A Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS) não se conforma com corte de apoios à formação. Foto: DR

O presidente da Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS) não se conforma com o corte dos apoios pré-estabelecidos para o plano de formação distrital dos últimos dois anos, tendo mostrado a sua indignação por uma “decisão unilateral e discriminatória” do presidente da Federação Portuguesa de Judo.

“A decisão do Presidente da Federação Portuguesa de Judo (FPJ) relativa à não concessão de apoio financeiro à Associação de Judo do Distrito de Santarém (AJDS) pela execução do plano de formação dos anos 2020 e 2021 (ações de formação/ cursos destinados a treinadores, árbitros e dirigentes) coloca em causa o plano de formação para 2022”, afirma Pedro Leal, em comunicado, relativamente a uma decisão que deixou “perplexos” os dirigentes da AJDS.

“A FPJ incluiu 15 ações de formação/cursos a organizar pela AJDS nos seus planos de atividades 2020 e 2021, celebrou com o IPDJ contratos-programa de desenvolvimento desportivo destinados a financiar as ações de formação/cursos dos seus planos de atividades” e “a AJDS executou, no ano de 2020, sete (7) ações de formação e, no ano 2021, oito (8) ações de formação destinadas a melhorar as competências de treinadores, árbitros e dirigentes”, pode ler-se.

Ainda na mesma nota, Pedro Leal afirma que “a FPJ recebeu do IPDJ, através dos contratos-programa de desenvolvimento desportivo, os correspondentes valores destinados a comparticipar os custos com as ações de formação e cursos organizados”, tendo a AJDS, desse modo, manifestado “publicamente a sua indignação” para com uma decisão” que, assegura, “irá contestar nos locais próprios para o efeito”.

O jornal mediotejo.net pediu esclarecimento á Federação Portuguesa de Judo, presidida por Jorge Fernandes, que ainda não foram prestados ao nosso jornal. Em declarações ao mediotejo.net o presidente da AJDS, Pedro Leal, falou de uma situação que está a gerar desconforto no seio da Associação de Judo do distrito de Santarém, e que pode influir no trabalho formativo da presente temporada.

ÁUDIO | PEDRO LEAL, PRESIDENTE ASSOCIAÇÃO JUDO DISTRITO DE SANTARÉM:

“A Associação de Judo do Distrito de Santarém é uma instituição de utilidade pública, portanto como tal, persegue a sua missão, os seus fins, respeitando exatamente essa característica de ser de utilidade pública. Nós desenvolvemos o judo no distrito de Santarém e dentro dessa missão, cabe-nos também o setor da formação. Nos últimos anos temos desenvolvido em conjunto com a Federação um conjunto de ações de formação, destinadas a treinadores, atletas e árbitros, e essas ações têm sido incluídas no plano de formação da Federação e têm recebido por parte do IPDJ, portanto, por parte do estado, apoios financeiros que deveriam ser canalizados para a Associação de Judo do Distrito de Santarém”, começou por referir.

“Acontece que o senhor presidente da Federação, apesar das nossas insistências, recusa-se a dar qualquer comparticipação, chegando ao ponto de dizer que não deve nada à Associação de Santarém, e, portanto, como tal, a nossa posição de indignação, porque sem de facto recebermos aquilo que nos é devido, temos dificuldades em cumprir os planos e nós necessitamos de continuar a formar, a formação é absolutamente essencial para o desenvolvimento e para a qualidade”, frisou o dirigente desportivo.

“O nosso presidente da Federação de Judo está envolvido ultimamente em algumas polémicas, esta é mais uma, portanto polémicas que têm a ver com atletas, polémicas que têm a ver com associações e esta é mais uma que nos cabe, se calhar, entretanto, ainda vão surgir mais queixas relativamente a esta situação”, afirmou Leal.

O que poderá ter motivado esta decisão, uma vez que nos anos anteriores havia financiamento?

“Decisão unilateral, discriminatória do senhor presidente da Federação. Portanto, se calhar que se perguntar a ele, ele responde que não deve nada e que nós não temos direito a nada, mas é uma discriminação que ele faz, que eu saiba também não é só com a nossa associação, ou pelo menos acabei de falar com o presidente de outra associação que nos disse exatamente o mesmo (…) portanto esta é uma situação que começa de facto a causar alguns constrangimentos, mais ainda, e principalmente, no movimento associativo que necessita de apoios, que passou uma crise de dois anos difícil também com a pandemia, e que vê-se aqui espoliada daquilo que tem direito. Nunca tal aconteceu nos anos que eu me conheço como dirigente e está a acontecer agora”.

E esta decisão pode colocar em causa o plano de formação?

