretas para quem trabalha na vindima. Este ano, pela primeira vez, o Casal da Coelheira recorreu a mão de obra imigrante proveniente de países asiáticos, como Bangladesh e Paquistão, devido à crescente dificuldade em recrutar trabalhadores para o campo.

A vindima envolve atualmente entre 25 e 27 pessoas e começa entre as 06:15 e as 06:30, terminando por volta das 14:00, numa tentativa de evitar os períodos de maior calor.

Casal da Coelheira antecipa vindimas e protege cachos do calor cada vez mais intenso. Foto: CC

Nuno Rodrigues sublinha que o trabalho é particularmente exigente nos solos arenosos da propriedade, que aquecem bastante, e reconhece que a atividade agrícola é cada vez menos atrativa para a mão de obra disponível.

A colheita é maioritariamente manual, apesar de a empresa dispor de uma máquina de vindimar. Algumas parcelas não estão adaptadas à mecanização, mas outras poderiam ser colhidas dessa forma. A opção de manter a máquina parada prende-se também com a preocupação em garantir trabalho mais contínuo às pessoas contratadas para a campanha, evitando chamar uma equipa para determinadas parcelas e dispensá-la logo que a máquina pudesse entrar em funcionamento.

Para o enólogo, a vindima manual mantém, contudo, uma vantagem importante na seleção da uva. “A máquina não tem olhos”, resume, explicando que a pessoa consegue identificar na própria planta cachos com diferentes estados de maturação ou sinais de danos e fazer uma seleção que a máquina não consegue realizar. Ainda assim, reconhece que a mecanização terá um peso crescente no futuro caso se mantenha a dificuldade em encontrar trabalhadores.

A adaptação às novas condições climáticas passa também pelas castas. Há três anos, o Casal da Coelheira introduziu a Tinta Miúda, uma casta portuguesa escolhida, além do seu potencial qualitativo, pela capacidade de resistir à falta de água e aos picos de calor. A aposta atual da empresa privilegia as castas portuguesas, sem abandonar as variedades francesas já existentes na exploração.

Casal da Coelheira antecipa vindimas e protege cachos do calor cada vez mais intenso. Foto: CC

Para a campanha de 2026, a principal preocupação de Nuno Rodrigues já não é apenas a antecipação do calendário, mas a evolução do tempo nas próximas semanas. Os tintos estão agora a começar a ser colhidos e há parcelas ainda por atingir o ponto ideal, enquanto períodos prolongados de calor, trovoadas ou chuva podem comprometer a qualidade da uva.

“Cada dia é um dia. É a vida de um agricultor”, afirma, defendendo uma postura de prudência perante uma campanha que, apesar das boas perspetivas para os brancos, ainda está longe de estar concluída.

Vindimas antecipam-se por todo o país

A realidade observada no Tramagal acompanha uma tendência registada este ano em várias regiões vitivinícolas portuguesas. Segundo a ViniPortugal, o aumento das temperaturas e a maior frequência de períodos de calor intenso têm acelerado a maturação das uvas e antecipado as vindimas, embora com diferenças consoante as regiões, castas e parcelas.

No Douro, a antecipação ronda uma a duas semanas, enquanto em regiões mais quentes, como o Tejo e o Alentejo, a colheita começou nas últimas semanas de julho. A entidade salienta, contudo, que mais importante do que manter uma determinada data de vindima é colher cada parcela quando existe o equilíbrio adequado entre maturação, acidez, açúcar e perfil aromático.

A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) considera também que, nos últimos 15 anos, as vindimas têm ocorrido, em média, cada vez mais cedo devido às alterações climáticas, obrigando a adaptar tecnologia, conhecimento agronómico e práticas de produção. A organização sustenta, porém, que a antecipação do calendário não se tem traduzido numa perda de qualidade, graças também à evolução das técnicas de produção e vinificação.

A falta de mão de obra surge igualmente como um problema transversal ao setor, levando produtores de diferentes regiões a recorrer a empresas de trabalho temporário ou a procurar novas soluções para assegurar as necessidades da campanha.

No Casal da Coelheira, em Tramagal, essa adaptação já começou a traduzir-se numa mudança concreta na vinha: onde antes se procurava mais sol para acelerar a maturação, procura-se agora sombra para proteger a uva.

O Casal da Coelheira, projeto familiar de três gerações instalado em Tramagal, tem vindo a afirmar-se entre os produtores de referência dos Vinhos do Tejo. Em 2025 foi distinguido com o prémio “Empresa Excelência Vinhos do Tejo” e viu quatro dos seus vinhos receberem medalhas Grande Ouro e outro uma medalha de Ouro no 15.º Concurso Vinhos do Tejo.

No mesmo ano, o Casal da Coelheira Rosé 2024 conquistou ainda uma medalha de Ouro no Concours Mondial de Bruxelles, juntando-se a outras distinções obtidas pela adega em concursos nacionais e internacionais.

E, perante um calendário que já não corresponde ao de há duas décadas, o enólogo considera que a antecipação das vindimas deixou de ser uma exceção para passar a fazer parte da nova realidade da viticultura.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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