Árgea, exaltação à força colectiva, por Júlio Costa. Foto: DR

As localidades não são caixotes do lixo dos interesses económicos, nem as populações são algo descartável – que se usa quando interessa, que se deita fora quando não anuem.

A população de Árgea é um exemplo, na sua luta contra a possibilidade de instalação de uma unidade de biometano. Todo um processo que se germinou na sombra, mas que a persistência e resistência da população trouxe à luz do dia. A população decidiu agarrar nas suas mãos o destino da sua terra, das suas vidas e do bem-estar dos seus vizinhos. Um exemplo, portanto, construído por atitudes exemplares.

Os moradores, movimento de defesa de Árgea, colectividade, comissão de utentes, autarcas, partidos, todos a trabalharem para que a mencionada unidade não seja implantada. Alguns, que até contribuíram para o lançamento da primeira pedra deste processo – mas nada resiste à pressão das populações. Desconhecimento prévio ou mutação de interesses (PS, PSD, MPNT eram do executivo passado), o registo mudou, parece que está tudo alinhado contra o dito empreendimento. As consequências do dito são bem conhecidas: degradação da qualidade do ar, maus-cheiros, poluição dos solos, (in)acessos, etc. Uma série de factores que tornariam a vida em Árgea e nas suas imediações insuportável. Há vários pareceres especializados que concordam com o desagrado da população.

O PCP, desde o primeiro momento, envidou esforços para apoiar a população nesta sua batalha. Ao nível institucional, fez perguntas ao governo, levando às instâncias superiores as preocupações das populações. Na Assembleia Municipal de Torres Novas, foi apresentada uma moção contra esse empreendimento (tendo contado com a unanimidade favorável). Nas ruas, nas redes, no contacto directo, fizemos por divulgar, apelar à participação na consulta pública, apelar à assinatura dos abaixo-assinados, mobilizar para reuniões e concentração. E uma coisa garantimos, levaremos a luta até ao fim! E é isso que se exige de quem diz apoiar a causa. Não bastam as palavras bonitas. As posições têm de ser consequentes. O apoio tem de ser prático e firme. Exige-se transparência.

Todo o processo está bem documentado. Já foram escritos muitos artigos e posições em torno do assunto. Este é mais um. Contudo, há uma força da população que não podia deixar de exaltar. Aí reside o coração desta luta e a vitória inevitável. Repito: um exemplo. Um exemplo a seguir não só nas questões extremas, mas em todos os momentos da vida colectiva. A união faz a força, dizem, e dizem bem. As melhorias das nossas vidas, dos locais, dos serviços públicos, passam todos por esta força, por este empenho.

Nota final. Todos os tipos de instalações têm o seu local próprio para existir. As energias renováveis são necessárias e desejáveis: em locais adequados, onde não prejudicam as populações. O retrocesso social não é ecológico.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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