“Coloca em causa o plano de formação, pois é evidente. Nós temos muito ou pouco dinheiro – não vou falar em montantes – mas são significativos e, portanto, esse dinheiro faz-nos falta para manter as ações de formação, para pagar aos formadores, para pagar as questões da estrutura, etc. Portanto é uma decisão unilateral do senhor presidente da Federação Portuguesa de Judo, eu não sei se os outros órgãos estão a par, mas enfim, com este comunicado já com certeza as pessoas tomaram alguma sensibilidade, e até pode ser que o senhor presidente tome a iniciativa de nos pagar o que nos deve, talvez”…

Algum comentário mais relativamente a esta situação?

“Eu diria, com alguma tristeza, que aprendi na história que um indivíduo romano incendiou Roma. Parecido com ele, só este presidente que está a incendiar o judo todo. É o que eu acrescento, com pena minha, porque de facto o espírito do judo não é este, a filosofia da modalidade não é esta e aquilo que uma modalidade olímpica como o judo é, e de grande prestígio entre a sociedade portuguesa, necessita é de união para trabalhar, onde não quer dizer que não sejamos adversários, mas não podemos ser é inimigos, e é o que de facto está a acontecer”, concluiu Pedro Leal.

Judocas contentes com “algumas questões resolvidas” mas sem esquecer tratamento

O desconforto e as críticas à atuação da Federação, nomeadamente do seu presidente, têm sido notícia também em termos olímpicos. A judoca Telma Monteiro destacou a forma como “ficaram resolvidas algumas questões técnicas” após uma reunião da federação com o Comité Olímpico de Portugal e o Governo, mas sem esquecer o tratamento que tiveram os atletas.

“Não esquecemos como fomos tratados, continuamos em tolerância zero com qualquer falta de respeito que possa continuar a acontecer. Deixámos claro que receamos represálias, mas que fique também claro que iremos continuar a expor e reportar qualquer situação de falta de respeito e consideração, assim como caso não se verifique um cumprimento daquilo que ficou decidido nesta reunião”, pode ler-se na nota publicada pela atleta olímpica nas redes sociais e que também foi divulgada por outras duas subscritoras de uma carta aberta, no caso Rochele Nunes e Patrícia Sampaio.

A nota refere-se a uma reunião entre o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Correia, com o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Manuel Constantino, e o líder da Federação Portuguesa de Judo (FPJ), Jorge Fernandes.

O encontro, a que se seguiu nova reunião do governante com judocas, vem na sequência de uma carta aberta de sete atletas a criticar o funcionamento da modalidade em Portugal e a denunciar um “clima insustentável e tóxico” promovido por Jorge Fernandes.

Além das questões técnicas, Telma Monteiro, Rochele Nunes e Patrícia Sampaio dizem ter sido informadas de que “relativamente ao que tem sido o comportamento do presidente da federação para com os atletas”, a situação “pode ser reportada ao Instituto Português do Desporto e Juventude”.

“Queremos sempre o melhor para a comunidade do Judo. Agradecemos a todos o apoio nesta fase. Continuamos juntos e vamos continuar a defender os valores do Judo. Agradecemos a atenção dada pelo presidente do COP e do secretário de Estado, com quem continuaremos em contacto”, pode ler-se na missiva.

João Paulo Correia, que tornou pública a reunião e os resultados da mesma na rede social Twitter, referiu que Fernandes “apreciou as sugestões apresentadas pelo grupo de atletas”, levando a uma série de medidas acordadas entre as partes, desde logo “corresponder ao pedido formulado de que a participação em estágios internacionais, assim como competições fora do país”, resultem de um planeamento acordado entre federação, treinador e atleta.

Segundo o secretário de Estado, que também reuniu, posteriormente, com os atletas, foi acordado “ajustar o valor pago a cada atleta para apoio à deslocação, de acordo com as tabelas oficiais da administração pública”.

Para depois dos Mundiais de judo, que vão decorrer em Tashkent entre 06 e 13 de outubro, fica agendada “uma reavaliação do sistema de estágios nacionais ouvindo os respetivos treinadores e selecionadores”.

A carta é subscrita por sete dos 10 atletas do projeto olímpico da modalidade: Telma Monteiro, Bárbara Timo, Rochele Nunes, Patrícia Sampaio, Catarina Costa, Anri Egutidze e Rodrigo Lopes.

Na missiva, são muitas as críticas ao presidente da Federação Portuguesa de Judo, Jorge Fernandes, acusado de discriminação e ameaças, no que dizem ser um “clima insustentável e tóxico”.

Um dos pontos reiteradamente apontado pelos judocas, cinco dos quais são atletas do Benfica, é a necessidade de efetuarem 70/80% dos 52 estágios em Coimbra, o que, segundo os mesmos, lhes causa “desgaste emocional” e impede de “participar em estágios internacionais e treinar com os melhores”.

Entretanto, Jorge Fernandes rejeitou as críticas que lhe são feitas pelos sete judocas olímpicos, assinalando que existe um modelo para a competição e que o mesmo é para seguir.

As reações têm surgido de vários locais, entre eles da selecionadora Ana Hormigo, que se solidarizou com os atletas, mas também da Associação de Atletas Olímpicos de Portugal, que tomou a mesma posição.

c/LUSA

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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