Castelo do Bode. Foto: Luísa Rasteiro

Ambientalistas, agricultores e empresários turísticos não escondem a sua preocupação com os baixos níveis de água na Albufeira do Castelo do Bode, tendo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) confirmado que os mesmos estão abaixo da média.

“Os níveis na Albufeira do Castelo do Bode estão abaixo da média devido ao facto de no presente ano hidrológico não ter ainda ocorrido precipitação significativa que permita repor os níveis de armazenamento após o verão”, disse à Lusa fonte oficial da APA, tendo assegurado não existir neste momento “qualquer risco de garantia no abastecimento público”, que, vincou, “é prioritário”.

Com níveis anormalmente baixos relativamente à média dos últimos anos ao longo dos cerca de 60 quilómetros de albufeira e respetivas margens situadas nos concelhos de Abrantes, Ferreira do Zêzere, Figueiró dos Vinhos, Sardoal, Sertã, Tomar e Vila de Rei, a partir da Albufeira de Castelo do Bode é captada água que abastece uma vasta região até Lisboa abrangendo um universo de cerca de três milhões de consumidores.

A APA afirma estar “a acompanhar a situação” com os principais utilizadores no sentido de “promover um uso mais eficiente da água e a garantir a reserva de segurança” para o abastecimento público, numa situação que está a inquietar vários setores da sociedade que atribuem a atual situação à pouca pluviosidade e à descarga das barragens para produção de energia no atual cenário de seca meteorológica.

“Não é só pela seca mas também porque a água está a ser turbinada”, disse o presidente da Associação dos Empresários de Turismo do Castelo do Bode (AETCB), tendo criticado a “falta de informação” e afirmado “não perceber por que motivo a EDP ou quem gere a barragem está a deixar ficar a um nível tão baixo que prejudica claramente a atividade turística”, tendo feito notar que “o acesso à água é quase impossível” para as atividades náuticas.

“O que nós verificamos é que a quota de água de Castelo do Bode está num nível extraordinariamente baixo, não há memória de se ver assim um nível tão baixo na barragem”, afirmou Jorge Rodrigues, tendo afirmado temer que, “a continuar assim, os operadores de animação turística, alojamento e de atividades náuticas possam ficar com as suas atividades comprometidas” para a época de verão.

ÁUDIO | JORGE RODRIGUES, ASSOCIAÇÃO DE EMPRESÁRIOS (AETCB):

“Preocupa-nos que ninguém explique às pessoas o que vai acontecer, devia de haver um pouco mais de informação, de explicação e de, na nossa opinião, melhor gestão do recurso da água”, concluiu o empresário.

Afirmando estar preocupado com os impactos na fauna, flora e biodiversidade ribeirinha, Paulo Constantino, do Movimento pelo Tejo – proTEJO, defendeu a importância da “preservação e salvaguarda dos ecossistemas para criar, regenerar, purificar, criar e reter água”, tendo relacionado a atual situação com as “alterações climáticas e redução dos níveis de precipitação, a par das descargas das hidroelétricas”, portuguesas e espanholas.

“Um dos problemas é que efetivamente as hidrelétricas não olham a meios para maximizar os seus lucros e vão debitando água ao seu ritmo”, afirmou Constantino, tendo feito notar que, “se não tivesse existido esta visão unicamente de maximização do lucro, se tivessem sido mantidas mais reservas, com certeza que se conseguiria fazer face a anos hidrológicos em que exista menos precipitação e, portanto, equilibrar e permitir ter água de forma estratégica nas alturas em que ela é necessária”.

ÁUDIO | PAULO CONSTANTINO, MOVIMENTO PELO TEJO:

Questionada sobre se confirma, neste cenário de seca meteorológica, as descargas da EDP para produção de energia, a APA disse que “a situação está a ser acompanhada pela APA/DGEG/REN e produtores de energia hidroelétrica”.

No rio Tejo, em Portugal, segundo o porta-voz do proTEJO, “a bacia hidrográfica tem menos 20% de armazenamento do que tinha no ano anterior e em Espanha menos 10% nas principais barragens que afetam as transferências de água para Portugal”, nomeadamente a barragem de Valecanas e de Alcântara, tendo Paulo Constantino insistido na necessidade de “recorrer à negociação dos caudais ecológicos com Espanha”.

Luís Damas, da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação, disse que a falta de chuva “pode pôr em causa as culturas de outono/inverno, nomeadamente os trigos, as aveias, e as cevadas” e “também as pastagens que alimentam o gado, começando a haver problemas com falta de alimento” para os animais.

“O setor hortícola é aquele que mais depende da água e está a regar as culturas nesta altura, o que não é costume”, notou, tendo alertado que, “a continuar assim, a situação ficará crítica em março ou abril, quando a água começar a faltar, sendo que o problema se coloca também a longo prazo, pois são quase inexistentes os sistemas de regadio que forneçam e distribuam água” pelas explorações.

ÁUDIO | LUIS DAMAS, ASSOCIAÇÃO DE AGRICULTORES:

“O mais grave é que isto está a acumular, a seca é ao níveis também das barragens e das barragens particulares dos agricultores, e temos também a questão dos lençóis freáticos uma vez que se não há reposição de água no inverno, que é o que está acontecer, vamos ter alguma dificuldade depois na primavera/verão para ter água disponível para as atividades agrícolas e pecuárias”, afirmou Luís Damas, tendo feito notar que “os agricultores particulares fazem charcas a partir de nascentes, mas a água do subsolo é cada vez mais escassa e começam desde há anos a precisar de outras soluções”.

De acordo com o IPMA cerca de 85% do território no final de dezembro estava em seca meteorológica. A avaliação hidrológica que semanalmente é realizada ilustra que os armazenamentos nas albufeiras a nível nacional estão abaixo da média exceto nas bacias do Douro, Vouga, Guadiana e Arade.

Segundo a APA, “está já programada uma reunião da Comissão de Gestão de Albufeiras no sentido de avaliar com os principais utilizadores e os representantes da administração dos diferentes setores as necessidades versus disponibilidades e as medidas a implementar nas situações que se considerem mais críticas”, sendo que, acrescenta, “com o evoluir da situação serão promovidas as reuniões regionais que se venham a considerar relevantes para de forma conjunta definir as medidas e a forma da sua implementação”.

Castelo do Bode. Foto: Carlos Silva

Tendo em conta as preocupações públicas de agricultores, ambientalistas e empresários turísticos de Castelo do Bode, a APA entende ser preciso “realizar uma gestão que permita garantir os usos prioritários e a manutenção dos ecossistemas aquáticos na albufeira e a jusante” e alerta os diversos setores e todos cidadãos que “devem aumentar a eficiência e a poupança” da água.

“Os efeitos das alterações climáticas fazem-se sentir cada vez com maior intensidade e como se verifica não basta construir barragens, é preciso que estas encham pelo que aposta tem de ser sobretudo na eficiência, na utilização de águas para reutilização, diminuindo os volumes de água natural captados”, conclui.

C/LUSA

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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2 Comentários

  1. Tenho casa, junto á barragem á mais de 30 anos,nunca vi a barragem neste estado, é lamentável que só pensem nos lucros a produzir energia.No Verão vamos querer água para beber e não a temos. é falso quando dizem que a barragem esta a 61% .a barragem está a uns 40/% e continua.m diariamente a produzir energia.

  2. Já estava à espera que a APA do governo , pusesse as culpas no mau ano hidrologico em vez de culpar o fecho das centrais electricas.
    Devem julgar que o zé povinho é todo entupido!

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