Pormenor de porcelana de Massimo Esposito | Foto do autor

Nas últimas décadas marchandes, críticos e artistas direcionaram os gostos das pessoas para a arte abstrata ou conceitual, sobretudo aqui em Portugal. Se o quadro representa algo que se percebe e identifica é considerada arte de segunda ou, como já me disseram, “arte decorativa”.

Umas manchas, alguns riscos, papéis colados aleatoriamente, macrofotografias de muros ou bolores são definitivamente ARTE. Até pó de ferrugem dentro uma bacia que vibra é considerada ARTE ou um recipiente com cinzas, isto sim é ARTE. Uma fissura na entrada duma galeria de Londres por causa do mau procedimento a fazer o chão foi considerada ARTE pela artista que expunha naquele momento. Um tubarão em fatias e inserido em chapas de acrílico é ARTE.

Centenas de pratos partidos numa sala são ARTE no Guggenheim em Bilbao; um nó duma corda enorme é arte no CCB; um conjunto de canas numa sala é considerada escultura. Isto é o que nos impingem estes críticos e artistas. Eu sei que posso ser considerado antigo ou “velho”, sei que há muitos que gostam de ter este tipo de ARTE em casa e nada tenho a dizer quanto a adquiri-los e admirá-los, mas eu não consigo! E outros dizem que gostam porque o “tipo” da galeria diz que é ARTE. Além disso, a preparação técnica e artística de muitos “galeristas” em Portugal é deficiente e fraca, tratam uma galeria como uma mercearia e não como uma montra de novas visões e novos artistas que teriam de promover.

Mas será assim? Se pesquisarmos na internet poderemos ver que há um ressurgimento da arte realista ou, pelo menos, perceptível. Na vizinha Espanha há galerias, grupos e academias que só expõem arte realista – em Barcelona há um concurso que é dos mais procurados e só aceita para exposição arte realista. Em Itália, nos E.U.A. e no Brasil vários artistas são considerados os melhores e os mais prometedores, já para não falar dos grandes artistas emergentes do oriente.

Temos de entender que não podemos ser manipulados por alguns pretensos críticos que, com lindas palavras, estranhas paráfrases e raciocínios elaborados fazem pensar que… “o que não entendes é A ARTE”. Há um professor de pintura em Lisboa (e não será o único) que diz aos alunos que não vale a pena estudar anatomia, perspetiva e teorias das cores, que devem pôr na tela “o que têm dentro deles”. Um aluno respondeu que o que ele tinha dentro dele eram só tripas cheias de excrementos.

Se vamos ver do que gostam os jovens, a maioria diz GRAFFITI. Dos graffiti, 99% são realistas e muitos são hiper-realistas. Tenho alguns alunos jovens que querem aprender a fazer rostos e corpos para se dedicar a isto, lêem BD de óptimos desenhadores e afixam posters de Goya, Monet, Klimt e Van Gogh nos seus quartos.

Para resumir, não temos de seguir as modas ou o que dizem os outros, mas pensar pela nossa cabeça, ver realmente o que gostamos e apreciar com gosto, sem temor de sermos considerados “velhos”. E lembrar que a arte é “DECORATIVA” desde sempre: do Egipto aos romanos, da capela Sistina aos murais de Siqueiros ou Rivera e até aos graffiti de Whils ou Cobra.

Aprofundemos os nossos conhecimentos artísticos, libertemos as nossas mentes e apreciemos à vontade do que gostamos!

Pintor Italiano, licenciado em Arte e com bacharelato em Artes Gráficas em Urbino (Itália), vive em Portugal desde 1986. Em 1996 iniciou um protejo de ensino alternativo de desenho e pintura nas autarquias do Médio Tejo que, após 20 anos, ainda continua ativo. Neste projeto estão incluídas exposições coletivas e pessoais, eventos culturais, dias de pintura ao ar livre, body painting, pintura com vinho ou azeite, e outras colaborações com autarquias e instituições. Neste momento dirige quatro laboratórios: Abrantes, Entroncamento, Santarém e Torres Novas.

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