Carta Cultural de Mação. Fotografia: mediotejo.net

“Um livro escrito a várias vozes.” Foi desta forma que Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, caraterizou esta nova obra, uma edição da autarquia que reúne o património cultural do concelho, património que é imaterial e persiste na memória e saber dos mais velhos.

Este é um livro sob a forma de uma enciclopédia da memória coletiva, enquanto ferramenta essencial e preciosa para a preservação da tradição, dos usos e costumes e da identidade cultural do povo maçaense. Este livro, afirma a autarquia, mostra como é ser-se maçaense de corpo e alma, e mais do que isso, como é carregar Mação no coração.

A Câmara Municipal arrancou em 2018/2019 com uma recolha de memórias por três técnicas da autarquia, Vera Dias António, Rosário Wahnon e Cátia Murta, junto das três centenas de membros do Clube Sénior, espalhados pelas diversas freguesias em 14 grupos deslocalizados. O livro contém ainda uma dedicatória em memória de Elisabete Loureiro, técnica da autarquia maçaense dedicada ao Clube Sénior, e que a todos deixou com saudade no ano 2020.

Foto: mediotejo.net

E foi assente no lema citado abaixo que se foi avançando ao longo dos anos, apesar de algumas paragens forçadas porque a conjuntura assim o foi impondo. Em 2022 surgiu o resultado final.

A história é absolutamente fundamental para um povo. Quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai.

Dom Bertrand de Orleans e Bragança

Foram recolhidas histórias e tradições, mas também muitas lendas, orações, mezinhas e cantigas, entre outros elementos da cultura popular e da tradição oral maçaense. A par desta recolha, também foi resgatado um documento no arquivo da Câmara Municipal, datado de 1980 e que continha outra recolha feita na altura.

Com estes dois contributos, surge a Carta Cultural do Concelho de Mação, guardiã do que ainda resta e subsiste da tradição e património. Cada livro é único, pois contém na capa pedaços de renda feita à mão pelas voluntárias e membros do Clube Sénior de todo o concelho, que partilharam o seu saber-fazer num gesto de boa vontade e oferecendo a sua habilidosa arte manual e tradicional a quem adquira esta obra.

Foto: mediotejo.net

“Pensámos que, sendo um livro sobre o património cultural, não poderia levar apenas uma imagem. Queríamos que contivesse algo que refletisse a nossa cultura. E pensámos nos quadrados de renda, feitos pelas senhoras que integram o Clube Sénior. Cada livro é absolutamente único, porque a figura da capa nunca é a mesma. Há sempre um quadrado de renda mais aberto ou mais fechado”, notou Vera Dias António, agradecendo a quem fez renda para os mais de mil exemplares colocados à venda, numa primeira fase.

O livro contém oito capítulos referentes ao vasto Património Imaterial do concelho de Mação, desde as Tradições; Versos e Cantigas; Trajes Típicos; Orações e Rezas; Namoro e Casamento; Os Padroeiros; Jogos Tradicionais; Lendas.

Foto: mediotejo.net

“Nós não somos autoras, nós fizemos a recolha, e é assim que nos intitulamos. Há um ditado que diz que se fizermos o que gostamos, não temos que trabalhar um único dia. E nos dias em que fomos para o Clube Sénior, com os mais de 300 membros, e procurámos recolher o nosso património imaterial, foram dias em que não trabalhámos. E às vezes vínhamos cansadas, mas vínhamos também muito felizes”, disse Vera Dias António durante a apresentação, que aconteceu no decorrer da Feira Mostra de Mação.

Em cima da mesa, durante o lançamento, constavam pedaços desta tradição e património cultural agora inscrito nas páginas deste livro de capa bordô, a contrastar com a linha branca do rendilhado que a compõe.

Quatro campelas, coroas de flores campestres feitas por ocasião dos Santos Populares. Um exemplar de um pau bilhau, de entre os jogos tradicionais, e que foi feito por uma senhora de Aboboreira. De Ortiga, veio emprestada a serra com que foi ‘serrada’ Cristina, quando foi avó pela primeira vez, cumprindo-se o ritual tradicional da serração das velhas por um grupo de homens da terra. Também mais alguns quadrados de renda trazidas por Rosa, para serem ‘estampados’ em mais exemplares da Carta Cultural.

Imagem: CMM

Também Rosário Wahnon se mostrou orgulhosa do feito e grata pelas partilhas dos seniores do concelho. “Nós saímos muito mais ricas e temos a certeza que, de agora em diante, todos aqueles que estão atrás de nós ficarão tão ou mais felizes do que aquilo que nós ficámos. Cabe-me agradecer a cada um tudo o que partilharam connosco. E queremos acreditar que o que está aqui vai ficar para sempre na memória de todos aqueles que folhearem este livro. E é isso que é importante, manter as tradições e o património vivos”, terminou, de forma sentida.

O livro está à venda na Câmara Municipal de Mação, na Biblioteca Municipal e no posto de turismo.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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