O Bloco de Esquerda denunciou hoje a existência de “dezenas largas” de peixes mortos no Tejo na zona de Abrantes, sem que as autoridades recolham os peixes da margem, e de um ponto de descarga de esgoto diretamente para o rio Tejo, no bairro ribeirinho de Alfange, em Santarém, responsabilizando o município escalabitano pelo que considera ser “um atentado ambiental”.

“Desde segunda-feira que foram registados dezenas largas de peixes mortos na zona de Abrantes, entre as pontes ferroviária e rodoviária e o açude, e ainda hoje [quinta-feira] muito do peixe continua a estar nas margens sem que ninguém os recolha”, disse hoje ao mediotejo.net Armindo Silveira, vereador do BE em Abrantes.

 

“O peixe aparece morto em diversos pontos do rio na zona de Abrantes, desde o travessão na Pegop até ao açude de Abrantes, e a causa da mortandade é desconhecida. Alertei as autoridades mas ainda hoje o peixe que não foi levado pela forte corrente que hoje se faz sentir, continua nas margens do rio, a degradar-se, e ainda por ser recolhido”, criticou.

 

Também Arlindo Marques, do movimento proTEJO, registou no local a ocorrência tendo publicado no dia 17 um video e comentado aquilo que viu no Tejo, na zona de Abrantes.

“Hoje fui alertado por um amigo do Tejo, que existia peixe morto no rio Tejo na zona de Abrantes, e como sabem vem acontecendo já há algum tempo um pouco por todo o lado. Desloquei-me ao local, e pude constatar mais de meia centena de peixes mortos. Na maioria era fataça, também vi barbos, um pescador acabado de vir da zona da Central do Pego também viu junto ao travessão algum peixe morto. Os trabalhadores que estão a construir uma passagem para reparar o açude, também viram peixe morto rio abaixo”.

Numa conferência de imprensa dada em Santarém, junto ao local onde escorre ininterruptamente água, que a população se queixa de provocar maus cheiros constantes, Francisco Cordeiro, eleito do BE na Assembleia Municipal de Santarém, e o ativista pelo rio Tejo Armindo Silveira, ambos da coordenadora distrital do Bloco, consideraram “inadmissível” que, sendo do conhecimento do município, a situação se arraste.

“É uma situação grave, inadmissível”, disse Armindo Silveira, lembrando que Santarém acolheu em março uma Assembleia Municipal extraordinária sobre o Tejo, que contou com a presença do ministro do Ambiente e de um conjunto vasto de entidades, “e depois, entre muros, acontece uma situação destas e não há capacidade para resolver”.

Contactado pela Lusa, o presidente da Câmara de Santarém e do Conselho de Administração da Águas de Santarém (AS), Ricardo Gonçalves, remeteu para a administradora executiva da empresa, Teresa Ferreira, que reconheceu serem ocasionalmente detetados pontos de descarga “de origens não identificadas”, geralmente a partir de construções “muito antigas que têm redes unitárias (juntando águas pluviais e esgotos) e não separativas”.

Sublinhando que quando a empresa foi constituída não existia cadastro de toda a rede, Teresa Ferreira afirmou que as situações como a que hoje foi mostrada pelo BE em Alfange vão sendo identificadas, com a preocupação de ir resolvendo sempre que há possibilidade de investimento próprio, já que não existem fundos comunitários para este fim.

Teresa Ferreira afirmou que muitas vezes as situações não são detetadas porque a origem está dentro das próprias casas, e só em situações de obras ou de alertas é que chegam ao conhecimento da empresa.

Segundo a administradora da AS, a empresa investiu “cerca de 50 milhões de euros nos últimos quatro, cinco anos” em saneamento, revelando a “grande preocupação” em assegurar que as descargas para o Tejo se encontram dentro dos parâmetros, como atestam as análises que são feitas regularmente.

Francisco Cordeiro lamentou que desde que a situação foi denunciada publicamente na sessão ordinária da Assembleia Municipal de Santarém de fevereiro, e reafirmada na extraordinária de março sobre o Tejo, nada tenha sido feito.

“Arrasta-se há imenso tempo. O senhor presidente da Câmara tem conhecimento e devia tomar a iniciativa para resolver”, disse.

Para Armindo Silveira, “não basta dizer que houve uma cobertura de quase 90% de saneamento básico do concelho, porque muitas vezes faz-se a ligação, mas depois falta o principal”, ou seja, o tratamento dos efluentes.

“Não sei se este será um caso destes, em que estão feitas as ligações numa parte da cidade, mas, de facto, aqui, pode-se ver – o caudal ainda é volumoso -, está a ir diretamente para o rio Tejo. Isto é inadmissível quando o rio Tejo tem sofrido imensos atentados ambientais”, declarou.

C/LUSA

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