Além Mundus abre “casa própria” em Bioucas para criar, pensar e aproximar cultura da comunidade. Foto: AM

A associação Além Mundus inaugura esta segunda-feira, 5 de outubro, em Bioucas (Souto), o Espaço d’Além, instalado na antiga escola primária da localidade. A nova “casa” pretende acolher programação cultural ao longo do ano, residências artísticas e projetos participativos, reforçando o trabalho desenvolvido pela associação no norte do concelho de Abrantes.

Cedida pelo Município de Abrantes, a antiga escola passa a funcionar como base de trabalho da associação e como espaço aberto à criação, formação, participação comunitária e acolhimento de artistas e projetos. A inauguração começa às 16h00, com entrada livre, e inclui uma conversa e um DJ set.

“Passamos a ter ‘casa própria’. Temos mais liberdade para continuar os projetos que temos vindo a desenvolver e para aprofundá-los”, explicou ao mediotejo.net Carolina Serrão, da equipa nuclear da Além Mundus, que integra também Sofia Estriga.

Entre os projetos que passam a beneficiar do espaço estão as sessões de programação participativa e o trabalho de construção da Festa do Futuro, assim como os ensaios do Grupo de Teatro Comunitário. A associação pretende ainda manter uma porta aberta semanalmente à população, criando condições para que do contacto regular com a comunidade possam nascer novas propostas.

“Agora passamos a ter uma porta aberta semanalmente onde as pessoas podem aparecer, conversar connosco e daí podem surgir novas ideias para novos projetos culturais”, afirmou Carolina Serrão.

Teatro, música, oficinas e residências artísticas

O Espaço d’Além permitirá, segundo a responsável, desenvolver uma programação anual mais consistente, com teatro, música, workshops e residências artísticas, além de recuperar projetos anteriormente realizados no território, como “Mulheres dos Pinhos e dos Calitos” e a exposição de cianotipia “Recuperar territórios. Todos aos Lavadouros”.

A relação com a comunidade continuará a ocupar um lugar central. Carolina Serrão e Sofia Estriga vivem no Souto, próximo de Bioucas, uma circunstância que a associação entende como determinante para manter uma ligação quotidiana com o território.

“As pessoas são a nossa força e é sempre dos seus anseios, dos seus desejos, que partimos para o trabalho de programação”, afirmou Carolina Serrão, acrescentando que o objetivo é evitar que o novo espaço se transforme num lugar frequentado apenas por artistas e profissionais da cultura.

“Já vivemos em Lisboa e já vimos grandes salas de teatro quase só com artistas e trabalhadores da cultura na assistência. Não queremos o mesmo aqui”, sublinhou.

Essa discussão começa logo na inauguração, através da conversa “Pensar sem Barreiras?”, uma das ações de mediação que pretende ouvir a comunidade sobre aquilo que poderá ser feito no espaço.

“Este é um espaço aberto. A ideia é que quem vive aqui em Abrantes ou no Médio Tejo possa ter um espaço para mostrar a sua arte, seja na música, artes plásticas, artes performativas”, sustentou.

“E Depois do Futuro” pergunta que futuro existe para quem fica à margem

A abertura do Espaço d’Além serve também para apresentar “E Depois do Futuro // Ciclo de Teatro & Pensamento”, nova programação que parte de uma questão: “Que futuros são possíveis para quem se encontra em situação de exclusão ou marginalização?”

O ciclo vai abordar territórios e pessoas que a associação considera invisibilizados ou marginalizados e inclui o arranque de um Grupo de Teatro Inclusivo, em parceria com o CRIA, e uma edição ao vivo do podcast “Memória Futura”, na qual Laura Falésia entrevista Helena Bandos.

Está ainda previsto “Assim Vai o Mundo”, espetáculo de formas animadas que propõe uma leitura do tempo presente sem recurso à palavra, abordando temas como as guerras, o aumento do custo de vida e o crescimento dos fascismos.

A programação inclui igualmente uma leitura encenada de um texto de Constança Bourgard, com encenação de Leonardo Garibaldi e interpretação do GETAS e do Palha de Abrantes. A dramaturga ficará também em residência artística e escreverá o próximo texto a trabalhar pelo Grupo de Teatro Comunitário.

O trabalho partirá da ideia de “Inventar a Aldeia”, procurando, segundo Carolina Serrão, contrariar uma visão dos territórios rurais centrada apenas no passado e na memória.

“Para nós, é importante olhar para um território rural com uma perspetiva de futuro. Nós que vivemos aqui temos coisas a dizer ao mundo, temos perspetiva de futuro e é isso que temos de pensar em coletivo”, afirmou.

O ciclo terá ainda um espetáculo participativo da companhia Os Possessos, no qual o público será convidado a deixar mensagens para o futuro, e uma conversa com estruturas culturais do distrito de Santarém sobre as condições de viver e trabalhar culturalmente num território que, nas palavras da associação, é muitas vezes excluído.

Artista italiano em residência durante um mês

O Espaço d’Além deverá reforçar também a ligação da associação a redes internacionais. Carolina Serrão adiantou ao mediotejo.net que, em 2027, o artista italiano Paolo Lolicata permanecerá durante um mês em residência em Bioucas, ao abrigo de financiamento do programa Culture Moves Europe, através do Goethe-Institut.

Durante a residência estão previstas oficinas com crianças e com a comunidade, bem como o desenvolvimento de um trabalho artístico sobre o território, que culminará numa apresentação pública.

“Também nos interessa este confronto entre quem vem de fora e quem vive aqui, seja há muito tempo ou há pouco tempo”, explicou Carolina Serrão.

Quanto à sustentabilidade do novo espaço, a associação pretende continuar a candidatar-se aos mecanismos de financiamento disponíveis, defendendo que o apoio público às artes é essencial para garantir o acesso da população à cultura.

“O financiamento às artes serve para as pessoas poderem ter acesso”, afirmou Carolina Serrão, defendendo que a associação continuará a trabalhar “no sentido da democracia cultural e da democratização da cultura” e a procurar financiamento que permita manter o Espaço d’Além acessível.

Questionada sobre onde gostaria de ver o projeto dentro de alguns anos, a responsável aponta sobretudo para o crescimento da participação.

“Gostaríamos de estar onde estamos, mas com mais pessoas envolvidas. A nossa ideia é sempre crescer e aumentar o número de pessoas que quer participar, que quer criar, que quer fazer, que quer ser.”

A inauguração do Espaço d’Além – lugar de criação, arte e saberes acontece esta segunda-feira, 5 de outubro, às 16h00, na antiga Escola Primária de Bioucas, com entrada livre.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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