Com o domingo a chegar ao fim, começam a levantar-se as tendas e a fazer-se o regresso de milhares de festivaleiros ao “mundo real”. Está cumprida a 13ª edição do Bons Sons, que este ano se realizou entre 6 e 9 de agosto, 20 anos depois da primeira. E o que fica destes dias é tão rico e tão intenso que seria impossível resumi-lo em mil imagens ou em mil palavras. Mas tentamos.
Há algo na aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar, que se sente antes de se conseguir explicar: ali, ninguém é de fora. Todos são bem-vindos e acolhidos como parte da família. Basta chegar.
Há uma harmonia palpável no ar e, mesmo nos dias mais concorridos, com milhares de festivaleiros, nunca houve desacatos. Há quem lhe chame Woodstock à portuguesa, e não é exagero: Cem Soldos é paz, é amor, é uma aldeia inteira a abrir a porta de casa, como quem recebe mais um amigo.




Ana Is talvez saiba explicar. Nasceu no mesmo ano da estreia dos Bons Sons e está com um grupo de amigos, todos com 20 anos. Não é a sua primeira vez em Cem Soldos. “Eu venho já desde pequena, vinha com os meus pais. Gosto muito dos concertos e da energia deste festival. É pequenino, dá para nos sentirmos bem cá. Por ser numa aldeia, por ser feito pela comunidade, não é como os grandes festivais de verão. É a sua própria cena.”




Durante o dia, quando a música ainda não subiu aos palcos e as ruas respiram devagar, o festival é sobretudo das crianças. Andam aos pares, em bando, aos molhos, ao colo, às cavalitas, a correr entre quintais e palcos improvisados, como se toda a aldeia fosse um parque gigante.
Não haver carros a circular ajuda à sensação de segurança, mas ali parece materializar-se uma versão ainda mais bela da máxima “é preciso uma aldeia para educar uma criança” … é como se toda a gente tivesse um olho nos mais pequenos, zelando pelo seu bem-estar.
Com os anos, os jovens casais com filhos pequenos tornaram-se num dos públicos mais fiéis do Bons Sons, talvez porque ali se sentiram acolhidos como em nenhum outro local. As crianças não pagam bilhete até aos 12 anos e a sua presença não é “apenas” tolerada, é celebrada. Há inúmeras atividades pensadas para os mais pequenos, como jogos tradicionais ou passeios de burro, e uma programação musical específica para bebés e crianças, entre as 10h00 e as 13h00.



Além das crianças, saltam à vista os cães (companhia bem-vinda de vários campistas), e dezenas de pessoas em cadeira de rodas, a circular sem obstáculos nem olhares de circunstância. É também o resultado de uma ideia simples que o Bons Sons pôs em prática, no esforço de inclusão que viria a dar corpo ao seu Plano para a Diversidade, e que acabou por inspirar uma nova política pública: Ministério da Cultura seguiu o exemplo da aldeia e passou a oferecer entradas gratuitas a quem acompanha pessoas com mobilidade reduzida. Quem disse que não podem nascer grandes ideias nos lugares mais pequenos?
O Bons Sons começou há 20 anos numa aldeia que poucos sabiam apontar no mapa e hoje faz parte do roteiro obrigatório de festivais musicais em Portugal (e ganhou por mais de uma vez prémios no Iberian Music Awards) porque houve um grupo de jovens que não aceitou a sina do isolamento no “interior”. Que decidiu dizer que a aldeia não tem de ser um lugar de onde se sai, que a aldeia também pode ser um lugar para construir mundo e que pode haver outra lógica, além da do mercado, quer na programação cultural quer nos “modelos de negócio”.
Este continua a ser um projeto sem fins lucrativos, construído em comunidade em regime de voluntariado, e todas as receitas geradas pela bilheteira são aplicadas em projetos sociais e culturais que beneficiam a aldeia a e qualidade de vida da sua população.




Foi obviamente importante Luís Sousa Ferreira ter crescido naquele grupo de jovens de Cem Soldos, ele que tem espalhado o seu talento e teimosia criativa por Portugal inteiro – do 23 Milhas, em Ílhavo, ao Teatro Nacional D. Maria II, onde hoje é adjunto da Direção Artística. Mas Sousa Ferreira passou o testemunho da direção do Bons Sons em 2019, e há muito que se provou que o sucesso do festival não dependia de uma (ou duas, ou três pessoas), nem foi um golpe de sorte ou uma “trend” fugaz.
O Bons Sons impôs-se, edição após edição, como um projeto pensado por muitas cabeças e acarinhado por uma aldeia inteira, com a responsabilidade de o pôr de pé a ser passado de geração em geração.
Sem subsídios estatais milionários, não é fácil… obriga a muito trabalho e determinação. Mas vendo os sorrisos de quem por ali passa, da criança às cavalitas do pai ao festivaleiro mais velho, sentado no “camarote-varanda” de uma casa emprestada, só nos ocorre parafrasear Fernando Pessoa: vale mesmo a pena, quando a alma não é pequena.
O Bons Sons tornou-se bianual, por isso o reencontro só está marcado para 2028. Até lá, ficam as memórias de mais uns magníficos dias de música, festa e comunhão, e fica sobretudo a prova de que as raízes deste festival estão bem fixadas em Cem Soldos, a aldeia onde, durante uns dias de agosto, parece caber um país inteiro – mas onde cabe, sobretudo, uma ideia diferente de país.















